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Oficina da Psicologia: Correu mal? Ainda bem!

Tudo é efémero, todos os seres vivos, mais cedo ou mais tarde, conhecem um fim. Tudo o que nasce acaba por morrer, é uma questão de mais ou menos tempo. Ainda assim, é precisamente na mortalidade que capturamos a beleza.
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por Filipa Jardim Silva, psicóloga

Filipa Jardim SilvaA vida é o que de melhor temos e ao mesmo tempo consegue ser também o pior. Todas as coisas vivas são imperfeitas, ainda assim persistimos em busca de uma vida perfeita, com uma juventude eterna, sem fim. Procuramos pelos lados cor-de-rosa, querendo colocar de lado o que dói, o que é feio, o que é efémero. Mas tudo é efémero, todos os seres vivos, mais cedo ou mais tarde, conhecem um fim. Tudo o que nasce acaba por morrer, é uma questão de mais ou menos tempo.

Ainda assim, é precisamente na mortalidade que capturamos a beleza. Tudo o que é transitório, tudo o que tem um fim marcado embora imprevisto, tende a ser mais valorizado, mais cuidado, mais apreciado, precisamente porque a um qualquer dia e hora pode desaparecer. 

 
Mas se o corpo físico desaparece, a experiência e a memória ficam, e essas sim, nunca morrem. O ser humano terá muitos defeitos, mas certamente consegue em alguns momentos viver de forma plena, com todos os sentidos ativos, retirando o máximo partido de cada segundo.

E quando vivemos assim, sintonizados connosco e com tudo aquilo que nos habita, erramos, mudamos de direção, voltamos a redirecionar o nosso caminho, mudamos de opinião, julgamos os outros e somos julgados. Cometer erros é uma parte essencial da nossa vida; não só podemos aprender com eles, como nos aproximam de nosso verdadeiro Eu. 

Em alguns momentos aceitar esta parte da vida humana pode tornar-se mais desafiante. Aceitar e aprender com os nossos erros pode constituir uma tarefa verdadeiramente olímpica, pode tornar-se uma dificuldade grande nas nossas vidas, sobretudo naquelas vidas que por si só são mais difíceis. Por outro lado, que vidas não são difíceis ou o que torna uma vida mais fácil? Se considerarmos que a dificuldade é uma perceção individual, uma atribuição pessoal, então essa perceção é subjetiva e pode ser também desenvolvida e fortalecida, influenciando então o que se considera uma vida fácil ou uma vida difícil.

Importante é ter em mente que a beleza, o sucesso e a prosperidade são apenas bons quando acompanhados pelos seus lados complementares, neste caso, a ausência de beleza, de sucesso e de prosperidade. É precisamente o vazio que em alguns momentos sentimos, enquanto percorremos o nosso caminho na vida, que nos permite verdadeiramente apreciar de forma plena aquilo que vai surgindo. 

Neste jogo da dialética, é não ter nada que permite apreciar verdadeiramente o ter, é a dor que possibilita reconhecer o conforto, é a experiência de tensão que leva à identificação do relaxamento. As verdadeiras mudanças, os reais encontros connosco mesmos, dão-se apenas após momentos de enorme crise e desconforto, as maiores convicções surgem após períodos de dúvidas esvaziantes, os maiores sucessos ocorrem após derrotas sucessivas. É precisamente aceitar surfar as ondas que aparecem, desde as mais calmas às mais agitadas, aproveitando o mar que vai existindo cada dia, lutando sempre por apanhar uma onda melhor mas sabendo esperar quando ela não aparece, que nos conduz a níveis de satisfação e bem-estar elevados.

Tudo na nossa vida teve de acontecer de forma a sermos quem somos, não é possível retirarmos cirurgicamente alguns momentos de dor, falhas, derrotas, traições, e desilusões, e chegarmos ao mesmo Eu. E mesmo se esses momentos não tivessem acontecido outros semelhantes ter-se-iam dado, uma vez que tudo na vida carece deste equilíbrio desequilibrado, em que todos os lados têm necessariamente pares complementares. Não é possível vivermos sem ser nesta dialética.

Assim, é precisamente através da dor que encontramos felicidade, é na escuridão de algumas etapas que tomamos decisões que nos levam a fases paradisíacas da nossa vida. Por isso quando olhar para trás sorria, e conclua que tudo foi necessário, tudo teve o seu papel, tudo teve a sua beleza.

E esse é o momento que recordará a sua infância difícil como necessariamente difícil para ser a pessoa que é, que se relembrará que se não se tivesse sentido miserável não teria aprendido a sua maior lição, que olhará para o seu coração despedaçado ou para o coração de outro que despedaçou como um momento de viragem, que se rirá por o seu emprego de sonho ter-se revelado um pesadelo e que precisamente por isso o permitiu descobrir o verdadeiro dream job. Ficamos então eternamente agradecidos aos amigos que afinal revelaram não ser amigos, porque só assim descobrimos o que é a verdadeiramente amizade. Recordamos o momento em que o nosso mundo se partiu em mil e um pedacinhos e que mesmo assim nos mantivemos inteiros. 

A vida é incrivelmente complexa, a vida no seu todo e as nossas vidas dentro da vida. Existem tantas aspetos e particularidades que fazem de nós o que somos, a cada momento, que não é possível mantermos tudo rigidamente equilibrado, sempre. Os momentos de perda, vazio, destruição são inevitáveis. E por vezes a destruição poderá ser proporcional ao desvio das vidas que devíamos estar a levar em relação às vidas que realmente vivemos…só assim é possível começar de novo. E nesse instante, em que descobrimos que é possível nos mantermos em movimento sempre, mesmo na tristeza, no desespero, na zanga, no medo, no vazio, na descrença, é o momento em que nos tornamos perfeitamente imperfeitos. 
 

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