Sociedade

Hoje é um bom dia para ser feliz

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Realize actividades que o apaixonam, fuja daquilo que não gosta, estabeleça pequenos sucessos em vez de metas irrealistas, medite, aprenda com os seus erros, seja boa pessoa. São estes alguns dos conselhos dos estudos mais modernos para alcançar, se não a felicidade, pelo menos um dia-a-dia pleno e realizado.

Não há receitas mágicas, mas a ciência conseguiu estabelecer princípios básicos que nos podem ajudar na difícil e complexa tarefa de alcançar um bem-estar sustentável. E todas as pessoas, mesmo as mais cépticas e cínicas, têm legitimidade para procurar a felicidade.

Diversos estudos provam que o contexto familiar, sociocultural e económico e os genes influenciam a nossa capacidade de ser feliz. Mas profissionais de diversas áreas, como a psicologia positiva, salientam que mesmo tendo genes “pessimistas” e um background desfavorável, é possível recorrer a ferramentas de transformação pessoal para alcançar um bem-estar sustentável.

Até aos anos 80, o estudo científico da felicidade foi amplamente desprezado. Já o lado negro da humanidade, os distúrbios comportamentais e mentais, foram minuciosamente analisados. Um levantamento feito por David G. Myers, em 2001, aos artigos e livros de psicologia publicados nos últimos cem anos encontrou 136.728 títulos com referências a raiva, ansiedade, depressão, e apenas 9.510 referências a conceitos como felicidade, alegria, satisfação.

Isto mudou quando investigadores como Christopher Peterson e Martin Seligman (EUA), Mihaly Csíkszentmihályi (Húngria), Ruut Veenhoven (Holanda) e José Pais Ribeiro (Portugal), entre outros, viraram os métodos de investigação tradicionais do avesso. Em vez das causas do mal-estar, procuraram as causas do bem-estar e variáveis que contribuem universalmente (independentemente da cultura, da nacionalidade, do estrato social) para a felicidade dos indivíduos.

Antes de mais, há um ponto de partida com o qual todos os estudos parecem concordar: o dinheiro por si só não traz felicidade. «A investigação é clara sobre a relação entre riqueza e felicidade […] A ilação que se tira é que é necessário um nível económico mínimo para estar bem» mas «o excesso não contribui nada para a felicidade», explica ao Boas Notícias, José Pais Ribeiro, Professor da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto que estuda o “fenómeno” do bem-estar desde o início dos anos 90.

Basta pensar em exemplos como Marilyn Monroe e Michael Jackson para perceber que contas milionárias não garantem felicidade. Em termos mais amplos, Pais Ribeiro sublinha o exemplo de povos como os das Caraíbas, «que são mais pobres do que nós (portugueses)» mas que «têm valores de felicidade superiores aos do povo português».

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Reforçar qualidades, relativizar falhas e defeitos

Outra regra que parece amplamente estabelecida entre os psicólogos positivos é que é mais importante concentrarmo-nos nas nossas qualidades do que nos nossos defeitos. Ao valorizarmos e investirmos naquilo que fazemos bem, é mais provável que os defeitos deixem de ser uma preocupação central.

No livro “The Happiness Hypothesis”, o psicólogo Jonathan Haidt dá o exemplo das resoluções que repetimos cada ano novo para corrigir falhas que se repetem ao longo da vida. «Não temos de ser bons em tudo. A vida oferece tantas ferramentas e oportunidades que normalmente é possível reforçar uma capacidade nossa para contornar uma fraqueza», salienta.

Por outro lado, é fundamental aprender a errar já que o erro é uma parte importante da nossa aprendizagem. Richard Branson, fundador da Virgin, afirmou um dia: “Aprendi mais com os meus fracassos do que com os meus sucessos”. O medo do fracasso é um desmotivador poderoso mas perde o seu poder quando é posto em perspectiva. A maior das pessoas bem sucedidas compreende que falhar é apenas parte de um processo.

Antes de inventar a lâmpada eléctrica o grande inventor Thomas Edison, fez cerca de 700 experiências que não resultaram. Quando o New York Times lhe perguntou o que sentia por ter falhado tantas vezes até acertar, Edison respondeu «não falhei uma única vez, consegui provar que essas 700 formas de fazer não funcionam». Edison conseguiu olhar para as suas “falhas” da perspectiva certa para permanecer motivado.

Ultrapassar o sofrimento

A autora de Harry Potter, que neste momento é uma das mulheres mais ricas do mundo, viveu momentos de profundo sofrimento antes de alcançar o sucesso. Depois de um casamento fracassado em Portugal, J.K. Rowling voltou para a sua cidade, na Escócia, com uma filha pela mão. Era mãe solteira, vivia de um subsídio estatal, e chegou a pensar no suicídio.

Porém, a autora confessou numa conferência que essa sensação de perda total fez com que se despojasse do que era menos menos importante. Ao enfrentar os seus maiores medos (como a solidão e desemprego) ficou livre para se concentrar naquilo que realmente lhe dava prazer: escrever.

Os psicólogos Richard G. Tedeschi e Lawrence G. Calhoun, da universidade da Carolina do norte, explicam que quando conseguem ultrapassar momentos de sofrimento profundo, as pessoas registam um aumento do seu bem-estar, que se traduz numa maior empatia e compreensão do sofrimento alheio, maior força de vontade, aumento da auto-estima e uma maior capacidade de apreciar a vida.

O Dalai Lama afirma que «a pessoa que já passou por mais desafios consegue manter os pés firmes na terra e enfrentar melhor os problemas do que a pessoa que nunca experimentou o sofrimento. Nesta perspectiva, uma certa dose de sofrimento pode ser uma boa lição de vida».

Mesmo em situação de extremo sofrimento, é possível alcançar a felicidade, depois de ultrapassado um período de luto. Um estudo de G. C. Whiteneck mostrou que os níveis de felicidade de pessoas que ficaram paraplégicas, ao fim de algum tempo, atingem níveis quase idênticos aos que viviam antes do acidente.

Já o psicólogo Michael Argyle acompanhou de perto uma jovem inglesa de 24 anos que venceu um jackpot superior a um milhão de libras. Um ano depois a jovem, que se tinha despedido do seu emprego e comprado uma casa luxuosa longe do bairro onde tinha os seus amigos, sentia-se vazia, insatisfeita e deprimida. Isto porque mais do que ter tudo o que desejamos, o ser humano precisa de ter desafios que consiga ultrapassar. Ao receber de mão beijada um elevada soma de dinheiro, a pessoa não se autovaloriza.

“Transcendência” ou o amor pelo que fazemos

Para Mihaly Csikszentmihalyi um dos factores fundamentais para ser feliz é praticar atividades tão absorventes que chegam perto da transcendência e são capazes de fazer as pessoas esquecerem o mundo à sua volta, perdendo a noção do tempo, num estado de alegria quase perfeita. Esse fenómeno acontece com monges em estado de meditação, mas também em situações comuns como tocar um instrumento, pintar um quadro, andar de bicicleta.

Há várias maneiras de alcançar este “flow”, como lhe chama Csikszentmihalyi, mas o essencial é encontrar um desafio à nossa altura e que nos permita aplicar os nossos talentos, caso contrário em vez de sentirmos prazer seremos invadidos pelo tédio ou pela frustração.

Procurar experiências desse tipo é recompensador e proporciona altos níveis de felicidade. Infelizmente nem toda a gente tem a sorte de encontrar desafios assim no trabalho. Nesse caso, um hobby, que tanto ser uma atividade manual ou intelectual como um desporto, pode ajudar a viver momentos de fluxo.

Outra alternativa é seguir o exemplo budista e recorrer à meditação. Meditar ajuda a controlar o stress e as emoções negativas, permitindo-nos ouvir aquilo a que algumas pessoas chamam de “consciência”. Tanto meditar como entrar em “flow” são situações que apagam o ruído de fundo do dia-a-dia.

Outro “truque” importante para não bloquear perante os objectivos é dividir as ambições em pequenas etapas de sucesso, em vez de estabelecer metas irrealistas, e concentrar energias em soluções em vez de problemas. Ao pensar, “como posso resolver isto”? O cérebro vai trabalhar intensamente até chegar a uma resposta. Mas concentrar-se no problema gera mais ansiedade, frustração, sentimentos depressivos.

Ser boa pessoa, amar, abraçar causas

A relação entre praticar boas acções (o bem) e sentir felicidade é salientada em vários “estudos positivos”. A psicóloga Alice Isen, por exemplo, espalhou moedas pelas cabines telefónicas da cidade de Filadélfia (EUA). As pessoas que entraram na cabine e encontraram as moedas mostraram muito mais disposição para ajudar alguém que estava previamente combinado com Alice para passar em frente à cabine, na hora certa, deixando cair sacos com compras.

Alice fez muitos outros estudos semelhantes e chegou sempre à mesma conclusão: quando se sentem felizes as pessoas são mais bondosas e estão mais dispostas a ajudar os outros. Além disso, ser virtuoso e ajudar os outros confere um significado mais profundo à nossa existência o que motiva uma maior capacidade de ser feliz.

Também Martin Seligman mediu os efeitos do altruísmo e percebeu que um único ato de bondade pode aumentar os níveis de felicidade de uma pessoa durante dois meses. Seligman sugere que também se pode alcançar uma vida com mais significado construindo algo que pode sobreviver ao indivíduo. O exemplo clássico é viver um casamento feliz [oficial ou não] e criar filhos. Uma outra dica é contribuir para uma grande causa: a ciência, a religião, a sua cidade ou o seu país.

Haverá outros métodos para praticar a felicidade, dependo do indivíduo e da sua história pessoal, mas ao fim de mais de 20 anos a examinar as causas da felicidade, José Pais do Amaral confirma as dicas dos outros psicólogos positivos e resume os segredos de uma vida mais feliz: “Ter uma vida social satisfatória, gostar do que se faz […], manter uma boa saúde (não só física mas também afectiva e mental) e aprender a evitar as coisas desagradáveis”.

E para além disso, acrescentamos nós, consultar o boas notícias que, nas próximas semanas, irá publicar novos artigos sobre o bem-estar no ambiente de trabalho e a felicidade ao nível social e das nações.

Patrícia Maia

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