Ciência

Uma Íris para o Universo

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[António Piedade é Comunicador de Ciência e Investigador do Centro de Física Computacional da Universidade de Coimbra e publica quinzenalmente uma crónica no Boas Noticias]

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O céu estrelado ilumina o pensamento de Francisca. Sentada num muro da casa rural da sua avó Matilde, longe das luzes ofuscantes das cidades e estando a Lua em fase Nova, e assim contribuindo para o breu celeste, Francisca sente-se imersa no significado do número astronómico de estrelas. São incontáveis. Aparentemente fixas.

Para onde quer que fixe o olhar encontra enxames e mais enxames de pontos luminosos, corpos celestes a emitir radiação eletromagnética. Desta, os seus olhos só captam a parte visível do espectro electromagnético*, do vermelho ao violeta. Uma pequena parte de toda a paleta energética emitida desde o início do Universo.
 
Sobre os seus joelhos, Francisca apoia um pequeno computador portátil. Ligado à internet, através de radiações eletromagnéticas, o seu navegador internauta está sintonizado no site do Sloan Digital Sky Survey-III um dos programas com o objetivo mais ambicioso da história da astronomia: construir o mais completo mapa tridimensional colorido de cerca de 930 mil galáxias e 120 mil quasares**.

Francisca recorda mentalmente os primeiros registos efetuados por seres humanos das estrelas que observavam, noite após noite, ano após ano, reconhecendo na aparente imobilidade estrelar figuras de deuses, animais e objetos do seu dia-a-dia. Constelações como as da Ursa Menor (que contém a estrela polar), Andromeda, Cisne e Perseu, cujos nomes ainda hoje se utilizam para referenciar a localização de zonas da abóbada celeste.

Recorda ainda os desenhos que Galileu fez das crateras da Lua, dos anéis de Saturno, das Luas de Júpiter, reproduzindo o que via através da observação dos corpos iluminados no firmamento noturno ampliados pelo seu telescópio feito de duas lentes.

Com o rosto iluminado pelo Universo, Francisca reflete sobre como a tecnologia permite hoje captar o registo da evolução celeste. Não só através de enormes telescópios óticos situados em locais apropriados do planeta, mas também por intermédio de inúmeros satélites com instrumentação científica sensível a outras zonas do espectro eletromagnético.

Francisca visita, na Internet, os sites das Agências Espacial Europeia (ESA – http://www.esa.int/esaCP/Portugal.html) e Norte Americana (NASA – http://www.nasa.gov/topics/universe/index.html) e encontra a referência a pelo menos sete satélites que, com instrumentação precisa e apropriada, perscrutam zonas específicas de quase todo o espectro eletromagnético: Planck (micro-ondas); Herschel (infra-vermelho longínquo); JWST (infra-vermelho); Hubble ST (vísivel); Gaia (infra-vermelho próximo, visível e ultravioleta); XMM-Newton (raios-x); Integral (raios gama). Estes e muitos outros expandem o nosso tecido visual.

O conhecimento astrofísico, acoplado às novas tecnologias de cálculo informático, permite descortinar e revelar informação sobre a matéria escura, a origem e os limites extremos do Universo. Abrem-se novas janelas que não impressionam a retina dos nossos olhos mas espantam os nossos caminhos neuronais.

E assim, com o cérebro imerso no nosso conhecimento e tecnologia, vamos desvendando o Universo na sua plenitude. 

António Piedade

* O espectro eletromagnético é o intervalo que compreende a radiação de natureza eletromagnética com determinadas frequências ou comprimentos de onda: desde as ondas de rádio, micro-ondas, infra-vermelho, luz visível, ultravioleta, raios-X, às radiações gama.

** Quasar é um corpo astronómico que emite radiações eletromagnéticas do comprimento das ondas de rádio, com um núcleo ativo de tamanho aparente muito maior do que uma estrela, mas não suficiente grande para poder ser considerado uma galáxia.

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