Literatura

Livros: Faróis da minha vida – Moby Dick

Como classificar este livro ao qual só muito tarde na vida prestei a devida atenção? Para mim, como para muitíssimos leitores, basta uma só palavra para o definir: obra-prima.
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Por Manuela Gonzaga

Como classificar este livro ao qual só muito tarde na vida prestei a devida atenção? Para mim, como para muitíssimos leitores, basta uma só palavra para o definir: obra-prima. E contudo, nunca me tinha despertado a atenção, embora existisse lá por casa nos tempos da infância, em versão reduzida e adaptada do romance do norte-americano Herman Melville – publicado pela primeira vez em 1851 –, numa colecção chamada salvo erro «Biblioteca dos Rapazes». Foi só por volta dos meus 30 e poucos anos que reencontrei Moby Dick, na excelente edição que ainda conservo. Por desfastio, folhei e fui lendo uma e outra frase até dar por mim, compulsivamente, a ler páginas inteiras. O espanto e o deslumbramento foram tão grandes que voltei atrás. Ao princípio:
 
«Tratem-me por Ismael – Há alguns anos – não interessa quantos – achando-me com pouco ou nenhum dinheiro na carteira, e sem qualquer interesse particular que me prendesse à terra firme, apeteceu-me voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas. É uma maneira que eu tenho de afugentar o tédio e de normalizar a circulação. Sempre que sinto um sabor a fel na boca; sempre eu a minha alma se transforma num Novembro brumoso e húmido; sempre que dou por mim a parar diante de agências funerárias e a marchar na esteira dos funerais que cruzam o meu caminho; e principalmente, quando a neurastenia se apodera de mim de tal modo que preciso de todo o meu bom senso para não começar a arrancar o chapéu de todos os transeuntes que encontro na rua – percebo então que chegou a altura de voltar para o mar, tão cedo quanto possível. É uma forma de fugir ao suicídio.» [p. 25] 
 

Nunca mais consegui largá-lo até à última palavra. Em resumo, esta é a história do navio baleeiro Pequod e do seu capitão Ahab que, ao longo de uma viagem de três anos aparentemente destinada á pesca da baleia, vai perseguir o cachalote Moby Dick até ao reencontro final. Mas esta é, acima de tudo, uma saga onde se misturam vários géneros literários com uma série de reflexões sobre a condição humana que conjuga o romance épico, a grande reportagem náutica, referências constantes aos Clássicos, que o autor domina, numa prosa intercalada com dados sobre o conhecimento científico e popular da época no que concerne aos grandes cetáceos. Mas é também uma obra fruto de observação biográfica, cheia de ironia e de um olhar arguto que desce aos menores detalhes, a que não é alheia a dissertação filosófica sobre a grande solidão, que, em última análise, constitui a verdadeira viagem, numa grande metáfora pela busca de um conhecimento que se nos revela e se oculta, par e passo, ao longo dos caminhos implacáveis pelos grandes espaços marinhos, tão mutáveis, imprevisíveis e surpreendentes, mas também tão aterradores ou exultantes. 


Mas afinal é esta ou não a história de uma caçada à maior baleia que jamais foi vista e combatida, Moby Dick, o cachalote branco, o «monstro» perante o qual tremem todos os marinheiros pois que, mau grado ter sido ferido várias vezes, de todas as vezes escapou com argúcia, vingando-se dos seus atacantes e destruído todos os baleeiros que tentam abordá-lo? Sim. Mas não só. Inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que naufragou a 20 de Novembro de 1820 depois de ter sido atacado por um cachalote – episódio fatal que também serviu de inspiração a Nathaniel Philbrick, autor de No Coração do Mar – Moby Dick prende-nos, pelo menos a muitos de nós, da primeira à última página pela dimensão trágica da obra, no sentido clássico do termo. Melville leva-nos para dentro do Pequod, fazendo-nos subir ao alto do cesto da gávea, percorrer o convés de proa a popa, saltar para as baleeiras, e descer aos porões mais profundos, onde é guardado o óleo das baleias, o finíssimo espermacete, amplamente consumido na época, bem como outros subprodutos da pesca, como as famosas «barbas de baleia» dos corpetes femininos tão em moda. E com um espanto mesclado de maravilha, introduz-nos àquela tripulação excêntrica, de todas as raças e religiões, espécie de soldados da fortuna do mar, temerários até á insanidade, muitos dos quais enfrentam todos os perigos do mar para escapar a outros maiores que os aguardam em terra, ou, simplesmente, pelo lucro. Ou pela fome e sede de aventura. 

Image and video hosting by TinyPicEntre o enredo épico, as reflexões satíricas, filosóficas e a pura poesia, mergulhamos na essência do Homem, e, com Ahab vamos direitos ao coração da sua loucura, grandeza e solidão. Somos assim surpreendidos pelas explosões de loucura e mau humor mas também por intensos e improváveis afectos, como a amizade para sempre entre Ismael, o narrador, e seu melhor amigo Queequeg, um príncipe canibal de uma ilha no Sul do Pacífico. Ou o estranho afecto de Ahab pelo pequeno Pip que o segue em adoração, esse grumete que enlouqueceu de medo quando ficou largas horas abandonado à sua sorte, no mar. Navegando através do flutuante mundo das águas, cuja paisagem sempre em mutação regista, alternadamente, montanhas encrespadas da água em fúria, ou planícies cheias de miragens, sentimos o respeito sem limites que o mar impõe a quem o acomete, e a admiração indizível, recheada de medo e superstição, pelo cachalote que o comandante, o capitão Ahab esse homem «cheio de demónios», de quem os seus homens têm «mais medo do que do Destino», persegue delirantemente, infatigavelmente, desesperadamente. Por pura vingança, sendo a caça à baleia uma cortina de fumo, um engodo no qual arrasta toda a sua tripulação e o próprio navio, para o cataclismo previsível.  
 
Mesmo sabendo de antemão o previsível desfecho do livro, desejei, e desejo ainda, alternadamente que Ahab não consiga apanhar Moby Dick, ou que o faça para que aquela infernal perseguição tivesse um desfecho. Na mesma linha de contradições, desejei e desejo de todas as vezes que o releio, que o livro não termine nunca, embora chegue ao fim numa mistura de alívio e desgosto, sabendo porém que nunca mais o vou largar pois como o disse, entre outros Gabriel Garcia Marquez, os únicos livros que importam são aqueles que relemos. 
 
Contra-indicações: não aconselhável a leitores fugazes, pois requer a nossa atenção plena para usufruirmos da paixão contagiante da obra. Pode ser consumida lentamente. 

Ficha Técnica: MELVILLE, Herman (1962) – Moby Dick, trad. Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves, Lisboa, Editorial Estudios Cor.
 

Para viajar ainda mais visite o site Moby-Dick; or, The Whale.

 

Manuela Gonzaga é escritora. Mestre em História pela Universidade Nova de Lisboa, publicou, entre outros, a biografia de António Variações, a de Maria Adelaide Coelho da Cunha, e uma coleção juvenil, “O Mundo de André”, com a chancela do Plano Nacional de Leitura que já vai no 3º titulo. Visite o blog de Manuela Gonzaga em http://www.gonzagamanuela.blogspot.com/ ou o Facebook da autora em https://www.facebook.com/manuelagonzaga.

 

[Manuela Gonzaga escreve de acordo com a antiga grafia]

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