Literatura

O Tempo dos Milagres: A Coisa

NULL
Versão para impressão

Por Manuela Gonzaga

Image and video hosting by TinyPicEram batatas-doces, esqueci-me delas, e quando reparei estavam a despontar. Já não serviam para comer, mas estavam tão vivas, que não consegui deitá-las no lixo. Tempos depois, coloquei-as num pequeno alguidar de plástico. Cresciam simplesmente sobre si próprias. Estavam cheias de raminhos, folhinhas, coisas de plantas. Borrifei-as e reagiram escandalosamente àquelas gotas de água, derramando-se por tentáculos eufóricos. Coloquei-as, finalmente, em evidência, sobre uma prateleira e espalhei um bocado de terra sobre elas, que já estavam a espreguiçar para todos os lados, procurando abraçar candeeiros e torneiras. “Isto está fora de controlo” – disse ele. – “Um dia entro em casa e estás estrangulada, diante do lava-loiças.”

Foi então que me lembrei da Coisa. Era uma dádiva da natureza, uma panaceia universal, tinha vindo de Jerusalém e só se obtinha por oferta de amigos sinceros. Como ela, a Blá, que ma trazia com instruções muito precisas. Eu tinha de meter a Coisa – a Blá chamava-lha a Alga – num recipiente, e alimentá-la com água com açúcar, todos os dias. Ao fim de nove, tinha de lhe fazer o parto. Ela procriava, sim. Esse pequeno rebento devia ser oferecido a uma grande amiga. Podia tentar dar a um amigo, mas os homens não são sensíveis a este tipo de presente que não é propriamente belo e ainda por cima requer trabalho de manutenção.

– E o que faço eu com isso?
– Continuas a alimentá-la. Ela não pode apanhar luz, tapa-a com um pano branco. É milagrosa. Por exemplo, se alguém se queimar, um pouco do líquido dela, cura a ferida num instante. É intensamente cicatrizante. Também se usa para cancros. Remissão de borbulhas e rugas. É uma planta da felicidade.
– Que tem filhos.
– Todos os noves dias. No meio dela, cresce um corpo redondo. Puxas delicadamente, separas da mãe, e ofereces a alguém de quem gostes muito.

A Coisa foi para debaixo do lava-loiça, num recipiente de barro. Ao fim de uns dias, a cozinha e o hall de entrada cheiravam permanentemente a vinagre. Em pouco tempo, esgotámos as amizades profundas a quem devíamos honrar com aquela oferenda, e passámos a despachar filhos da Coisa por colegas de trabalho, conhecidos e até vizinhos, enquanto ela crescia tanto que acabámos por enfiá-la na dispensa dentro de um grande alguidar de plástico, que ela ocupou num instante com o seu corpo gelatinoso, acastanhado e disforme.
 
Tornou-se um pesadelo. Se íamos de noite à cozinha, julgávamos ouvi-la a resfolegar e a grunhir enquanto crescia. Ia acabar por rastejar para fora do sítio onde estava, e com o paninho branco em cima, procurar-nos pela casa, para nos pedir satisfações pelos filhinhos que agora, despudoradamente, deitávamos na sanita, a cada nove dias. Chegámos à conclusão de que era preciso tomar medidas. Que raio, se alguém se queimasse tínhamos sempre a alternativa do hospital, que é para onde as pessoas normais se dirigem para receberem tratamentos normais e tomarem remédios normais.

Um buraco negro oculta como e quem executou o desígnio familiar. Poderá muito bem ter sido o André. O quarto dele ficava pegado à marquise da cozinha. Se calhar, ouvia muito mais o ronronar da Coisa do que nós. O cheiro a vinagre tornara-se insuportável.

[Manuela Gonzaga é escritora. Mestre em História pela Universidade Nova de Lisboa, publicou, entre outros, a biografia de António Variações, a de Maria Adelaide Coelho da Cunha, e uma coleção juvenil, “O Mundo de André”, com a chancela do Plano Nacional de Leitura que já vai no 3º titulo. Visite o blog de Manuela Gonzaga em http://www.gonzagamanuela.blogspot.com/]
 

Comentários

comentários

PUB

Live Facebook

Correio do Leitor

Subscreva a nossa Newsletter!

Receba notícias atualizadas no seu email!
* obrigatório

Pub

Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. Saiba mais aqui.

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close