Ciência

Portugueses desvendam segredo por detrás das rotinas

Um novo estudo, realizado em Portugal, desafia dogma científico sobre como aprendemos a selecionar e a repetir certas ações para determinados fins. Conclusões podem revolucionar tratamento de pessoas obsessivo-compulsivas.
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Um novo estudo, realizado por investigadores portugueses, desafia dogma científico sobre como aprendemos a selecionar e a repetir as melhores ações para determinados fins. Conclusões podem revolucionar tratamento de certos distúrbios, como o comportamento obsessivo-compulsivo.
 
No estudo publicado este mês na revista científica Current Biology, os neurocientistas da Fundação Champalimaud vêm desafiar a forma como a comunidade científica explicava o mecanismo que leva o cérebro a selecionar certas ações e a adotá-las como hábitos.
 
A investigação explica o motivo pelo qual escolhemos sempre chamar o elevador com o dedo, e não com o nariz, que seria igualmente eficaz (embora menos prático). Como é que o cérebro escolhe a melhor ação para atingir este tipo de objetivos e, em seguida, repete-a transformando-a num hábito”

O estudo vem provar que se trata de um processo mediado por dois circuitos conhecidos por via direta e via indireta, localizados numa zona do cérebro chamada gânglios da base.

Até agora entendia-se que a via direta era responsável pelo envio do sinal “positivo”, que promove a execução de uma ação (voltando ao exemplo do elevador, que nos faz pressionar o botão do elevador) e a via indireta, é descrita como aquela que envia o sinal “negativo” que faz com que se evite aquela ação.

 
O que este novo estudo vem revelar é que estas duas vias nem sempre estão a competir uma com a outra mas sim funcionam simultaneamente e em conjunto para promover resultados distintos, do tipo “positivo”.
 
“O que descobrimos foi que, ao contrário do que se pensava, a via indireta nem sempre bloqueia a execução de determinadas ações, aliás esta via até pode servir para reforçar o desempenho dessas mesmas ações. O que o nosso trabalho revela é que a via indireta é responsável pela promoção de um tipo específico de ações automáticas”, explica Rui Costa, investigador principal deste estudo, em nota de imprensa.
 
Segundo Pedro Galvão-Ferreira, um dos co-autores do estudo, “os hábitos são um tipo de ação muito importante no nosso dia-a-dia. Por hábito entendemos uma ação automática, que já foi tantas vezes repetida e ensaiada, que podemos confiar que vai sair bem, mesmo sem termos que lhe prestar particular atenção.” 
 
“Neste momento ainda não se sabe se executar um hábito é menos dispendioso, do ponto de vista energético, para o cérebro. No entanto, o que a nossa experiência nos diz é que é mais fácil executar várias ações automáticas ao mesmo tempo do que desempenhar ações intencionais que são para nós uma novidade”, acrescenta o especialista.
 
Para estudarem como é que as duas vias funcionam na seleção do tipo de ação, os investigadores recorreram a ferramentas que permitem a ativação seletiva de cada uma das vias no cérebro de ratinhos.


Mecanismo desvendado pela equipa de Rui Costa pode ajudar a perceber os comportamento obsessivo-compulsivos

“Ao contrário do que se pensava, quando ativámos seletivamente a via indireta, em vez de inibir as ações dos ratinhos, observámos um reforço dessas mesmas ações” ao ponto de “rapidamente se tornarem num hábito.” Na investigação, a equipa verificou que ao usarem a via indireta, os ratinhos reforçam a ação mas têm dificuldade em travá-la ou em interrompê-la.

 
“Percebermos o funcionamento dos gânglios da base não é só fundamental para conseguirmos compreender como é que o cérebro seleciona e gera ações, mas também para perceber a base de alguns distúrbios neurais, tais como a doença de Parkinson ou a perturbação obsessiva-compulsiva, cuja origem está relacionada com o mau funcionamento desta zona do cérebro”, salienta Rui Costa na mesma nota.
 
“Ainda há muito por descobrir sobre estas áreas do cérebro. Por exemplo, como mostramos no nosso estudo, as vias direta e indireta parecem nem sempre competir uma com a outra e serem ambas importantes para conseguirmos executar ações” de forma rotineira, conclui Rui Costa.

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