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Amor e ética na era digital

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Raquel Costa começa por referir que metade da sua vida decorreu na época pré-internet e que aos 15 anos entrou, pela primeira vez no IRC, a quem apelida de tetravô do Facebook. Desde essa altura, confessa que nunca mais se desconectou. “Fiz mais amizades do que inimigos graças à internet” e “tendo a não fazer parte desse grande grupo de arautos da desgraça que dizem que a vida online matou a vida real. As pessoas continuam a apaixonar-se, a ter filhos, a trabalhar, a viver. Se a internet veio modificar alguns dos nossos comportamentos? Claro que sim. Assim como o telefone, a televisão, a rádio. Imaginem que viviam no século XVIII e vos diziam: olha, Manel, amanhã vais poder falar com o Jean Jacques que está em França através de um aparelho ligado a uns cabos!. Iam achar que era coisa do demo. Pronto, a internet é a mesma coisa”, refere a jornalista.

Para Charles Melvin Ess “é irrefutável que a digitalização e o digital tenham produzido benefícios extraordinários – muitos dos quais não foram originalmente previstos”. Consciente de que a internet se tornou na principal infraestrutura comunicativa e que o mundo foi dramaticamente transformado com o surgimento das tecnologias digitais, o professor da Universidade de Oslo também assinala as consequências mais negativas, como o terrorismo, extremismo, pornografia, hacking eleitoral, cyberbullying, vigilância completa e consequente perda de privacidade e liberdade de expressão.

Charles Ess refere Shannon Vallor, filósofa de tecnologia na Universidade de Santa Clara, na Califórnia (Estados Unidos), que demonstrou que o uso de emojis faz com que percamos habilidades importantes para a comunicação por meio de voz e texto, passando a comunicar por imagens. Perdemos práticas como a paciência, a perseverança e a empatia – “virtudes requeridas para a amizade profunda, relacionamentos a longo prazo, para a parentalidade, etc…”. Neste sentido, há um risco real de as tecnologias digitais conduzirem a um desgaste ético que tornará a vida bastante infeliz e sem gratificação no final, tanto para indivíduos, como para os grupos. Charles Ess acrescenta que, tal como outros, começa a ver um retrocesso, presente na noção de era pós-digital, que “sugere que podemos ir além da tendência de enfatizar apenas o digital, e direcionamo-nos para uma atenção mais equilibrada no ser humano”, sendo necessário um retorno ao corpo – “a raiz do nosso entendimento como indivíduos” para ajudar a combater a excessiva ênfase no digital.

Margarida Vieitez aponta que ainda será “muito cedo para aferir a real dimensão desse impacto, quer a nível positivo quer negativo”, mas assinala aspetos positivos – a facilitação no contacto e a rapidez com que flui a informação – e negativos – o bombardeamento de informação a que estamos constantemente sujeitos, o desinvestimento em contactos pessoais, a escassa comunicação e diálogo frente a frente.

Em pormenor, a tecnologia traz mais ou menos benefícios para o contacto humano?

A autora d’A Gaja distingue tecnologia (dispositivos) de software (aplicações, sites, etc…). Sobre os aparelhos, admite que, tanto iPods, como os smartphones, “vieram transformar radicalmente a nossa forma de interagir uns com os outros”. Hoje em dia um casal de namorados pode fazer phubbing [ato de ignorar alguém num ambiente social, olhando para o seu telefone em vez de prestar atenção] e “consultar as redes sociais ou jogar um bocadinho de Candy Crush para disfarçar o incómodo”. Quanto ao software, Raquel frisa que, apesar de as redes sociais terem facilitado a comunicação, “também a tornaram mais descartável, mais fácil e simultaneamente mais agressiva”. Tal como o indicado pelo Professor Charless Mess, ao termos coragem para dizer tudo o que não conseguimos dizer cara a cara, através do Whatsapp, Messenger e Tinder, empobrecemos as nossas capacidades de relacionamento. A jornalista dá o exemplo de agora darmos “os parabéns a completos desconhecidos, a quem nunca felicitaríamos caso o Facebook não nos alertasse. Pessoas que nos são completamente indiferentes, congratuladas por terem nascido com um Parabéns! escrito entre um café e um cigarro. É estranho. Porque é que nos sentimos compelidos a fazê-lo?”.

Com igual perspetiva, Margarida Vieitez salienta que a rapidez de contacto, o acesso célere a um conjunto de bens e serviços no dia-a-dia e o conhecimento de pessoas nas redes virtuais são os melhores benefícios da tecnologia, porém, entre os principais problemas destaca, também, o “desinvestimento nas relações pessoais, amorosas, familiares e de amizade”. Situação que se traduz na “dificuldade de construção de laços de afeto e confiança, no estabelecimento de prioridades de vida completamente disfuncionais, na validação de si próprio enquanto pessoa em razão do número de gostos, na adição relativamente às redes virtuais/jogos, na in-comunicação, solidão e depressão”.

Perante várias situações percecionadas no dia-a-dia, podemos avaliar se as novas aplicações disponíveis ajudam a manter ou a destruir uma relação amorosa.

“A insatisfação do ser humano não mudou só por causa da internet. Somos seres permanentemente em busca de algo”, sublinha Raquel Costa. “O que acontece, nesta era de Facebook e aplicações de promoção de encontros amorosos, como o Tinder ou o Happn, é que se tornou mais fácil fugir à realidade (chamemos-lhe assim, que “trair” é uma palavra feia). Estes serviços oferecem-nos uma gama praticamente infinita de possibilidades. E atentem nesta palavra: possibilidades. E não pessoas. Possibilidades de fugir à realidade, de criar uma realidade alternativa, de mentir, de enganar, de fantasiar, de fingir. Mas, em última instância, estes mecanismos são meros catalisadores de um desconforto interior. (…) O motivo da construção ou da destruição da interação humana nunca é o meio em si”, acrescenta.

Charles Melvin Ess concorda que tal “dependerá muito certamente das escolhas que fazemos agora e no futuro próximo”. E continua, “as novas tecnologias são sempre ambivalentes – isto é, cheias de possibilidades tanto para o bem como para o mal”, dando o exemplo que “muitos jovens estão a descobrir, diante a morte de um irmão, pai ou amigo próximo que as expressões de luto online não são apenas insuficientes, como podem ser destrutivas e falsas e alguns deles parecem estar a afastar-se das redes sociais e a voltar para a vida real onde encontram o conforto e consolo que precisam na corporificação da copresença de amigos próximos e familiares”.

A visão da terapeuta de casal coincide com estas opiniões, porque não é a tecnologia que decide, “as pessoas têm a cada momento a possibilidade de escolher que influência tem a tecnologia na sua vida”. “A tecnologia pode até facilitar o encontro, mas para uma relação se manter viva ela precisa ser alimentada, reinvestida e reinventada todos os dias, e são as pessoas as responsáveis e quem decide fazê-lo ou não o fazer!”, conclui.

Utilizadora de aplicações e redes sociais que promovem o relacionamento entre pessoas, Raquel Costa esclarece que através delas pode “encantar, cativar com aquilo que eu sei fazer melhor: escrever palermices”. Sobre o Tinder, diz que é relaxante “é como estar a jogar Paciência. Vai-se passando as fotos dos moços, como se fossem cartas. O Happn é mais exigente porque sabemos de antemão que aquelas pessoas podem muito bem ser o nosso vizinho do terceiro esquerdo. O Whatsapp é para conversar com os candidatos pré-selecionados no Tinder e, se chegamos ao Facebook, é porque já existe um acordo não definido de que algo se vai passar. Mesmo que não se passe nada”. Fala ainda que “como, hoje em dia, bloquear um contato é extremamente fácil, a interação pode ser interrompida a qualquer momento. Podemos fazer desaparecer uma pessoa da nossa vida com um simples clique. É uma forma muito eficaz de não lidar com a frustração. Se é saudável? Não”. Além disso, diz acreditar que “à exceção de uma minoria, que deixa logo explícito a priori que só procura relações sexuais, creio que a maioria que usa este tipo de aplicações procura amor, companhia, entendimento. Embora nem todos o admitam”.

Já Margarida Vieitez admite usar bastante o Facebook “como ferramenta para a comunicação e divulgação” das suas obras e defende existirem pessoas “que usam as redes virtuais para passar o tempo e divertirem-se um pouco, e outras efetivamente procuram algo mais sério, como um namorado ou companheiro”.

Falando de tecnologia e contacto humano, torna-se imperativo abordar a questão de os robôs interagirem de forma afetiva e sexual com as pessoas.

Raquel Costa é perentória em dizer que os “robôs poderão transformar a indústria do sexo”, evidenciando a necessidade de criar legislação para delimitar a presença de um ser cibernético na vida de um humano. Porém, não aceita que o “relacionamento humano será substituído pela relação amorosa humano-máquina. As máquinas nunca conseguirão reproduzir a paixão. As máquinas nunca terão alma”.

Charles Melvin Ess também não tem dúvidas que os humanoides vão mudar a indústria do sexo. Talvez para o melhor – diminuindo os piores abusos da indústria – mas, apontando a perspetiva de Kathleen Richardson, investigadora em ética da robótica, que argumenta que os robôs

só amplificarão os piores aspetos da indústria, como incentivar-nos a ver as mulheres (e crianças) como objetos sexuais e não como pessoas. O especialista da Universidade de Oslo afirma estar “cautelosamente otimista de que os robôs não substituirão inteiramente a intimidade humana e os relacionamentos sexuais”.

Em linha com estas posições, Margarida Vieitez não acredita que as “relações humanas possam ser substituídas por relações com robôs ou virtuais, pois no dia em que tal acontecesse deixaríamos de ser pessoas e passaríamos a ser máquinas”. E deixa um apelo: “a todos e a cada um de nós incumbe a responsabilidade de não deixar que isso aconteça!”.

As duas autoras portuguesas aliam as suas visões e defendem que, como seres humanos e sociais, não nos encaminhamos para seres digitais ou robôs, desprovidos de emoções e sensibilidade humanas.

Pelo contrário, o professor Charles Ess declara que tal é “perfeitamente possível” como resultado dos tipos de descalcificação comunicativa e erótica que descreveu. E explica que “se nunca aprendermos, numa primeira fase, nem adquirirmos e fomentarmos as habilidades e práticas (virtudes) necessárias para uma comunicação rica, profunda amizade, ou relacionamento duradouro – genuinamente erótico e completo -, então tornamo-nos precisamente como as máquinas que criamos: projetadas para fornecer estimulação programada, nada mais”.

Como nota final, os três convidados coincidem na necessidade de, não só cada um de nós, mas também governos e instâncias superiores, definirmos limites, barreiras e um enquadramento legal com direitos e penalizações para supervisionar e evitar o abuso do contacto entre os humanos, as tecnologias e os próprios seres robotizados.

 

Raquel Costa

Jornalista de 34 anos, está por detrás de “A Gaja”, página de Facebook criada em 2004.Versa ficcionalmente sobre uma mulher solteira e conta com 73 mil seguidores.

Natural de Oliveira de Azeméis, Raquel vive em Lisboa desde 2001. O livro “A Gaja”, manual humorístico-sarcástico para relacionamentos, é da sua autoria. Benfiquista assumida, frisa o facto de ser mulher!

Inovar é…

Criar meios diferentes de fazer passar a mesma mensagem.

Charles Melvin Ess

Professor da Universidade de Oslo, na Noruega, também investiga na área de ética e media digitais. Na publicação “What’s Love Got to Do with It? Robots, sexuality, and the arts of being human”, resumiu cerca de 30 anos de trabalho sobre as diferenças entre o que os seres humanos e a Inteligência Artificial (IA) e robôs são capazes de fazer, destacando o papel das emoções e virtudes reais como definidoras da amizade, amor e do ser humano nas sociedades democráticas digitais e pós-digitais.

Inovar é…

Como a pornografia, a inovação é difícil de definir. A inovação também se tornou numa palavra da moda, especialmente nos negócios, mas também no mundo académico, onde somos constantemente bombardeados com um senso de urgência quanto à necessidade de responder e explorar novas tecnologias.

Margarida Vieitez

Especialista em mediação familiar e de conflitos, terapeuta de casal, dedica-se há mais de 20 anos ao estudo e acompanhamento de conflitos, em especial familiares, conjugais e decorrentes do divórcio.

Nomeada em 2008 para o prémio Mulher Ativa, é consultora de diversas instituições e colabora assiduamente com a televisão, rádio, revistas e jornais. Fundou o projeto “Espaço Família” e “LoveDoctors” no Facebook. Tem quatro livros publicados, “Verdades, Mentiras e Porquês” é a obra mais recente.

Inovar é…

Criar algo novo e verdadeiramente surpreendente!

// pt-pt.facebook.com/agaja

// www.uio.no/english

// www.margaridavieitez.com

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