Ciência

Observatório: O cidadão ao serviço da ciência

Nos últimos 20 anos, a investigação na área da astronomia começou a ganhar uma nova dimensão. Os astrónomos fazem cada vez mais parcerias, criando equipas com um número de pessoas cada vez maior onde, por vezes, até o cidadão comum pode participar.
Versão para impressão
Historicamente, a astronomia sempre foi uma ciência “solitária”, com os cientistas a conduzirem as suas investigações individualmente ou em pequenos grupos de investigadores. Contudo, nos últimos 20 anos, a investigação na área da astronomia começou a ganhar uma nova dimensão. Os astrónomos fazem cada vez mais parcerias, criando equipas com um número de pessoas cada vez maior onde, por vezes, até o cidadão comum pode participar.
 
por João Retrê – Astrofísico

Até há pouco tempo, as observações conduzidas pelos astrónomos tinham como alvo uma amostra formada por um número pequeno de objetos cuidadosamente selecionados. Devido às limitações tecnológicas, estes estudos individuais eram conduzidos apenas numa parte limitada do espectro eletromagnético, mais concretamente nos comprimentos de onda do óptico.
 
Com o avanço da tecnologia apareceram telescópios maiores e mais sofisticados (terrestres e espaciais), assim como uma variedade de detetores, permitindo a obtenção de imagens e espectros com uma resolução cada vez maior e abrangendo uma vasta gama do espectro eletromagnético (dos raios-X passando pelo ultravioleta, óptico, infravermelho e adiante). Em vez de se observarem apenas pequenos grupos de objetos específicos, começaram a realizar-se estudos de grandes áreas do céu em vários comprimentos de onda, permitindo assim aos astrónomos recolher informações acerca de grandes amostras de objetos no céu.  
 
Estes fatores levaram a um aumento exponencial na quantidade de dados que a investigação em astronomia produz. Atualmente, a informação obtida nos grandes levantamentos realizados a partir da Terra e/ou do espaço (e que cobrem virtualmente todo o espectro eletromagnético, em conjunto com os projetos individuais que acrescentam dados relativos a programas científicos específicos) fazem da astronomia e das ciências espaciais áreas da ciência ricas em dados com muitos exabytes e milhares de milhões de fontes detetadas e prontas para serem estudadas.
 
A análise de tal volume de dados, tornou-se uma tarefa muito difícil para qualquer grupo de investigadores e mesmo impraticável para um investigador individual. Algoritmos computacionais são usados para ajudar neste processo de análise, mas não existe nenhum programa de computador que consiga identificar e distinguir padrões de forma mais eficiente que o cérebro humano.
 
Todos podem ajudar
 
Foi neste contexto que um novo tipo de ciência foi desenvolvido, a chamada 'Citizen Science', que visa envolver a comunidade nos projetos de investigação. Desta forma, todas as pessoas, mesmo aquelas sem qualquer formação na área, podem contribuir para a investigação científica ajudando no processamento das grandes quantidades de dados e, no processo, aprender mais acerca do Universo que as rodeia.
 
Um dos projetos pioneiros nesta nova forma de fazer investigação foi criado pelo Search for Extraterrestrial Intelligence (SETI) com o objetivo de procurar vida inteligente fora da Terra através de sinais de rádio provenientes do espaço. Em Maio de 1999 o SETI lançou o SETI@home em que pessoas de todo o mundo podem ajudar na procura por estes sinais de vida extraterrestre inteligente, usando os seus computadores pessoais e uma ligação à internet.
 
Desde então, que diversos projetos de Citizen Science foram criados e se encontram disponíveis na internet. Um dos maiores destes projetos é o ZooUniverse, no qual a comunidade pode ajudar na investigação em Astronomia, Biologia, Meteorologia ou Humanidades.
 
O ZooUniverse possui atualmente oito projetos de Citizen Science em Astronomia nos quais todos os interessados podem auxiliar no estudo da superfície Lunar, do clima em Marte, classificar galáxias quanto à sua forma, ou mesmo detetar planetas fora do nosso Sistema Solar. Aqui ficam alguns exemplos:
 
1 –     GalaxyZoo: com o objetivo de se compreender como as galáxias se formam e evoluem, a comunidade é convidada a ajudar na classificação de galáxias de acordo com a sua morfologia. Existem centenas de milhares de imagens do Telescópio Espacial Hubble à espera para serem classificadas.
 
2 –     Planet Hunters: de uma forma simples, o público pode ajudar na deteção de exoplanetas através da análise de como o brilho de uma estrela varia ao longo do tempo.
 
3 –     MoonZoo: este projeto visa o estudo da superfície lunar com grande detalhe, usando para tal a ajuda da comunidade para classificar visualmente milhões de imagens da superfície da Lua.
 
4 –     Planet Four: neste projeto o público pode auxiliar na identificação e medição de características na superfície de Marte de forma a ajudar os cientistas a compreender melhor o clima marciano. A maioria das imagens a analisar nunca foram vistas antes por nenhum ser humano.
 
5 –     Solar Stormwatch: pode ajudar no desenvolvimento do estudo e compreensão do Sol e de como a atividade deste, por exemplo as tempestades solares, afetam as condições no espaço e na Terra.
 
6 –     The Milky Way Project: através da análise de dezenas de milhares de imagens da nossa galáxia, obtidas no infravermelho, pode contribuir para uma melhor compreensão de como as estrelas se formam.
 
Para além de poder contribuir de forma ativa para a investigação nesta área, se tiver a sorte da sua contribuição resultar na descoberta de, por exemplo, um novo exoplaneta, receberá o crédito por isso e o seu nome aparecerá no artigo científico da descoberta. Do que está à espera para se tornar, por exemplo, um caçador de exoplanetas?
 
O Centro de Astronomia e Astrofísica da Universidade de Lisboa tem promovido ao longo dos anos, no Observatório Astronómico de Lisboa, atividades ligadas à astronomia e astrofísica como cursos, visitas, palestras e observações astronómicas para o público em geral e formação especializada para a comunidade académica.
____________________________________________________


Para mais informações, consulte:
www.caaul.oal.ul.pt

Comentários

comentários

PUB

Live Facebook

Correio do Leitor

Subscreva a nossa Newsletter!

Receba notícias atualizadas no seu email!
* obrigatório

Pub

Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. Saiba mais aqui.

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close