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O mar português aos olhos dos especialistas

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João Borges de Sousa

Doutorado em Engenharia Eletrotécnica e Computadores, é Professor Auxiliar do Departamento de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e dirige o Laboratório de Sistemas e Tecnologia Subaquática (LSTS) da FEUP.

Controlo de redes de sistemas, otimização dinâmica, coordenação e controlo de veículos autónomos e redes de sensores são os temas que mais investiga. Enquanto investigador cooperou na conceção e desenvolvimento de veículos autónomos para operações marítimas, aéreas e terrestres no âmbito de vários projetos de I&D conduzidos em Portugal, Estados Unidos e Europa.

Inovar é…

Se tiver que fazer referência à forma como norteamos o nosso trabalho, então devo dizer que consideramos o quadrante de Pasteur – “use inspired basic research” como princípio para abordar problemas reais que ainda não foram resolvidos.

 

Maria Teresa de Almeida

Licenciada em Arquitetura pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, exerceu várias funções técnicas no seu domínio de formação na Câmara Municipal de Setúbal.

Na mesma cidade, foi ainda vereadora e Governadora Civil.

Entre 2010 e 2012 foi Presidente da Comissão Coordenadora Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo e, por inerência, da Sociedade Polis. Posteriormente coordenou a Equipa de Missão Lisboa e foi Vogal do Programa Operacional da Região de Lisboa.

Desde o ano passado que gere o Programa Operacional MAR, que tem por objetivo implementar em Portugal as medidas de apoio enquadradas no Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos e das Pescas (FEAMP) da Comissão Europeia.

Inovar é…

Acrescentar. Melhorar. Fazer diferente, modernizando sempre com preocupação na sustentabilidade.

 

José Augusto Felício

Professor no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), preside o Centro de Estudos de Gestão nesta instituição da Universidade de Lisboa, assim como é responsável pela coordenação científica da Pós-Graduação em Gestão da Distribuição e Logística (Retail Management and Logistics)

Dirige igualmente a Pós-Graduação em Logística Internacional e Transporte Marítimo, uma iniciativa conjunta da Universidade de Oviedo e do ISEG.

É também investigador nas áreas de Gestão Empresarial, Marketing e Gestão Portuária, com publicações em diversas revistas internacionais de elevado impacto.

Inovar é…

Criar algo diferente de forma radical ou fazer alterações ou ajustamentos que funcionalizem com proveito.

 

 

Para João Borges de Sousa “primeiro temos de estar presentes no mar de forma sustentada” e, em segundo, destaca o valor de “sistemas de veículos não tripulados, que devem complementar sistemas de veículos tripulados. Importa desenvolver, como temos vindo a fazer, veículos de custo comportável”. Em terceiro diz que as pessoas têm de ter vontade para levarem a cabo estas ações.

Teresa Almeida destaca mais a necessidade de “iniciativa, inovação e respeito” e explica que “só com iniciativa se podem criar empresas que apostem também na inovação, respeitando os profissionais do setor, os empresários e os recursos marítimos. A existência de um Ministério do Mar é um sinal da importância que o país dá ao mar, seja ao nível da fiscalização, dos portos e infraestruturas marítimas, do comércio e indústria, da pesca, da preservação das espécies, da sustentabilidade dos recursos e também da economia e das novas oportunidades de negócio”.

Por seu turno, o professor José Felício admite ser necessário “desenvolver atividades que envolvam o mar, sejam a nível de desportos náuticos ou de projetos associados com o mar. Essencialmente requer uma cultura do mar que se adquire na escola básica como propósito de educação e com o ensino da história, evidenciando as façanhas que integram o ser português, como país virado e dependente do mar”.

Focando-se na investigação que tem sido levada a cabo no LSTS, Jorge Sousa destaca o facto de ter sido considerado, “fora do país, um dos laboratórios de referência na área de sistemas de veículos, aéreos, submarinos e de superfície não tripulados”. Neste sentido, recentemente estabeleceram com a NASA-Ames (um dos grandes centros de investigação da NASA) um protocolo de cooperação mútua para a observação da zona oceânica Atlântico Norte.

“O programa tem por objetivo a calibração de satélites, com recurso a medições in situ, a avaliação e teste de novos sistemas de sensores, incluindo o MIDAR, e ainda a coordenação de veículos não tripulados para observação da Terra. O programa decorre como previsto, tendo havido a participação de investigadores da NASA-Ames no exercício REP15, realizado nos Açores em 2015, com a organização conjunta da Marinha Portuguesa, da Universidade do Porto através do nosso laboratório, da Universidade dos Açores e do CMRE da NATO”, explica o investigador. Acrescenta que, “além da integração de ferramentas de software desenvolvidas no LSTS com a Mission Tools Suite da NASA (utilizado para seguir todos os voos com plataformas aéreas, tripuladas, ou não tripuladas)”, estão ainda a “trabalhar na integração do sensor MIDAR em veículos submarinos e em veículos aéreos, tendo em vista o estudo de propriedades da coluna de água” e a desenvolver procedimentos de calibração de sensores, em particular, câmaras hiperespectrais.

Sobre a estratégia MAR 2020, Teresa Almeida explica que esta tem sete prioridades – pesca, aquicultura, política comum de pesca, emprego, comercialização e transformação de produtos de pesca e aquicultura, política marítima Integrada e assistência técnica, daí que haja “todo o tipo de candidaturas, desde a inovação e conhecimento, apoio a jovens pescadores, criação de postos de trabalho, internacionalização mas até agora são os projetos dirigidos ao desenvolvimento sustentável da aquicultura e também ao nível da transformação dos produtos da pesca e da aquicultura aqueles que têm mobilizado maior volume de investimentos”.

Com um investimento de 508 milhões de euros, dos quais 392 milhões de euros advêm do FEAMP e 116 milhões de euros de comparticipação nacional, a responsável faz um balanço muito positivo: “total de 1.483 candidaturas recebidas, num investimento total de 330 milhões de euros, tendo sido aprovadas 1.111”, Teresa Almeida frisa que este programa operacional se desenvolve até 2020 e que apenas vai no seu primeiro ano de vigência”.

A área que mobilizou candidaturas com maior volume de apoio financeiro, 45 milhões de euros, foi a transformação dos produtos da pesca e da aquicultura, seguindo-se 67 projetos aprovados de desenvolvimento sustentável da aquicultura, com um apoio financeiro de cerca de 42 milhões de euros. A gestora do Mar 2020 sublinha que “só estas duas áreas de investimento, correspondem a 65% do montante total comparticipado até agora. (…) na Região Autónoma dos Açores, o FEAMP concedeu uma comparticipação de 14 milhões de euros, a 651 projetos aprovados, e na Região Autónoma da Madeira o montante financiado aproximou-se dos cinco milhões de euros, num total de 64 candidaturas”.

Numa outra vertente do mar, José Felício aponta que o recente aumento da procura pelos portos nacionais para navios de cruzeiro se explica, “primeiro porque o mundo tem vindo a descobrir Portugal e as suas belezas naturais, segundo porque o país dispõe de boa oferta de serviços com preços competitivos, terceiro em face ao desenvolvimento das «low cost», quarto, porque entrar no estuário do Tejo é algo de outro mundo em termos de beleza natural”. Contudo, distingue sobre a questão dos navios de carga e contentores: “primeiro, Portugal é marginal ao centro económico europeu e o transporte marítimo é muito competitivo; segundo, o país tem posição geoestratégica relevante no contexto mundial face aos grandes mercados o que lhe confere vantagens extraordinárias, que exigem investimentos de capital intensivo”. Sobre a gestão portuária, o professor refere que “estamos muito melhor que há alguns anos atrás, porque reconhece termos profissionais muito mais qualificados e mais conhecedores da importância estratégica do transporte marítimo. Portugal está a construir capital intelectual nesta área do conhecimento muito relevante, temos de fazer mais e vamos fazer muito melhor porque estamos a formar profissionais de grande potencial. Neste sentido, a universidade é fundamental e está empenhada em prosseguir dentro das suas limitações”. Conclui que a aposta na formação de elevada qualidade é essencial, e afirma que os portos são muito importantes para a economia nacional e regional, “sobretudo de natureza geoestratégica e neste caso muita da atividade marítima global passará por Portugal”. Tal situação justifica-se pelas trocas comerciais registadas no país a partir dos portos nacionais, uma vez que, no quadro das relações de comércio internacional, a quota é, em média, da ordem os 60% e “será sempre assim face à localização geográfica do país face aos mercados mundiais”.

É certo que o país tem a terceira maior Zona Económica Exclusiva (ZEE) da União Europeia (UE), mas tal não se traduz em sermos igualmente a terceira maior economia da UE. Então porque é que não conseguimos tirar o melhor partido das águas que banham a nossa costa?

Na opinião de João Sousa “é preciso maior vontade de fazer coisas. Isto, para além de enquadramentos legais e de programas mais orientados para a ação”.

Contudo, Teresa Almeida admite que “existe um desígnio nacional que tem o mar como grande prioridade”. O próprio Mar 2020 “foi desenhado especialmente para que Portugal continue a honrar o que foi o seu passado na pesca mas, sobretudo, para que se possam encontrar novos desafios e novos objetivos, defendendo os profissionais do setor, as empresas e a sustentabilidade dos recursos e da pesca em geral”. Este programa operacional pretende desenvolver toda a economia do mar e “o desejável alargamento da Plataforma Continental portuguesa congrega responsabilidades acrescidas, tanto no campo da fiscalização, da preservação das espécies e da investigação mas gera também novas oportunidades para o empreendedorismo”.

José Felício diz que ciclicamente temos voltado “as costas ao mar por razões políticas e económicas associadas ao domínio centrado destes negócios em poucas famílias empreendedoras, cujos interesses particulares se sobrepõem ao interesse nacional”. Neste contexto, evidencia que a “ação do Estado é determinante, seja nas pescas, na indústria naval ou no comércio marítimo”. O investigador do ISEG também indica que não postamos na náutica de recreio, como os países do centro e norte da Europa. “O mar não vale só por si, necessita de iniciativas e atividades que sejam economicamente viáveis associadas ao cluster do mar. É necessário que essas atividades tenham massa crítica para competir no mercado global e assegurar estruturas com dimensão para que as atividades ultrapassem a dimensão local ou regional. Por exemplo, no campo das pescas, como atividade tradicional, destruímos a frota pesqueira, sem nada a ganhar em termos de ciclo longo, e perdemos a oportunidade de explorar recursos que outros aproveitam, a par de perdermos, também, a possibilidade de participar na inovação tecnológica e no desenvolvimento de outras atividades associadas”.

José Felício concluiu que “a boa notícia reside em admitir que o país está a acordar para o mar, com base no esforço que realiza em iniciativas desportivas e comerciais e da aposta em investigadores e formação de especialistas muito qualificados”.

O também investigador João Sousa expõe que a promoção de mais I&D sobre o mar passa por “uma maior coordenação nacional e, ainda, pelo desenvolvimento de uma estratégia e de mecanismos de implementação da mesma, orientados para resultados a serem desenvolvidos de forma incremental”. No domínio dos oceanos, é “fundamental pensar no mercado internacional”, e, apesar de acreditar na existência de mais apoios e investimento para projetos de investigação, é necessário ultrapassar alguns obstáculos, maioritariamente burocráticos que comprometem os processos de internacionalização, uma vez que estes requerem “bastante agilidade”.

O diretor do LSTS destaca ainda uma parceria estratégica com a Marinha Portuguesa e com a qual têm “aprendido a estar no mar de forma sustentada”, uma cooperação que é apontada como exemplar em muitos países do mundo.

Como última referência, abordando as várias dimensões do mar: sustentabilidade, proteção ambiental e das suas espécies, meio de transporte, recurso energético, recurso económico (turístico, alimentar, bem-estar e saúde), entre outras, José Felício opina que o “país não pode estrategicamente apostar em todas as frentes e naquelas em que apostar não o pode fazer da mesma forma, devendo, para o efeito, escolher duas ou três áreas estratégicas a desenvolver, com potencial de criação de massa crítica nacional, com condições para competir internacionalmente e às quais possa associar clusters”.

Teresa Almeida aborda antes a questão de sustentabilidade para o futuro, afirmando que “há regras a respeitar, uma atividade a defender e há, sobretudo, que ter consciência que os recursos piscatórios são finitos se não forem tomadas as medidas necessárias para a sua preservação das espécies. Não podemos pôr em causa as gerações vindouras e com uma gestão equilibrada continuaremos a ser um país com uma atividade de pesca muito importante, sustentável e rentável. Vamos, assim, continuar a poder orgulharmo-nos de ter o melhor e mais saboroso peixe do mundo”.

 

// lsts.fe.up.pt

// www.mar2020.pt

// www.iseg.ulisboa.pt

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