Sociedade

“Uma criança deve ser educada desde que nasce”

Luís Maia, neuropsicólogo adepto da disciplina positiva e autor do livro "Educar sem Bater", explica ao Boas Notícias as consequências negativas da educação parental baseada no r
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Luís Maia, neuropsicólogo adepto da disciplina positiva e autor do livro “Educar sem Bater“, explica ao Boas Notícias as consequências negativas da educação parental baseada no recurso ao castigo fisico. A partir da sua própria experiência, como pai e psicólogo, e baseando-se em vários estudos, Luís Maia explica que uma criança educada com amor – e também disciplina – será mais feliz, equilibrada e meiga.

É preciso disciplina para educar uma criança?

Claro que sim! Todavia, não se pode confundir o termo “disciplina” com “punição”, algo que é muito comum entre os educadores. […] Enquanto a punição se apresenta como a penalização de um comportamento desadequado, a disciplina é um método de educar a criança e ensiná-la a distinguir o certo do errado.
A mensagem mais marcante de um método centrado nos castigos físicos, do ponto de vista psicológico desenvolvimental de uma criança, é o facto de a violência ser aceite enquanto uma forma de lidar com as outras pessoas, passa a ideia que uma pessoa mais forte pode utilizar a força e a violência para coagir e dominar outra pessoa mais frágil (em qualquer dimensão particular). A disciplina, por sua vez, ajuda a criança a crescer de forma auto-regulada (consegue determinar as suas vontades e as suas escolhas) em direcção a uma adolescência mais equilibrada e auto-determinada.

Porque motivo alguns pais não conseguem controlar os seus filhos?

Na minha opinião deve-se a dois grandes factores. O primeiro seria o facto de algumas crianças (uma muito pequena minoria) apresentarem características próprias da sua personalidade em construção que tornam a tarefa de educar […] numa tarefa desesperante para os pais, sendo que muitas vezes estes casos remetem para condições patológicas ou pelo menos anormais e, nesse caso, os pais necessitam efectivamente de apoio de técnicos especializados.
Por outro lado, e falo com toda a humildade e como pai, o grande problema é que a maioria dos pais que atendo em consulta de psicoterapia utiliza meios disciplinares inadequados e apenas se lembram que devem educar efectivamente os seus filhos quando o comportamento da criança ou adolescente começa, de facto, a “fugir do seu controlo”. Julgo que estes representam a maioria absoluta dos casos. Uma criança deve ser educada desde que nasce. O meu livro debruça-se exactamente acerca disso. São ilustrados alguns exemplos práticos e técnicos que podem ajudar os pais a educar os seus filhos, desde que nascem, sem temer perder o controlo. É uma tarefa exigente, mas traz grandes recompensas, e talvez seja uma das grandes mensagens do livro.

Há quem diga que uma palmada ocasional, nos momentos certos, ajuda a criança a ser mais educada e menos mimada. Pode ser verdade nalguns casos? 

Na minha opinião, claro que não! Justamente porque hoje não pode ser aceite, com base em todos os dados científicos e educativos, uma palmada, nunca pode ser considerada como algo aceitável na prática educativa. Assim, também não pode haver uma “hora certa” para algo que está legislado como inaceitável e como crime público. O próprio juiz conselheiro Armando Leandro refere a inadmissibilidade de educar batendo, como Presidente da Comissão Nacional de Crianças e Jovens em Risco.

Que fazer quando o nosso filho faz uma birra violenta?

Eu, como pai e técnico costumo sugerir que se utilizem estratégias de disciplina positiva […] que se baseiam no amor firme, no estabelecimento de limites bem conhecidos entre pais e filhos. Não se defende permissividade, nem se coloca em causa que pais e filhos devam ser os melhores amigos, todavia, a responsabilidade de educar é dos pais e […] por isso deve manter-se a firmeza na regulação e implementação das regras, que não podem de forma alguma ser quebradas. Em termos disciplinares, as estratégias que mais funcionam são os reforços positivos dos bons comportamentos e os reforços negativos quando a criança tem comportamentos inadequados. A ideia central não é mimar a criança, mas sim dotá-la de ferramentas de auto-regulação do seu próprio comportamento, de forma positiva, afectuosa e tranquila.
Há ainda uma questão central que se relaciona com o exemplo dos pais. Pelos mecanismos de Aprendizagem Social, uma criança aprende, essencialmente nos primeiros anos de vida, através da imitação dos comportamentos dos seus modelos, que na maioria das vezes são os pais. Assim, a disciplina positiva centra-se muito também num esforço de psico-educação de pais e educadores para serem eles próprios exemplos de “boa conduta” para os seus filhos.

Alguns países, como o Brasil (recentemente) e Noruega ou a Suécia (há cerca de 30 anos), têm leis que proíbem qualquer cidadão, mesmo os pais, de bater em crianças. Acha que Portugal precisava de uma lei assim?

A legislação segue o desenvolvimento sócio histórico dos povos. Com o aumento dos meios de comunicação social e, por conseguinte, o aumento do conhecimento dos fenómenos de maus tratos, enquadrados em Portugal no crime de violência doméstica (Art.º 152 do Código Penal Português), o legislador viu-se obrigado a lidar com uma realidade incontornável: ou se mantém a ideia que, no seio familiar, deve ser considerado crime de violência doméstica quando um marido ou uma esposa agride o seu conjugue (algo que não levanta qualquer discussão neste momento histórico em que vivemos) e criava um estatuto especial para o ´direito` que os pais teriam de utilizar essa mesma agressão para aplicar aos seus filhos, revestindo essa agressão com nomes como, ´palmada educativa`, ´palmada na hora certa` ou considerava que ninguém pode exercer o vínculo afectivo e familiar que mantém com alguém para exercer violência sob o mesmo, qualquer que seja a idade. Por isso, claro que considero que esta lei era imperativa. Só quem não trabalha no campo dos maus tratos é que não acompanha o sofrimento de milhares de crianças que são brutalmente castigadas a pretexto de estarem a ser educadas.

Diz-se que as crianças hoje em dia são demasiado mimadas, algumas tornam-se pequenos ditadores subjugam os pais à sua vontade. É possível evitar isso sem recorrer a castigos (físicos ou de outro tipo)?

Há que esclarecer aqui um aspecto importantíssimo que está subjacente a essa questão. Na minha opinião não é possível educar uma criança sem castigar. O grande problema é que a maioria absoluta dos pais, quando pensa em castigo, pensa numa palmada, numa consequência muito exagerada em função do que a criança fez. Por exemplo, alguns pais retiram a possibilidade de a criança ver televisão durante uma semana porque mentiu – uma semana é uma eternidade na cabeça de uma criança! Assim, pequenos castigos, imediatamente aplicados, a seguir a comportamento indesejados, e a explicação, como explico no livro, do porque é que a criança está a ser castigada, funcionam muito melhor e de forma mais duradoura do que aplicar um mero castigo físico.

Que diferenças se podem verificar, a longo prazo, no desenvolvimento de uma criança que cresce com palmadas e noutra que é educada sem recurso a esses “método”?

No que concerne às evidências de estudos realizados ao longo dos últimos anos, posso referir que estas crianças “batidas”, principalmente as mais novas, não conseguem muitas vezes estabelecer uma relação direta entre a punição física e “que parte específica” do seu comportamento foi inadequado. […]
Vários estudos sustentam a já a repetida ideia que infligir castigos físicos a uma criança pode ensinar-lhe que é normal provocar dor e sofrimento nos outros. Indo mais longe na previsão do comportamento futuro das crianças agredidas, estudos sugerem que quanto mais intensos são os castigos corporais infantis maior é a probabilidade da criança se tornar ela própria numa agressora familiar na sua vida adulta (agredir o conjugue, os filhos, entre outros). […]
Muitos estudos sugerem também que as crianças que crescem num ambiente onde os castigos físicos são a prática mais frequente utilizada pelos seus educadores, a probabilidade de virem a envolver-se em comportamentos de risco como abuso de substâncias, apresentação de comportamentos de risco, comportamento agressivo e anti-social, problemas no controlo das suas próprias emoções, agressividade familiar, tonando-se um adulto agressor, é surpreendentemente avassaladora! 
Mais uma vez, o que aqui se procura salientar é que, aquele de nós, pais, justificam os seus atos de castigos físicos como sendo atos inofensivos e necessários à boa educação dos filhos, não nos podemos esquecer do que nos demonstram os dados epidemiológicos acerca dos riscos dos comportamentos agressivos.

Que ajuda podem os pais encontrar no seu livro?

No fundo, a principal ajuda que podem encontrar é contrariar a crença que é impossível educar sem bater. Como pai de uma filha de seis anos, afirmo que nunca bati na minha filha. É uma criança feliz, equilibrada, meiga, educada e super – respeitadora. O livro é em grande medida, também, uma partilha de como eu eduquei e continuo a educar a minha filha e como lido com as crianças que atendo em consulta.

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