Ciência

Uma viagem no comboio do Nobel [Crónica]

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[António Piedade é Comunicador de Ciência e Investigador do Centro de Física Computacional da Universidade de Coimbra e publica quinzenalmente uma crónica no Boas Noticias]

Image and video hosting by TinyPicAlfredo estava muito entusiasmado. Ele e o seu avô Bernardo iriam fazer uma viagem no Comboio Nobel. O avô tinha bilhetes para três estações virtuais e nelas iriam conhecer as descobertas galardoadas com os prémios Nobel deste ano da Fisiologia ou Medicina, da Física e da Química.

O avô Bernardo chegou bem cedo, logo após a alvorada solar. Afagou-o com o abraço de quem conhece bem os atalhos que a ansiedade sulca na substância do pensamento. Entregou-lhe três bilhetes, um para cada estação, e lá foram em direcção à partida do comboio Nobel.

Bem instalados, Alfredo contemplou as paredes forradas com o espanto de outras descobertas. Olhou para o primeiro bilhete com a data de 4 de Outubro e, num abrir e fechar de olhos, viu pela janela a placa da primeira estação: Fisiologia ou Medicina.

O comboio Nobel parou suave e instantaneamente. Alfredo e o seu avô saíram e pisaram um chão como que feito de gelatina. Era gel de agarose, uma substância gelatinosa que os cientistas usam para várias coisas, entre elas para cultivar células, disse-lhe o avô. À medida de alguns passos, um enorme oócito II e o seu inseparável 1º glóbulo polar, pairavam majestosamente sobre eles.

Envolto pelas glicoproteínas constituintes da zona pelúcida, a célula germinativa femimina parecia iluminada por uma áurea interna. Enquanto a ponta romba de uma pipeta mantinha o oócito II a pairar levemente por cima deles, de uma outra pipeta muito mais fina eram inoculados espermatozóides. Alfredo e o seu avô assistiam espantados a uma fertilização in vitro (FIV).

Desenvolvida por Robert Edwards, o galardoado deste ano, a FIV daria origem em 1978 ao primeiro bebé-proveta, a Louise Brown. Desde então, cerca de 4 milhões de crianças já nasceram graças à FIV. Alfredo sorriu e abraçou o seu avô ao presenciar a fusão cariogâmica e o sequente emparelhamento dos cromatídeos paternos e maternos em 23 pares de 46 cromossomas.

De volta ao Comboio Nobel, Alfredo olhou para o bilhete que tinha inscrito 5 de Outubro. Viu pela janela que o seu pensamento já estava na estação da Física. Ao sair do Comboio pisou o que parecia uma rede muito fina tecida com átomos de carbono (C), estes dispostos nos vértices de inúmeros hexágonos contíguos. Tinha a mesma estrutura bidimensional de uma única camada da grafite do lápis que avô trazia no bolso e designava-se por grafeno.

Em 2004, Andre Geim e Konstantin Novoselov, os galardoados deste ano, conseguiram isolar uma monocamada de grafeno e descobriram que este arranjo de átomos de carbono possuía propriedades eléctricas, térmicas, mêcanicas entre outras com potenciais e excitantes aplicações nanotecnológicas.

O avô Bernardo gracejou: talvez a grafite do seu lápis desse, no futuro, para fabricar dispositivos electrónicos mais eficientes, mais pequenos, mais robustos. Talvez um super computador minúsculo estivesse por desenhar com a grafite do seu lápis! Alfredo olhou para a ondulante nuvem de electrões que fluía pelos átomos de carbono em arquitectura hexagonal e pressentiu invenções ainda escondidas adentro da imaginação.

Sentado de novo no Comboio, olhou para o último bilhete com a curiosidade reforçada pelas estações anteriores. O dia 6 de Outubro era a data que correspondia à próxima estação, e a Química o território em que esta se edificava.

Saíram do Comboio e entraram para um enorme erlenmeyer, vaso reaccional da próxima emoção. No centro, incansável, um átomo de paládio (Pd) aproximava átomos de carbono até à justa medida para que uma ligação covalente se estabelecesse entre eles. Depois, o composto assim formado “desprendia-se” do paládio catalisador que retomava o princípio sem se gastar.

Os galardoados deste ano desta estação foram Richard Heck, Ei-ichi Negishi e Akira Suzuki, químicos muito relevantes. O avô Bernardo acrescentou que eles desenvolveram em particular uma reação designada por acoplamento cruzado catalisado por paládio, um dos processos mais sofisticados da química actual.

São reações usadas quotidianamente em indústrias tão distintas como a petrolífera e a farmacêutica. Permitem uma mais eficaz e menos poluente síntese de substâncias que usamos todos os dias. Alguns complexos de paládio são usados na quimioterapia de certos cancros. E até os dentistas, disse o avô entre dentes, usam ligas de paládio para polimerizar em vez de chumbar as crateras das cáries dentárias!

De regresso ao Comboio Nobel, Alfredo e o seu avô sentiam-se mais ricos e felizes. De certo modo, tinham experienciado as descobertas científicas que foram este ano distinguidas com o prémio Nobel.

Alfredo pegou no lápis do avô, descreveu o que vira e desenhou dispositivos imaginados que escoavam da grafite.

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