Cultura

Rui Lacas: “Artistas nacionais fazem BD por amor”

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Não se considera um artista mas é um dos autores de BD mais premiados em Portugal. Recebeu o 1º prémio na II edição do Festival de BD da Amadora [FBDA], quando tinha apenas 16 anos. O seu livro “Obrigada, Patrão” já arrecadou cinco distinções, duas das quais no estrangeiro. O último álbum de Rui Lacas, “Asteroid Figthers”, desenha um futuro apocalíptico para a humanidade, num planeta ameaçado por asteróides que são combatidos por heróis muito especiais. Foi o melhor álbum do ano no FBDA de 2010. Ao Boas Notícias, Rui Lacas explica que a BD não dá para viver e garante que os autores portugueses “fazem BD por amor”.

por Patrícia Maia

Quando é que começaste a desenhar os primeiros traços?
Comecei a desenhar desde muito pequeno. Sempre fui um dos desenhadores da turma, imitava muito os desenhos da Disney, o Donald e essas personagens.

Desenhavas nas paredes dos teus pais?
Isso acho que não – eu era muito educadinho – mas desenhava sempre que podia. Fiz a minha primeira banda desenhada (BD) com nove anos. No liceu comecei a levar a coisa mais a sério até porque eu, o João Tércio e o Ricardo Tércio (que também são autores de BD e que me influenciaram sempre muito) fomos à junta de freguesia da Graça pedir dinheiro para criar uma fanzine. Os senhores receberam-nos e deram-nos 15 contos, que na altura era muito dinheiro. Então lançámos dois números de uma fanzine de BD chamada “ComiCala-te”.

Pouco depois recebeste um dos teus primeiros prémios, certo?
Sim, no segundo ano do festival de BD da Amadora ganhei o primeiro prémio com uma história de sete páginas. Nessa altura ainda não havia os prémios nacionais de banda desenhada porque ainda não se editava muita BD em portugal, só os grandes autores como o José Rui é que tinham direito a edição.

Hoje em dia ainda não se vê muita BD nacional nas livrarias…
Não, mas a situação está melhor, graças a editoras como a ASA e também à auto-publicação. Mas a verdade é que a  banda desenhada não vende muito e isso acontece em qualquer parte do mundo, não é só em Portugal.

Mas nos EUA, no Japão e em França, por exemplo, há mais mercado, as editoras apostam mais, ou não?
O mercado norte-americano e o japonês, sim, continuam a vender. Mas o mercado francófono está em declínio porque foi invadido pelo manga japonês e pelo manhwa coreano e até a banda desenhada chinesa começa a ter algum peso. Neste momento 40 por cento do mercado franco-belga é asiático.

Até na BD os chineses andam a conquistar mercado?
Sim, andam a mostrar qualidade. Os japoneses já andam há muitos anos metidos nisto e têm uma linguagem muito própria, inspiram muitos dos estilos que se usam hoje em dia, como os estilos de fusão, em que eu me insiro um bocado porque tenho muitos traços europeus mas nas cenas de ação tenho muito da BD japonesa.

Porque é que achas que não se lê muita BD em Portugal? Achas que as editoras não gostam de arriscar, que é caro?
Não são só questões económicas. Acho que sempre tivemos um bocado a tendência para desprezar o que é nosso, mesmo no teatro e no cinema. Acho que a BD portuguesa teve a sua fase histórica, com aqueles clássicos da BD, que se calhar ficava um pouco aquém do que se fazia lá fora. Agora temos alguma qualidade mas é pouco reconhecida e mesmo alguns ´opinion makers` lutam contra isso. A exposição que foi feita no museu Berardo espelha um bocado o que quero dizer.

A “Tinta nos Nervos”. Foste ver?
Sim, fui ver e gostei muito mas é uma exposição completamente sectária e não reflete o que é a banda desenhada portuguesa.

Faltam lá nomes?
Faltam lá muitos nomes mesmo. Eu gostei muito dos trabalhos que vi só que aquilo não é a banda desenhada portuguesa. Nós neste momento temos autores como o Filipe Andrade e o Ricardo Cabral – que estão a trabalhar para a Marvel com uma qualidade excelente – e pôr de lado tudo isto é renegar uma das coisas que está a fazer a BD portuguesa andar para a frente. Falei com o organizador da exposição e disse-lhe com toda a frontalidade que estava em desacordo com aquilo. E isto é uma questão muito importante porque este tipo de ´opinion makers` espartilham a própria BD.

Estás a trabalhar nalgum projeto novo?
Sim, estou a trabalhar em três livros novos. Acabei agora um que vai sair na Polvo que é um resumo de uma série de páginas que andei a publicar no ´Efeméride`, um boletim cultural de distribuição gratuita. Depois tenho o nº 2 do “Asteroid Fighters” pronto para sair no Festival da Amadora e também estou a trabalhar com um argumentista polaco, o Bartosz Sztybor, num livro de maior fôlego, com mais de 170 páginas, que espero editar cá e na Polónia.

Costumas ser tu a escrever os teus argumentos… Estás a gostar de trabalhar com um argumentista?
Estou a gostar muito. Estou farto dos meus argumentos. Gosto do que escrevo mas para ser um argumentista a sério terei que ter mais bagagem teórica. Não é fácil fazeres tudo bem. E eu prefiro, neste momento, concentrar-me nas minhas áreas onde posso evoluir e beneficiar com o talento dos outros nas outras áreas, como o argumento.

Dos livros que fizeste qual é que te entusiasmou mais?
O “Obrigada, Patrão” é o meu melhor livro e o mais premiado. Construi-o à volta de um ideia do meu amigo Vasco Lourenço. Gosto muito dele, é uma peça muito completa. Mas o meu livro preferido é “A filha do caranguejo” (2001). É muito especial porque é muito autobiográfico, foi um período em que vivi um grande isolamento, e representa também um corte estilístico em relação ao que eu andava a fazer.

E o “Astroid Fighters”? Que sentiste durante a produção do livro?
Pois, esse é o caso de um livro que me custou bastante a acabar, demorei mais de dois anos.

Foi um parto difícil…
Sim, sim… Mas penso que o nº 2 está mais apurado. As personagens estão mais desenvolvidas e surge o Otipep, o vilão que é o irmão gémeo do Pepito e que anda a tentar destruir o mundo.

Transformaste alguns dos teus amigos em heróis do “Astroid Fighters”, é uma espécie de homenagem?
Isso aconteceu porque um dia o meu amigo Pepe [Pedro Daniel] começou a dizer que ia fazer uma BD manga em que a personagem principal seria um cozinheiro gordo. E eu disse-lhe: “Não vais não, quem vai fazer isso sou eu” [risos]. Então comecei a criar algumas das personagens como o Pepito, o cozinheiro que come asteroides. O Gamito – um amigo meu que é muito grande – ficou o Granito, uma personagem que pode ampliar o seu peso até às 50 mega toneladas e furar um planeta de um lado ao outro. Decidi exagerar todas as suas características para criar estes heróis.

Dá para viver da BD?
Não, vivo da publicidade e ocasionalmente faço ilustrações para jornais e revistas. Mas o que faço mais são ´storyboards` para publicidade.

Quanto é que vende um livro de BD como o “Asteroid Fighters”?
Não vende mais de mil ou dois mil exemplares… Os autores de BD fazem mesmo isto por amor.

E a técnica que usas, como funciona?
Eu estou sempre a mudar de estilo mas a base é lápis e pincel com tinta da china. Depois encho a côr no computador. Venho dos tempos em que não havia computadores e ainda dou muitas vezes a côr à mão. Agora quero comprar uma Cintic, uma espécie de papel digital para desenhar logo no computador.

E animação, alguma vez pensaste fazer?
Sim, ando a sentir o bichinho da animação e também o do cinema. Um dia, se o mundo não acabar – que é um dos meus grandes medos como se vê no “Asteroid Fighters” – espero fazer um filme de animação ou de cinema.

Achas mesmo que o mundo vai acabar em 2012?
Acho.

E se não acabar o que é que vais fazer?
Já disse aos meus amigos que cada um pega em 100 euros e vamos fazer um festão…

Quais são os teus heróis na vida real?
Admiro muito o Moebius e o Jacques Tardi. No cinema gosto muito do (François) Truffaut, do Takeshi Kitano e, claro, do (Hayao) Miyazaki, um autor de animação que considero um precursor, muito onírico… belíssimo. O Miyazaki é o criador de um dos meus heróis de ficção de sempre, Conan O Rapaz do Futuro.

Consegues descrever o processo criativo?
Eu acho que toda a arte é muito umbilical. A arte serve, sobretudo, o próprio artista. Depois, por acaso, há outras pessoas que gostam. Um bom filme faz-nos muito bem, um bom livro faz-nos muito bem. Mas no fundo, quem beneficia mais com a arte é o próprio artista. Acho que há muitos artistas que se sobrevalorizam. Eu próprio não me considero artista, ou pelo menos não me considero apenas artista, tenho de tentar também, por exemplo, ter um lado comercial. Tenho é o azar de ser muito desorganizado…

P.M.

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