Sociedade

Stilwell: “A minha geração hipotecou o futuro”

A jornalista e escritora Isabel Stilwell acaba de reeditar o seu primeiro livro "Guia para ficar a saber ainda menos sobre as mulheres". Em conversa com o Boas Notícias, a autora explicou que este guia desmistifica, num texto marcado de humor e irrev
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A jornalista e escritora Isabel Stilwell acaba de reeditar o seu primeiro livro “Guia para ficar a saber ainda menos sobre as mulheres“. Em conversa com o Boas Notícias, a autora explicou que este guia desmistifica, num texto marcado de humor e irreverência, equívocos que persistem nas relações amorosas, como os amuos das mulheres ou as diferentes expectativas em relação ao casamento e à sexualidade.

São temas que Isabel considera transversais a várias gerações, incluindo a geração “à rasca”, que recentemente entrou em conflito com a diretora do jornal Destak devido a um editorial onde criticou a mensagem da música “Parva que Sou”, dos Deolinda. Sem arrependimentos quanto ao escreveu, Isabel Stilwell defende que foi mal compreendida e assume que a sua geração cometeu erros que têm de ser corrigidos, mas sublinhando que, mais do que “ser parvo” é preciso ir à luta e encontrar soluções.

“O guia para ficar a saber ainda menos sobre as mulheres” foi o primeiro livro escrito por Isabel Stilwell. Editado pela primeira vez em 1999, regressa agora às bancas numa versão revista e aumentada. É um livro muito diferente dos três romances históricos que a escritora editou nos últimos anos, obras onde retrata a vida de três rainhas de Portugal (D. Amélia, Filipa de Lencastre e Catarina de Bragança).

Ao contrário destes romances, que têm por detrás uma longa e profunda investigação, este guia “é uma tese ligeira sobre as relações amorosas, que resultou de muitos anos de conversa com muitas mulheres, minhas amigas”, explica Isabel Stilwell. Neste guia, Isabel fala por exemplo “da questão das mulheres amuarem e depois não conseguirem reagir como gostariam”, das expectativas em relação ao casamento, “que para a mulher é o princípio de um projeto e para os homens é encarado como um destino final”.

Outras questões são abordadas, como a relação sexual, que “para o homem começa muitas vezes quando se chega à cama e para a mulher passa por um tratamento carinhoso ao longo dos dias”, acrescenta a escritora, sublinhando que, apesar da independência da mulher moderna, as expectativas em relação ao homem com quem vive são “muito românticas e exigentes”.

“Comparando a mulher de hoje com, por exemplo, as rainhas dos meus romances históricos, as expectativas são muito mais altas. Uma D. Amélia ou uma D. Catarina não tinha ilusões em relação ao amor, sabiam que o casamento as tornava apenas mulheres de alguém, quase como uma propriedade. Hoje em dia as mulheres são muito exigentes e nem sempre é fácil para os homens corresponder a essas expectativas”, salienta.

“Tenho a profunda convicção de que vale a pena estudar”


Falando ainda de expectativas, não das mulheres mas de uma geração, seria incontornável referir o editorial de Isabel Stilwell no jornal Destak, sobre a música “Parva que sou”, dos Deolinda, que gerou uma onda de protestos na internet, nomeadamente no Facebook. No texto, Isabel diz que considera “parvo o refrão da música dos Deolinda que diz ´Eu fico a pensar, que mundo tão parvo, onde para ser escravo é preciso estudar´, afirmando que “se estudaram e são escravos, são parvos de facto”.

Reagindo à polémica gerada, Isabel afirma que não está arrependida do que escreveu, admitindo no entanto que foi mal entendida em relação à intenção do texto. “Eu acho que as pessoas se sentiram magoadas – e tenho muita pena disso porque o meu objetivo na vida não é magoar as pessoas – por acharem que eu estava a dizer que a situação em que as pessoas estavam, sem emprego ou mal remuneradas, era culpa delas”, explica.

“Mas eu nunca disse isso. O que eu disse foi que a ideia de que estudar nos leva à escravatura é uma ideia perigosa. Tenho a profunda convicção de que vale a pena estudar porque a forma como olhamos o mundo, as armas que temos – inclusive a capacidade de organizar um protesto, de olhar para a realidade de outros países – tudo isso é uma coisa que é possível a quem abre a cabeça”, salienta.

E repete, tal como no seu editorial, que os jovens não podem “ficar agarrados à ideia de que o curso em determinada área é uma garantia porque o mercado não tem capacidade para absorver os licenciados todos”. “Por isso digo aos meus filhos, que estão nessa situação, que experimentem todo o tipo de trabalho. Vale a pena lutar para mudar o mundo mas não vale a pena hipotecar anos de vida porque não há mais anos de vida.”

“Estamos num círculo vicioso e todos somos cúmplices”

Perante a realidade de um país com cerca de 600 mil desempregados, milhares de trabalhadores precários, muitos deles licenciados, e uma Dívida Pública que já vai em 150 mil milhões de euros, Isabel admite os erros cometidos após o 25 de abril.

“Tenho a certeza que a minha geração e a geração acima da minha hipotecaram, um pouco, o futuro por não serem capazes de tomar medidas de fundo – como mudar as leis laborais – e também por viverem muito na sombra de subsídios E agora corta-se o menos possível nessas leis porque vamos ter eleições daqui a seis meses. Estamos num círculo vicioso e todos nós somos cúmplices disso”, sublinha.

Mãe de dois filhos “quinhentistas”, como referiu, e diretora de um jornal onde as equipas são compostas por pessoas com menos de 35 anos que admira por trabalharem “arduamente”, a jornalista defende que “esta geração devia recusar determinantemente que lhe chamassem ´geração parva`”, lamentando que alguns estejam a usar o seu editorial como “bode expiatório” para criar uma “guerra de gerações”. “Isso a mim ofende-me profundamente”, conclui, acrescentando que “na realidade estamos todos à rasca”.

Entretanto, este sábado, dia 12, realiza-se a manifestação da geração “à rasca” que contará com a presença de diversas personalidades como o escritor José Luís Peixoto. Esperam-se mais de 60 mil pessoas, só em Lisboa, e outros milhares um pouco por todo o país e também em frente aos consulados e embaixadas de Portugal no estrangeiro.

P.M.

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