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Purificação Tavares: Fundadora e CEO CGC Genetics

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Purificação Tavares, especialista em genética médica da Ordem dos Médicos e Professora Catedrática de genética médica, garante que a sua equipa “não espera pelo futuro, preferindo construir o presente”, um presente que se exprime na realização de mais de 35% das análises de diagnóstico pré-natal feitas no nosso país.

Quase podemos dizer que a medicina, em particular a medicina genética, lhe está no ADN…

Bem, afeção autossómica dominante. Sabe que quando acabei o curso de medicina tendia para obstetrícia, mas o meu pai motivou-me, entusiasmou-me para a genética, porque era uma área nova, emergente, e ele queria recrutar assistentes –  e bem!

Fundou em 1992 o primeiro laboratório privado de genética em Portugal e inseriram de imediato o rastreio pré-natal na Península Ibérica. Na altura foram bastante criticados, talvez por ignorância de algumas pessoas. Na atualidade acha que as pessoas estão mais conscientes e preocupadas com a necessidade de realizar testes genéticos?

Quando regressei dos Estados Unidos da América (EUA), fizemos a expansão laboratorial do centro, que até então consistia apenas numa consulta de genética médica; trouxe a rotina que fazia no hospital e isso incluía o rastreio pré-natal. Foi muito difícil a implantação, sobretudo porque na época partia de uma entidade privada. Foi uma conquista de terreno mais difícil do que hoje é.

Na época tínhamos o rastreio pré-natal, fomos os primeiros a fazer no país. E o ano passado também fomos os primeiros a realizar localmente o novo teste não invasivo – o Tomorrow, também em diagnóstico pré-natal, mas apenas no sangue da mãe. É uma área onde estamos muito orgulhosos porque fomos pioneiros.

E hoje em dias as pessoas estão mais recetivas para a realização desse tipo de testes?
Sim, há muito mais conhecimento e as pessoas podem optar pelas vantagens da realização dos testes.

Por que razão uma pessoa deverá recorrer a uma consulta de medicina genética?

A genética é uma especialidade médica da medicina, é uma especialidade como as outras. Dedica-se ao estudo das doenças hereditárias, fazendo o diagnóstico da doença hereditária e identificando a mutação que poderá estar presentes em outros indivíduos na família e depois orientar as pessoas nesse sentido.

Dedicamo-nos principalmente às áreas de cancro, diagnóstico pré-natal, doenças raras e doenças oncológicas.

Dentro do número de 3800 testes que realizam, as incidências e os testes mais procurados têm a ver com essas doenças que referiu?

Os testes mais utilizados são os que procuram diagnóstico ematraso de desenvolvimento e cancro. Em atraso de desenvolvimento através de análises como CGH [técnica analítica de alta resolução que permite um estudo detalhado de todo o genoma], o exoma [maior painel de sequenciação genética disponível] e para o cancro, por exemplo, os testes [dos genes] BRCA 1 e 2 para cancro de mama que são muito utilizados. E também agora o novo teste não invasivo pré-natal que está a ter uma grande divulgação.

A investigação em saúde exige recursos, quer humanos muito qualificados, quer equipamentos tecnológicos de topo de gama. Como é que conseguem gerir o vosso investimento em investigação, desenvolvimento e inovação (i&di)?

Há três tipos de investimento – humano, tecnológico e o financeiro. Nós temos um plano de i&di através do qual identificamos ideias, projetos. Fazemos um levantamento transversal e depois de analisamos cada projeto, escolhemos e alocamos as verbas e as pessoas necessárias para levar o projeto até ao fim.

No entanto ter uma empresa de alta tecnologia na área da saúde também acarreta riscos e obstáculos. Consegue indicar algum em particular?

Claro, os riscos são muitos e variados. Isto quase diria que é uma situação de crise permanente, mas com algum controlo. No ano passado, tivemos um crescimento de 22% numa área nova, e trabalhamos para hospitais em 56 países, neste momento. Numa área que é muito dinâmica, temos de estar sempre à frente. É aquele fascínio de estar sempre numa situação de risco.

E consegue durante este tempo todo manter-se sempre à frente?

A maior motivação é a vontade e nós temos muita vontade de estar sempre à frente para poder crescer e realizar o nosso projeto. Temos o skill and will e isso é uma receita para o sucesso, mas tem de ser constante e permanente. No entanto não é fácil conseguir estar sempre à frente, apesar de que, teoricamente, no mercado existe the best and rest, mas é um esforço tremendo estar na linha da frente, não é fácil. É fantástico, mas não é fácil.

Estar exatamente na linha da frente numa área que diz que é das mais complexas que temos. Como é que conseguem inovar? A tecnológica dá uma ajuda?

A inovação surge a partir das próprias pessoas, da observação, da análise, de melhorar o que já existe, de olhar para as mesmas coisas e arranjar outras soluções. Nós fomentamos muito tudo o que é inovação para diagnóstico e validação.

Além de Portugal com escritórios no Porto e em Lisboa, também estão presentes em países como Espanha, em Madrid, e na cidade de Nova Iorque, nos EUA, além de acordos internacionais, como disse em mais de 56 países. Não têm tido problemas na entrada nos vários mercados e países, sobretudo, ao nível da qualidade e certificação?

Não, nós estamos em programas de qualidade da área e somos auditados. Os auditores vêm aos laboratórios aqui do Porto, quer da Europa, quer dos EUA, nós somos auditados para as certificações que temos.

Há algum mercado que neste momento estejam de olhos postos ou que ainda queiram investir um pouco mais?

Temos mercados geográficos, por exemplo América Latina, Médio Oriente e agora a Ásia, mas também temos outros mercados que não são geográficos, que são os mercados dos testes novos para a mesma população.

Diria que será importante identificar as unmet needs (necessidades não satisfeitas) do mundo global, porque haverá sempre áreas de necessidade e essas
áreas com necessidade de diagnóstico genético são aquelas que temos de procurar encontrar e servir bem. Tudo isto é uma lição de humildade no dia a dia.Captura de ecra¦â 2016-03-23, a¦Çs 14.36.41

Entre 1985 e 1989 quando esteve nos EUA não identificou diferenças significativas no grau científico da cidade do Porto, de onde vinha, em relação à cidade de Nova Iorque onde estava. Hoje me dia acredita que Portugalestá a par dos EUA, da Europa, do resto do mundo nesse campo?

Sim, acho que a preparação que temos em Portugal surpreende as instituições para onde os portugueses vão e nunca vi uma diferença grande, por exemplo na minha área e dos nossos colaboradores com os colaboradores dos outros países.

Está satisfeita com o investimento nacional na investigação e desenvolvimento na área específica da medicina genética?

Não posso referir-me ao investimento nacional. Posso referir que o nosso investimento é enorme. As verbas e recursos que alocamos para os nossos projetos são muito fortes.

Em 1992 fazer investigação privada em Portugal fora das universidades era algo raro, no entanto hoje em dia assiste-se a um esforço grande para que as empresas, as entidades privadas se reúnam e liguem com os centros de investigação. Vê isso concretizado ou ainda acha que há algo mais a fazer?

Acho que em Portugal há muito a fazer. Curiosamente estamos muito ligados a uma universidade, a Rutgers, em New Jersey. Fortemente ligados e com apoio. Mas não com as universidades portuguesas não encontro a mesma apetência.

Fazemos também investigação nossa, a nível interno.

Acha que essa falta de abertura nacional deveria ser mais promovida pelas entidades competentes ou é a questão da cultura portuguesa, não haver uma relação, interligação entre privados e públicos?
Eu creio que é um processo.

O ano passado numa conferência em que se debatia sobre o futuro dos cuidados de saúde em 2025, afirmava que o futuro não era daqui a 15 anos mas sim agora. Acredita que em breve será possível falar num mundo sem cancro?

Na genética é fantástico porque todas as metas têm sido alcançadas antes da previsão. Cada vez mais vemos que o futuro está a ser antecipado e há coisas que imaginávamos muito mais tarde e que estamos a fazer agora. Seria impossível há uns anos atrás imaginar que no nosso laboratório estamos a fazer exomas. Isto para uma pessoa de genética é de sonho. A informática também nos veio dar uma ajuda incrível. Hoje a informática catapultou o conhecimento e a quantidade de dados que conseguimos digerir e então tornou possível o próximo. O futuro é agora! E creio que o cancro será gerível até aparecer a nova situação que vai colocar um desafio para todos em termos de saúde.

Enquanto esteve nos EUA, identificou-se com muitos portugueses emigrados que sentem saudades de Portugal. Acredita que é imperativo os jovens portugueses emigrarem? Não há oportunidades suficientes no nossopaís?

Acho ótimo as pessoas tenham passado uns anos fora do país. Se não tivesse estado fora do país não teria a coragem para empreender um projeto deste tipo ou de procurar expandir desta forma.

Aprende-se a trabalhar com uma disciplina que é indispensável para atingir objetivos e que não existe no país na maioria das situações. Por isso acho indispensável e de um valor acrescentado quando as pessoas voltarem, porque de facto quando se vive fora às vezes é complicado.

Acha que a nova geração que imigrou tem essa vontade de voltar?

Se não tem agora vai ter.

Mulher. Mulher empreendedora. Médica. Investigadora. Com qual dos papéis se sente mais realizada e lhe dá mais satisfação?

Qualquer uma das áreas é suficientemente fascinante se a aprofundarmos o suficiente.

Quando expandimos o laboratório, face à dimensão do país, vimos encolher a escala e o salto para o exterior foi naturalíssimo. Nós prestamos um serviço com qualidade e humildade para poder sempre melhorar. Curiosamente a recetividade ao nosso serviço foi, e ainda é, muito boa e por isso tudo se liga no fim.

Por outro lado, uma empresa é um bem social. Temos colaboradores muito novos e de certa forma se formam para a vida e gosto de pensar numa empresa com uma atitude pedagógica. Nós não ensinamos apenas tecnologias e metodologias, passamos muito tempo juntos. Há muito que se ensina que as pessoas podem aprender se quiserem, porque passamos muito tempo juntos e temos essa obrigação para com os mais novos. Tudo isto pode dar um bom ambiente harmónico para todos.

Tem a consciência de que qualquer um de nós é capaz de fazer melhor do que aquilo que faz, o que é preciso é fazê-lo. O que é que ainda lhe falta fazer (e melhor)?

Tudo! Preciso de aperfeiçoar tudo o que não tenho tempo de aperfeiçoar, especialmente agora. Houve áreas em que já fui mais capaz do que sou agora. Agora são tantos os temas que de facto não tenho tempo para aperfeiçoar nada.

Pode indicar pelo menos um que gostaria de dedicar mais tempo?

Tantos… Fotografia, viagens, livros, música. Não tenho tempo.

Inovar é …

Criar valor. É desenvolver. É olhar para o mesmo e encontrar soluçõesdiferentes. É uma forma de estar.

Virtudes de uma empreendedora

O exemplo é o que fala mais alto. É o exemplo e muitas vezes também conservar a integridade perante a adversidade, que nem sempre é fácil.

Lema de Vida

Lincoln afirmou que “para pôr à prova o caráter de um homem, deem-lhe poder”. Mas eu digo que se o quiserem conhecer, retirem-lhe poder porque aí é que se veem os princípios e onde as pessoas vacilam.

App favorita

Não tenho tempo.

Hobbies

O único que ainda vou tendo são as viagens, porque observar e ter um olhar diferente ou captar perceções e abordagens diferentes sobre o mesmo tema é fascinante. Tenho áreas do globo que são favoritas: Indochina, algumas da América Latina, mas de facto viajar é uma aprendizagem. O próximo destino é entre uns lugares no Equador ou outra vez Indochina.

Citação: Cada vez mais vemos que o futuro está a ser antecipado e há coisas que imaginávamos muito mais tarde e que estamos a fazer agora.

 

 

 

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