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Pode “um comboio” partir do presente com destino ao passado?

Luís Mestre é responsável pela encenação e dramaturgia de A Chegada de um Comboio à Cidade, que sobe ao palco de 12 a 22 de julho
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Relações “solitárias”, triângulos amorosos, desejos reprimidos, arrependimentos do passado que condicionam o “agora” e incertezas sobre as gerações do presente que vivem numa sociedade cada vez mais tecnológica. Se a estes dramas juntarmos três mulheres que são a figura central de toda a história, temos os elementos base de Luís Mestre para a criação do seu mais recente espetáculo, no qual é responsável pela dramaturgia e encenação, participando ainda como ator. A Chegada de um Comboio à Cidade tem estreia marcada para amanhã, dia 12 de julho, no Teatro Carlos Alberto (TeCA).

Como fontes de inspiração máxima para este espetáculo, que dá continuidade a um ciclo de criações que têm como base clássicos da dramaturgia universal, Luís Mestre escolheu Henrik Ibsen e a sua obra Quando Nós, os Mortos, Despertarmos (1889). Escrita poucos anos antes da morte do dramaturgo norueguês, a obra expõe o sofrimento de viver uma vida que se constrói de remorsos e insatisfações, sublinhando o quanto existir assim pode ser pior do que a própria morte. Ibsen chama à atenção para o perigo de viver a vida dos “mortos-vivos”, recorrendo a três personagens que têm as suas existências, plenas de desejos reprimidos, interligadas.

Mantendo como fio condutor a ideia de como as decisões e as vivências (ou não vivências) do passado afetam o presente de todos nós, muito premente em Ibsen, Luís Mestre afasta-se, no entanto, das paisagens dos fiordes e da construção de um triângulo amoroso que tem como elemento central uma figura masculina. No espetáculo A Chegada de um Comboio à Cidade, o encenador faz uma abordagem às questões de género, colocando três mulheres no centro do palco, e também à reflexão sobre a aceitação das relações homossexuais, construindo um triângulo amoroso lésbico.

As personagens Tânia e Sílvia são o espelho de todos os casais que, apesar de estarem sempre juntos, vivem tristes e insatisfeitos, num casamento com a “solidão” e o “isolamento”. Integrada numa cidade vertical e tecnológica, que aufere todas as comodidades de uma sociedade moderna, é na estância balnear onde está com a sua mulher que Tânia reencontra Ana. Símbolo de uma outra fase da sua vida, Ana é o elemento que faz a ponte entre o passado e o presente da existência de Tânia, regressando para a fazer lembrar da necessidade de ir para lá do “agora”, através da recordação de um projeto comum.

Luís Mestre é o único elemento masculino da história e, talvez como uma analogia à sua condição de dramaturgo e encenador, interpreta o papel do arquiteto que habita no edifício que ele próprio desenhou, sendo responsável também por toda a tecnologia desse “não-espaço”, onde todo o espetáculo se desenrola. A Chegada de um Comboio à Cidade é também um espaço onde o encenador partilha a sua visão e preocupações sobre o presente, momento em que imperam a “opressão, o tédio e o apagamento” numa sociedade cada vez mais “multitasking”.

Assumindo-se como a última estreia da temporada 2017/2018 do Teatro Nacional São João (TNSJ), a peça pode ser vista, no TeCA, até dia 22 de julho. Resultando de uma coprodução do Teatro Nova Europa e do TNSJ – com apoio do Teatro Íntimo –, A Chegada de um Comboio à Cidade sobe ao palco à quarta-feira e sábado, às 19h00; à quinta e sexta-feira, às 21h00; e ao domingo às 16h00. A última récita terá tradução em Língua Gestual Portuguesa. O preço dos bilhetes é 10 euros.

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