Sociedade

Portugueses criam 1.º serviço de ‘babysitting’ low-cost

Chama-se "Super Babysitters", foi criado por dois portugueses e quer dar às famílias com dificuldades económicas e que não dispõem de uma rede familiar de apoio a oportunidade de beneficiar de um serviço que é considerado um luxo - o 'babysitting'.
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Chama-se “Super Babysitters” e quer dar às famílias com dificuldades económicas e que não dispõem de uma rede familiar de apoio a oportunidade de beneficiar de um serviço que é considerado um luxo – o 'babysitting'. Criado por dois portugueses, o projeto, inédito em Portugal e no estrangeiro, pretende aliviar o 'stress' no seio familiar e oferecer mais tempo livre aos pais e mães portugueses sem afetar o orçamento.
 
por Catarina Ferreira
 
O conceito inovador nasceu no início deste ano pela mão de José Filipe Silva e Luís Fonseca, jovens que, conscientes da importância da família e do seu papel no desenvolvimento harmonioso das crianças, decidiram apostar numa ideia que atende às necessidades das famílias que não têm com quem deixar os filhos e, não podendo pagar pelos serviços convencionais – “com preços que vão dos seis aos 10 euros por hora” -, acabam por abdicar de momentos pessoais de lazer.
 
“Hoje em dia, em especial nos centros urbanos, há muitas famílias que vêm não só de fora do país, como de outras cidades portuguesas, e que ali caem quase de paraquedas, sem terem apoio de ninguém. Como o sentido comunitário e a relação com os vizinhos também se tem perdido nas grandes cidades, é difícil encontrar, ocasionalmente, alguém de confiança para cuidar das crianças”, explica José Filipe Silva, cofundador do “Super Babysitters”, em entrevista exclusiva ao Boas Notícias.
 
Para o empreendedor, licenciado em Gestão, “a falta de tempo para estar em casal ou com os amigos é uma das principais razões que levam ao 'stress' familiar, que, depois, se repercute no crescimento das crianças”, o que justifica a importância da existência de um serviço de 'babysitting' que, mesmo em tempos de crise, esteja ao alcance de todas as carteiras e agregados familiares.
 
O serviço, que, por ter ainda poucos meses de vida, está, neste momento, numa fase piloto que deverá durar cerca de um ano e meio, apoia-se, essencialmente, na colaboração de 'babysitters' voluntárias (desde estudantes universitárias a avós) que dedicam uma hora por semana a dar mais liberdade às famílias.


José Filipe Silva (à esquerda) e Luís Fonseca (à direita) são os criadores do projeto “Super Babysitters”
 

Por enquanto, existe apenas, no país, uma comunidade de “Super Babysitters”, na zona do Areeiro, em Lisboa, que entrou em funcionamento em Janeiro e conta com cerca de 25 'babysitters' e oito 'Super Gestores' – outros voluntários que, a nível local, se dividem por diversas pastas e desempenham tarefas administrativas como a identificação das 'babysitters' e o acompanhamento das famílias. 
 
Os mentores têm, porém, a ambição de ampliar o projeto, acreditando que a chave é a sua descentralização e o recurso a redes regionais de pequenas dimensões. “O nosso objetivo é que o serviço funcione em todas as freguesias, todos os bairros do país, porque em todos eles existem famílias e pais com estas necessidades, bem como pessoas com vontade e muita disponibilidade para ajudar”, conta José Filipe Silva ao Boas Notícias.
 
“Para chegar a todo o lado, achamos que o melhor é descentralizar e dar autonomia a cada bairro para criar as suas próprias redes de 'Super Babysitters' e 'Super Gestores'. Ou seja, cada bairro ou freguesia tem a sua comunidade de voluntários, que dá resposta aos pedidos da zona”, o que também ajuda a assegurar a sustentabilidade do projeto, esclarece o jovem.

Famílias são sinalizadas e pagam apenas valor simbólico
 

Visto que se trata de um conceito vocacionado “para quem não consegue ter acesso aos serviços de mercado existentes”, a sinalização das famílias que dele podem beneficiar é feita com a ajuda de parceiros locais, como creches e infantários públicos, gabinetes de ação social de juntas de freguesia e outras entidades sem fins lucrativos para garantir “que aqueles que beneficiam do projeto são, de facto, os que precisam”. 
 
Em troca dos serviços de 'babysitting' prestados é apenas requerido às famílias o pagamento de um valor simbólico. “O preço-base é de um euro por hora, mas damos às famílias, consoante a disponibilidade, a hipótese de contribuir com até um máximo de três euros por hora”, revela José Filipe Silva, acrescentando que o montante reverte inteiramente para o crescimento do projeto.
 
“Acreditamos que este valor simbólico é importante do ponto de vista emocional e humano e ao nível da autoestima, porque não gostamos da ideia de encarar as pessoas mais carenciadas como meras recetoras de ajuda e de dizer-lhes que não podem contribuir de forma nenhuma”, esclarece o cofundador do “Super Babysitters”.
 
Neste momento, o serviço é limitado a sextas-feiras (entre as 18.00h e as 23.00h) e fins-de-semana (entre as 10.00h e as 23.00h), porque “são os fusos horários em que as famílias têm menos resposta e possibilidades – durante o dia conseguem deixar os filhos na creche, por exemplo – e em que as voluntárias têm mais disponibilidade, porque muitas estudam ou trabalham”, mas, de futuro, o horário deverá ser alargado.
 
As 'babysitters' voluntárias que oferecem o seu tempo às famílias são escolhidas, garante José Filipe Silva, cuidadosamente, através de entrevistas individuais, pedidos de referências e sessões de treino que se destinam “a confirmar a experiência e idoneidade” das candidatas à função, que devem ter, no mínimo, 16 anos de idade.
 
“Nós acreditamos que qualquer pessoa que já tenha experiência – tanto profissional, como acontece como as educadoras de infância, como técnica, como é o caso de alguém que já tenha sido mãe ou cuidado do irmão ou do primo – pode ser uma “Super Babysitter”', assegura o responsável.
 
Por enquanto, o projeto aceita apenas 'babysitters' do sexo feminino. “O propósito não é sermos discriminatórios. Fazemo-lo porque chegámos à conclusão, depois de ter falado com algumas famílias, de que, infelizmente, a maioria das pessoas continua a sentir-se mais confortável com mulheres do que com homens”, confidencia José Filipe Silva.
 
O cofundador do “Super Babysitters” admite que, ao longo da sua evolução, o projeto ambiciona vir a “desafiar este paradigma, até porque os dois mentores são homens”, mas explica que, “para já, este perfil foi definido com vista a criar uma relação de confiança com as famílias num momento em que a associação ainda está a entrar no mercado e ainda não é conhecida”.   

Projeto quer espalhar-se pelo país (e, quem sabe, pelo mundo)
 

Embora, nesta fase inicial, José Filipe Silva e Luís Fonseca contem, maioritariamente, com a participação em concursos de empreendedorismo e o apoio de fundações, amigos e familiares para assegurar a sustentabilidade e a sobrevivência do projeto, ambos acreditam que o serviço se tornará autónomo em termos financeiros a longo-prazo.
 
“Através das contribuições das próprias famílias, das angariações de fundos em cada comunidade, vemos o projeto a ser sustentável a partir do momento em que chegue a um determinado número de agregados familiares”, antecipa o jovem.
 
Se o projeto funcionar em Portugal, os responsáveis admitem mesmo a possibilidade de o levar além-fronteiras. “Somos muito ambiciosos. Começámos em Lisboa, em princípio vai surgir, em breve, uma nova comunidade na zona de Almada, em Setúbal, e conseguimos perfeitamente imaginar as comunidades a espalharem-se como cogumelos por todo o país e, quem sabe, até lá fora”. 
 
Até porque, sublinha José Filipe Silva, nenhum dos dois fundadores tem conhecimento da existência de conceitos do género no estrangeiro. “Admito que existam, mas, possivelmente, a um nível muito local, em bairros específicos, onde os vizinhos se organizam, por exemplo, entre si, para turnos de 'babysitting'. Não conhecemos nenhum serviço organizado como este”, destaca.
 
A médio-prazo, a principal meta é, contudo, expandir esta oferta de 'babysitting' económico a todo o país. “Para já, os nossos objetivos são abrir entre seis a 10 comunidades na zona de Lisboa e arredores, atender cerca de 100 famílias ou um pouco mais e conseguir ter, dentro da rede, mais de uma centena de voluntários”, adianta José Filipe Silva.
 
Ao mesmo tempo, a missão dos responsáveis passará por “assegurar financiamento que permita continuar a implementação do projeto”, testar as suas várias vertentes, como a eficácia do funcionamento das comunidades de 'babysitters' e gestores.

Os criadores vão, também, tentar perceber se, de facto, as famílias podem contribuir monetariamente ou se será necessário encontrar outras alternativas – como, por exemplo, a “troca” de horas de 'babysitting' entre agregados familiares, que representaria um pagamento em tempo em vez de em dinheiro.

Clique AQUI para saber mais sobre este projeto. 

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