Literatura

Tempo dos Milagres: O encantador de pedras

Procuro, diariamente, inspiração nos pequenos milagres do quotidiano. E a pensar nesses quotidianos de maravilha, lembrei-me subitamente do Senhor António, que conheci há quase vinte anos, em São Gens de Calvo, no decorrer de um dos trabalhos mais de
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Por Manuela Gonzaga

Procuro, diariamente, inspiração nos pequenos milagres do quotidiano. E a pensar nesses quotidianos de maravilha, lembrei-me subitamente do Senhor António, que conheci há quase vinte anos, em São Gens de Calvo, no decorrer de um dos trabalhos mais deslumbrantes que fiz em Portugal.

Tratava-se da 'réperage' para “Cenas de Um Casamento”, um programa da SIC, que nos colocou, a mim e à equipa de pesquisa, no coração do Portugal profundo. Desses tempos trouxe amizades para a vida, e um bom punhado de histórias que estiveram quase a ser livro.

Comovidamente, recordo a história deste encantador de pedras, quase como a escrevi na época:

“Era uma serpente e estava escondida. Ele tinha 12 anos de idade e uma navalha. Desbastou o pedaço de tronco velho e tirou a cobra lá de dentro. Depois foi um lagarto, que encontrou a dormir, enroscado na perna de um escabelo destinado ao fogo da lareira.

Foi assim que tudo começou. Onde as outras pessoas viam pedaços de madeira, bons para queimar ou nem isso, ele encontrava répteis, pássaros, pequenos bichos que a navalha ia libertando.

Depois esqueceu tudo isso e pôs-se a trabalhar. Trabalhou muitíssimo durante muitos anos. Esteve na Alemanha, andou nas obras, e, mais tarde, foi trabalhar para uma fábrica onde fazia moldes de cimento.

Finalmente reformou-se, voltou para Portugal e para a sua terra, São  Gens de Calvos, a poucos quilómetros da Póvoa do Lanhoso. Aos setenta anos lembrou-se outra vez de tudo com muita nitidez. E voltou a brincar. Foi no cimento que descobriu o primeiro bicho. Era um bácoro, parecia que se estava a rir. Pintou-o e pôs-lhe dois berlindes a fazer de olhos. Depois foi um cão. Depois uma cabra. E a seguir um burro. Depois foi o coreto com todas as figuras da banda, em tamanho natural, que ofereceu à sua terra.

Na sua oficina os animais nasciam com tanta pressa que pôs-se a dá-los. Entretanto, começaram a aparecer pessoas que lhe queriam comprar as figuras. Aos 75 anos, o senhor António encheu a aldeia com animais de pedra, que riam e saltavam pelos jardins e nos muros das casas, e olhavam para o mundo com olhos de berlinde a brilhar à luz do sol.

— Não invento nada. Só os tiro do cimento — disse-nos então, acompanhando-nos, a mim e à Alexandra Melo,  à eira onde se perfilava o seu jardim zoológico de pedra.

Depois passeou connosco pela aldeia, apontando-nos, um a um, os animais que foi libertando pelos quintais, identificando-os pela época em que nasceram, para só terminar no largo do coreto, seu orgulho maior, e de todos os conterrâneos.”

De viagem para viagem, transbordávamos de amor, pelas terras, pelas gentes, pelas histórias de vida, da mais humilde à mais historiográfica. Reencontrávamo-nos no espelho da portuguesa gente, bebíamos as suas memórias, comovíamo-nos com os seus amores e destinos.

Quase três anos a viajar pelo Portugal real. Aquele que só se encontra saindo das vilas e das cidades grandes, longe de estradas principais, quando se mergulha no confuso mapa das vizinhanças, dos largos que é preciso “controlar”, das ruas sem saída, dos montes detrás de montes, passando ermidas e baldios, e cafés onde toda a gente se conhece.

E foi assim que conhecemos o Senhor António, naquela terra que, toda ela, parecia rir. Era Verão, e todos os verdes se encontravam ali, das faixas luminosas dos limoeiros, ao verde fosforescente dos pinheiros, passando pelos tapetes sombrios do musgo, pelas cortinas de hera, e pelo exército de choupos que, mais para o interior, se perfilavam, flanqueando as estradas e ladeando os rios.

As casas, muitas delas, ainda de um só piso, em granito aparelhado, tinham latadas de videira, agora carregadas de cachos quase maduros. E, sobressaindo destas manchas onde o verde se conjugava em todos os tons, as pinceladas policromáticas dos jardins sobrecarregados de flores, por onde espreitam os animais de pedra do senhor António.

Estávamos no coração do Minho, a dois passos da terra de Ana Maria Esteves, a mulher que, em 1840, incendiou Portugal. Chamavam-lhe a Maria da Fonte e o seu hino era cantado de Norte a Sul:

      “Eia avante! Eia avante!
      Eia avante! Não temer!
      Pela santa liberdade!
      Pelejar até morrer!”
 
Ainda hoje, uma estátua na Póvoa do Lanhoso, a terra da filigrana, recorda a líder natural da última revolução verdadeiramente popular que houve em Portugal, a mulher que tirou o sono à rainha, e que fez D. Maria tremer no seu trono. Na mesma terra, e próximo do castelo onde Dona Teresa assinou o assinou o acordo que esteve na origem de Portugal. A dois passos dos jardins zoológicos de pedra do Senhor António, que aos 75 anos voltou a brincar e pôs um sorriso na cara de toda a gente.
 


Manuela Gonzaga é escritora. Mestre em História pela Universidade Nova de Lisboa, publicou, entre outros, a biografia de António Variações, a de Maria Adelaide Coelho da Cunha, e uma coleção juvenil, “O Mundo de André”, com a chancela do Plano Nacional de Leitura que já vai no 3º titulo. Visite o blog de Manuela Gonzaga em http://www.gonzagamanuela.blogspot.com/

 

[Manuela Gonzaga escreve de acordo com a antiga grafia]

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