Ciência

Tio Rómulo e a gravidade no verão de S. Martinho

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[António Piedade é Comunicador de Ciência e Investigador do Centro de Física Computacional da Universidade de Coimbra e publica quinzenalmente uma crónica no Boas Noticias]

Image and video hosting by TinyPicVasco está tonto. Não tonto de tolice, que lá tolo é que ele não é. Pelo contrário, está tonto de andar com a cabeça às voltas. Não às voltas como a Lua ao redor da Terra. Às voltas com os poemas que o tio Rómulo lhe está a ler, numa noite de lua cheia, à soleira da porta para aproveitar o Veranico ou, como é mais conhecido, o verão de São Martinho.

“Então não é que é a Terra que anda à volta do Sol!”, diz o tio com ar de provocação depois de ler “Um Poema para Galileu“, de António Gedeão. “Mas isso”, exclamou Vasco, “não faz nenhum sentido aos sentir dos meus olhos!”

“Sou capaz de jurar a pés juntos que o Sol nasce a nascente e se põe a poente, e que faz isto a girar por cima do horizonte, lá em frente no palco do mundo! E sou capaz de jurar que de noite, o Sol passa por de baixo da Terra para, no dia seguinte, e depois do galo capão cantar, voltar a despontar em alvorada de novo a nascente.”

“Não”, diz o tio Rómulo com voz certa da verdade que há nos homens de ciência e, claro, também nos poetas. “É exatamente o contrário. E é a ciência que nos ajuda a discernir, sem ilusões e preconceitos,  a aparência criada só pela simples observação.”

“É preciso questionar e planear novas e minuciosas observações, para chegar a constatações a que qualquer um pode chegar, se fizer as mesmíssimas observações.” “E é preciso experimentar, a ideia que temos das coisas que nos rodeiam, para a despir de aparências e ilusões.”

“Mas o que vejo não é real?”, pergunta Vasco intrigado. “Se os sentidos são reais, Vasco? Sim, claro que são e ainda bem que são”, afirma o tio Rómulo. “Mas a maravilha dos sentidos está mais em deixar o cérebro também ver, ouvir, cheirar… Para depois fazer a pergunta certa, a que abre novos horizontes e desvenda o que antes parecia pura contradição.” 

“E a magia deixa de estar no fenómeno e passa para o deslumbramento das ideias e do sonho”, continuou o tio Rómulo. “Sim, porque como diz o poeta no outro poema, o da `Pedra Filosofal`, é o sonho, essa essência neuronal, é o sonho que comanda a vida. Mas depois do sonho nos transportar através de aparentes contradições, surge a curiosidade de experimentar a eventual ideia que dele emerge!”

Vasco está estupefacto. Nos seus olhos cintila o brilho das estrelas, o rosto prateado pelo Luar. “Os homens sonharam ver mais e mais para além e aquém do que os olhos veem”, continua o tio Rómulo e levanta-se. “E o Homem do primeiro poema, o florentino Galileu Galilei, depois de muitas e persistentes observações dos satélites e das estrelas, fez cair uma secular ilusão: a de o Sol rodar em torno da Terra. Pelo contrário,” realça o tio Rómulo, “é a Terra que gira à volta do Sol e à razão de trinta quilómetros por segundo!”

Rómulo, ergue as duas mãos e deixa cair uma castanha e um grande pião. E não é que caíram ao mesmo tempo no chão! “Sabes que o mesmo acontece com todos os corpos com massa, independentemente do seu peso?” perguntou o tio. “Todos caem dependendo, não do seu peso, mas da razão direta do quadrado dos tempos.”

“E é pela mesma ação da força da gravidade, que atrai a castanha para o chão do planeta, que a Terra gira em torno do Sol”. O tio Rómulo fita o enxame estrelado da via láctea no espaço sideral e diz: “E Sol e Terra, juntos, giram por sua vez à volta de outros sóis, sob essa força de atração, a da gravidade, que atrai os corpos com massa na razão inversa do quadrado das distâncias.”

“Por isso, é que estamos sentados na soleira da porta e não a voar em direção às estrelas longínquas, astros que nos iluminam com o brilho do seu passado.”

“Mas podemos sonhar que voamos sem ainda o fazer?”, pergunta Vasco. “Sim”, responde Rómulo, “através do sonho conseguimos, pois ´o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer`”.

António Piedade

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