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Roberto Carneiro – Presidente do Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa

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Foi Ministro da Educação de 1987 a 1991, tendo impulsionado a criação da Universidade Aberta.

Para ele “ensinar, melhor, educar, é o processo através do qual se ajuda cada pessoa a vir a ser o que é ou pretende ser, na liberdade e com autenticidade”. “Por isso, educar cada criança é realizar o milagre de lhe conceder a plenitude, nela contida, em potencial”. Em suma, para Roberto Carneiro “Amar Educa, Desamar – Odiar – Deseduca!”.

Como vê o atual estado da educação nacional?

Precisamente nestes 45 anos tenho assistido a alterações radicais na educação nacional. Entre alguns dos mais notáveis “acquis” nacionais, evocarei que mais de 40% de cada geração atinge o nível terciário de ensino, o que significa que não apenas decuplicámos a probabilidade de frequência de estudos superiores, no curto período de quatro décadas, como ainda que, em matéria de eficiência do fluxo escolar, ombreamos hoje com o mundo desenvolvido. O problema é que as demais nações não pararam no tempo, registando igualmente os seus progressos na procura educativa de padrões avançados de desempenho. Essa circunstância significa que, à revolução quantitativa se terá de suceder a regeneração qualitativa do sistema educativo português, e esse desafio é bem mais complexo de cumprir do que a simples oferta de escolaridade a mais jovens.

Continua a acreditar que o “sistema educativo predominantemente financiado pelos contribuintes” para a formação pós-fundamental, ou seja, além da obrigatória, é injusto? Porquê?

Pela simples razão, contida no enunciado da sua questão, de que na escolaridade pós-fundamental e, por conseguinte, pós-obrigatória, não se encontra inscrito o universo de jovens na idade correspondente. Dito de outra forma, se são os impostos a suportar, através do Orçamento do Estado, a totalidade da despesa do ensino superior, à medida que este cresce e se diversifica, tornando-se mais dispendioso, não é justo exigir-se aos contribuintes como um todo que o suportem, frequentem-no ou não, diretamente ou através dos seus filhos. Caso a política pública se dirija no sentido do financiamento total do ensino superior configura-se, com certeza, uma transferência líquida de rendimentos dos menos ricos para os mais ricos, dada a probabilidade muito mais alta de estes últimos terem os seus filhos a usufruir de um ensino superior, dito “gratuito”, ou seja inteiramente suportado pelos impostos pagos por todos os contribuintes.

Então como é que funcionaria um sistema como o que propõe?

O funcionamento é simples e encontra-se testado em muitos países desenvolvidos. Em primeiro lugar, o estudante ao inscrever-se numa universidade ou instituto politécnico público, recebe a notificação da abertura de um crédito a seu favor. Periodicamente (trimestral ou semestralmente) recebe informação precisa do crédito acumulado que lhe foi concedido, o qual corresponde ao custo real da sua escolaridade no período em que frequentou estudos superiores. O estudante, ou a família, podem liquidar de imediato a dívida em que incorre usufruindo para isso de um desconto (por exemplo, da ordem de 15-20%). No caso de não querer, ou de não poder pagar a pronto os custos da escolaridade, acumulará a dívida até ao termo dos estudos, passando a amortizá-la em percentagem do vencimento auferido, supostamente mais elevado do que se não tivesse completado estudos avançados de natureza superior. O modo mais simples de proceder será o de estipular um pequeno acréscimo percentual sobre o IRS ou sobre os descontos que o indivíduo passa a pagar ao sistema de segurança social (por exemplo, mais 1%).

Quer dizer que defende uma total desresponsabilização do Estado?

De maneira nenhuma. Ao Estado competirão responsabilidades acrescidas em  vertentes:

  • o dever de manter, e de atualizar em permanência, um sistema de informação adequado à tomada de decisão por parte dos candidatos ao ensino superior – número de vagas, custo da escolaridade por curso e por estabelecimento de ensino, dinâmica das saídas profissionais e do mercado de trabalho, sistemas de incentivos, etc.
  • o dever de atuar como garante das dívidas dos estudantes do ensino superior junto das instituições financeiras que colaboram no sistema de bolsas-empréstimo (o default típico, no caso dos países onde se implantaram esquemas de financiamento desta índole, é inferior a 5%).
  • o dever de assegurar a equidade no acesso, desonerando especialmente de parte, ou mesmo da totalidade, da dívida os alunos provindos de escalões menos favorecidos social e economicamente e/ou que revelem mérito nos estudos (um sistema semelhante ao das bolsas de mérito já bastante “rodado” entre nós que distingue os alunos com médias iguais ou superiores a 16 valores).
  • o dever de traduzir as políticas públicas que incidem sobre o subsistema de ensino superior de maneira clara e, sobretudo, sob a forma de incentivos, v.g. interioridade vs. centralidade, ensino superior curto e profissionalizante vs. formações longas e académicas, centros de excelência de investigação vs. centros de excelência em ensino (research teaching universities), etc.

Também foi professor. Como encara os desafios que hoje em dia os docentes portugueses enfrentam? Vê-os como ‘técnicos de educação’ que têm de dominar mais as ferramentas pedagógicas em vez de investirem na sua formação humana?

Captura de ecrã 2016-08-23, às 15.20.14A investigação demonstra que nem sempre a formação avançada em técnicas ou o conhecimento pormenorizado de teorias educativas fazem o bom educador. Isso não invalida que o professor confie apenas nas suas intuições e descure uma formação sólida em ciências da educação e, nomeadamente, em didática geral e específica. O sentido de humanidade que vê em cada pessoa um tesouro  irrepetível é central no desempenho do educador.

O futuro da educação passa, indiscutivelmente, pelo Ensino a Distância (EaD)?

O EaD é uma necessidade evidente que resulta da inventiva tecnológica galopante que os humanos fazem como sua narrativa essencial para intervir e transformar o mundo à sua volta. Na realidade, as novas tecnologias da informação e da comunicação (vulgo, TIC), designadamente nas suas versões digitais, são responsáveis pelas mais profundas transformações nas mais diversas vertentes do nosso quotidiano: os modos como trabalhamos, compramos e vendemos, viajamos, comunicamos, tratamos da saúde ou nos entretemos, vêm sendo radicalmente alterados na última trintena de anos com a explosão do PC, do tablet, do smartphone, ou da Tecnologias Digitais. Por isso, conceder-se-á ser estranho que, no mundo mais entranhado da Educação, não se tenham verificado ainda as inovações disruptivas que nos demais segmentos da nossa vida diária se verificaram já e continuam a suceder-se a uma velocidade imparável. Na verdade, quer disso gostemos ou não, o essencial das funções educativas formais segue o modelo da escola de massas vulgarizada há 200 anos, consistindo no essencial da relação estabelecida entre um professor e várias dezenas de alunos que o ouvem, ou seguem, mais ou menos atentamente, numa sala de aula…

Foi por isso que, enquanto Ministro da Educação e dos Desportos (entre 1987 e 1991) tomou a iniciativa de criar a Universidade Aberta? Reconhece este projeto como o maior exemplo nacional de EaD?

A criação da Universidade Aberta, a 15ª Universidade Pública, ocorrida ainda na primeira parte do meu mandato, em 1998, foi um ato já tardio, tal era a necessidade genericamente partilhada de lhe dar estatuto e realidade institucional. Como o seu nome prenuncia tratar-se-ia de uma Universidade diferente porque “Aberta”: a novos públicos, a novas tecnologias, a novos métodos e estratégias de ensino e até a novas formas de colaboração interinstitucional. Neste particular, permita-me que lhe assinale que, desde a sua implantação, a UAb tinha um desígnio muito especial: o de ajudar as restantes instituições de ensino superior nacionais, a fazerem a sua transição do ensino presencial, que as marcava e continua a caracterizar, para os novos paradigmas de um ensino moderno e sem barreiras físicas, isto é “em qualquer lugar” e “a todo o tempo”. Assim descrita, a UAb nasceu como uma Universidade supletivamente colocada ao serviço das suas Instituições Colegas, além de prosseguir, naturalmente, as suas finalidades próprias e específicas.

Quais considera serem os maiores benefícios e vantagens do EaD?

Os benefícios comummente mencionados são de três ordens: (i) custo-eficiência para grandes números; (ii) flexibilidade sobretudo em regime assíncrono; (iii) alcance (reach) pensando nos imperativos de multinacionais ou de ofertas globais pensadas em línguas de grande penetração internacional.

No entanto, em minha modesta opinião, os maiores benefícios potenciais do EaD verificam-se a três níveis eminentemente estratégicos: (i) inclusão de grupos populacionais tradicionalmente desfavorecidos no acesso à educação; (ii) inovação nos métodos e técnicas de ensino-aprendizagem; (iii) maior transparência e prestação de contas (accountability) por parte dos educadores, levados, por esta via, a uma exposição das suas estratégias pessoais e dos materiais de ensino que lhe dão corpo, perante o escrutínio público. No que toca ao ponto (i), tratar-se-á de construir uma Sociedade da Informação e do Conhecimento mais inclusiva e “amiga das pessoas” do que a sua predecessora Sociedade Industrial. No que respeita a (ii), tratar-se-á de aproveitar plenamente a dinâmica criada pelo EaD para (re)colocar o aluno no centro da aprendizagem e para
ensaiar/inovar em matéria de novas metodologias pedagógicas, típicas do construtivismo e das escolas fundadas no networking social: scaffolding, contingency tutoring, personalised learning, mentoring and coaching, etc. Finalmente, quanto a (iii), tratar-se-á de utilizar a montra pública, que é a internet, para proporcionar aos educadores profissionais uma avaliação objetiva, diferenciada, das suas qualidades didáticas, separando o trigo do joio, premiando adequadamente o esforço e estimulando o reconhecimento do mérito docente.

Contudo, ainda não é uma forma de ensino amplamente usada e aplicada pelas instituições de educação nacionais? A falta de medidas e estratégias governamentais condiciona a aplicação destas práticas?

Não me espanta, embora o diga de coração contrito, que em Portugal o e-Learning não se tenha enraizado de forma sustentável. Em dois estudos seminais que coordenei para o então INOFOR, entretanto inopinadamente extinto – “A Avaliação do e-Learning em Portugal 2002” e “A Evolução do e-Learning em Portugal. Contexto e Perspectivas 2003” – apurámos que cerca de 89% das organizações em Portugal (públicas e empresariais) não dispunham de iniciativas de e-Learning nem de estratégias consistentes para o desenvolver. Verifica-se, decorrida mais do que uma década sobre esses estudos, que se mantém uma oferta de formação em e-Learning da ordem dos 10% em proporção da oferta presencial. Isto é consequência da persistência dos fatores inibidores a um desenvolvimento viral do mercado do e-Learning, a saber: por um lado, uma procura que não reconhece na oferta existente propostas de valor que a motivem a adquirir formação em contexto EaD, associada à precária literacia tecnológica da população; por outro lado, na oferta, uma abordagem estritamente “economicista” do uso do e-Learning que confere às organizações dele titulares redução de custos, poupanças de tempo, sobretudo em iniciativas supranacionais, e flexibilidade dos formandos, com minimização de perdas de produtividade. A insuficiência de estímulos apropriados a um uptake viral explica também a lentidão na apropriação de novas modalidades formativas entre nós. Todavia, dito isto e a contrario sensu, a experiência demonstra ser possível introduzir saltos quânticos numa situação de bloqueio institucional, mesmo com as características radicais das verificadas em Portugal. Dou dois exemplos marcantes: os campus virtuais (que generalizaram a cobertura em Wi-Fi na generalidade dos espaços de ensino superior) e a b-on (que permitiu o acesso indiscriminado e gratuito de alunos, docentes e investigadores a bibliotecas digitais sem fronteiras) concretizados em cerca de 5 anos pela UMIC, sob a liderança do malogrado Diogo Vasconcelos. Do mesmo passo, o espetacular incremento da percentagem do PIB  dedicado à ciência e tecnologia entre 1995 e 2009 (de 0,52% para um máximo de 1,64%, Inquérito ao Potencial Científico e Tecnológico Nacional, DGEEC, 2015), fruto da generalização de uma política de inovação sustentada por uma sociedade do conhecimento, a qual foi dirigida com mão férrea pelo ministro José Mariano Gago, entretanto também tragicamente desaparecido. Fica, aqui, a minha singela palavra de homenagem a ambos esses estadistas, pela visão e pertinácia na concretização de macro-objetivos estratégicos que viabilizaram a produção de transformações profundas, e do mais vasto alcance, no panorama do ensino e da ciência em Portugal.

Consegue identificar casos de boas-práticas de e-learning e que poderiam ser aplicadas em Portugal?

Apesar do nosso atraso evidente em matéria de e-Learning, é possível identificar boas práticas em Portugal que ombreiam claramente com o melhor que se faz em qualquer canto do mundo mais desenvolvido. Citarei o caso da UCP, que lançou, ainda na década passada, o seu primeiro mestrado em e-Learning, denominado Mestrado de Informática Educacional em regime de e-Learning (http://www.fch.lisboa.ucp.pt/site/custom/template/ucptpl_fac.asp?SSPAGEID=924&lang=1&artigoID=4469), dirigido a professores a meio de carreira (40-45 anos de idade e cerca de 20 anos de prática de ensino efetiva) para aumentar a sua proficiência tecnológica; mediante um cuidado planeamento e um rigoroso controlo de qualidade; este curso teve, apesar da sua novidade e das exigências associadas de uma proficiência tecnológica mínima e comprovada, uma enorme procura, que lhe permitiu uma proeza única na história do e-Learning português: a de atingir o break-even financeiro na sua primeira edição, com uma inscrição superior a 140 formandos que, além do mais, demonstraram ao longo dos 2,5 a 3 anos de duração uma resiliência superior à dos seus colegas que frequentavam cursos presenciais análogos. Também no setor privado têm surgido propostas extremamente interessantes designadamente no mundo dos LMS (Learning Management Systems), com relevo para iniciativas de formação contínua de médicos e do ensino do português, como segunda língua ou língua estrangeira, para os contingentes crescentes de interessados em aprender a falar e escrever corretamente o nosso idioma, mercê de uma posição privilegiada do português no âmbito das línguas que registam uma presença avançada na internet.

A European University Association apresentou em 2014 e 2015 duas avaliações sobre a aplicação do e-learning nas instituições europeias de ensino superior. No primeiro estudo, realizado durante 2013, responderam oito universidades portuguesas (num total de 249 europeias), enquanto no segundo estudo, realizado no ano seguinte, participaram 14 responsáveis de instituições do ensino superior nacional (de um total de 449 europeus). A aposta no blended learning passou de 91% em 2014 para 74% em 2015, e a existência de Massive Online Open Courses (MOOCs) de 12% para 23%. Acredita que este tipo de ferramenta contribui para a visibilidade, notoriedade e capacidade de atração das universidades?

O EaD tem conhecido as mais estonteantes diversificações. O b-Learning é apenas uma das suas manifestações, significando a mescla entre metodologias de ensino presencial e à distância. Faço notar, contudo, que proliferam hoje os prefixos tais como m-Learning (mobile learning), u-Learning (ubiquitous learning), n-Learning (new learning), etc. Independentemente da designação, parece evidente que a tendência será para a oferta maciça de cursos abertos (MOOC) e a combinação inteligente e sinérgica de metodologias diversas de abordagem de aprendizagens autónomas e investigativas por parte do aluno. Acho que a confrangedora e diminuta presença do português nos MOOC é altamente lesiva dos nossos interesses estratégicos de sustentação de uma língua de aprendizagem vitalícia, e de culturas a ela associadas, num mundo cada vez mais sequioso de diversidade e de fuga ao risco de uma única cultura universal, que denunciei em artigo público como sendo a do Homo Coca-Colensis. Dito isto, constato que os MOOC potenciaram a revolução do próprio ensino presencial nos EUA, obrigando as universidades tradicionais americanas a uma radical baixa de preços, e a uma reorganização total em torno de uma nova clientela em busca de vantagens comparativas do face-to-face em relação a um ensino de menor proximidade. Por outro lado, os MOOC, com a sua expansão acelerada no contexto anglo-saxónico (Udacity, edX, Coursera, entre outras ofertas integradas feitas a partir de grandes alianças universitárias) e a sua lenta progressão no contexto europeu (EMMA que surge como o único agregador com um mínimo de massa crítica), propenderão a ser uma ferramenta extraordinariamente potente para a democratização do acesso a formações avançadas num futuro próximo. Será necessário ainda definir um modelo de negócio para os MOOC, coisa que não se encontra ainda suficientemente amadurecida pelos parceiros internacionais mais empenhados. Mas, indubitavelmente, eles contêm uma força transformadora não desprezível na reforma de todo o ensino superior, que nos interessa acompanhar. Daí que incentive todos aqueles colegas que trabalham nestas áreas, e que se preocupam com a prospetiva do ensino superior, que frequentem alguns MOOC para deles beneficiarem em fase de ainda gratuitidade (á espera de um modelo de negócio que faça pagar essa formação, independentemente da obtenção de diploma) e para melhor saborearem uma experiência que é única no seu desenho e na interação que proporciona, mau grado a sua massificação. Dou como exemplo a inolvidável experiência pessoal de frequência de um MOOC durante 12 semanas, “Justice” (oferta edX, da Harvard University), no qual o seu principal mentor, o celebrado Professor Michael Sendell, acompanhado dos seus assistentes, se colocava à disposição, durante vários fins de semana consecutivos, através de tecnologias síncronas (skype, messenger ou chats), das muitas dezenas de milhares de formandos que o frequentavam, espalhados por todo o mundo, gerindo os mais diversos fusos horários. A possibilidade de ter assim “à mão” os melhores professores ou investigadores, em qualquer área do conhecimento, durante um MOOC, selecionado a partir do simples interesse do prospetivo formando de entre milhares de ofertas, representa uma grande diferença qualitativa relativamente ao e-Learning tradicional onde nem sempre os respetivos monitores eram recrutados de entre os melhores pedagogos ou comunicadores das universidades originárias dessa formação.

A mesma pesquisa, centralizada no ano de 2014, revelou que, globalmente, não existiam políticas públicas de e-learning, contudo 49% dos inquiridos afirmou implementar estratégias neste domínio, indicando que traz vantagens. Entre elas – a reforma dos métodos de ensino, a formação de um grande número de alunos, a monitorização do progresso dos estudos e a criação de agendas na aprendizagem dos alunos e a colaboração interativa entre estudantes. Concorda que estes são os benefícios mas significativos do e-learning para as instituições de ensino?

A acrescer à análise que já fiz sobre os benefícios do e-Learning, direi apenas que o pleno usufruto desses benefícios dependerá nuclearmente da configuração futura do web3.0 (web semântica, incorporante de folksonomias e de ontologias que, através de agentes inteligentes, garantirão o acesso customizado de cada formando às matérias e aos materiais que melhor se adequem aos seus interesses, abertamente e em regime de pay as you go, como uma nova espécie de utility) e da generalização de metodologias estatísticas que permitirão seguir personalizadamente cada aluno, independentemente do número astronómico de formandos que frequentará as formas globalmente melhoradas dos MOOC, ao longo do tempo. Refiro-me naturalmente a metodologias já correntemente utilizadas no mundo empresarial bem como nas ofertas maciças de MOOC quais sejam o big data, o data analytics, e o metadata mining.Captura de ecrã 2016-08-23, às 15.20.35

Temos que estar atentos às evoluções tecnológicas de ponta, e à sua importação para o desenho de serviços educacionais inovadores, designadamente no âmbito de domínios de ponta como os wearable technologies, as realidades virtuais aumentadas (augmented virtual realities), as 3D printing, ou as infinitas possibilidades que se nos abrem no quadro da IoT (Internet of Things) e, ainda, às novas fronteiras que se abrem no quadro das interseções/aplicações transdisciplinares tais como: biotecnologia, visão holográfica, novos materiais, robótica, drones, inteligência artificial, modelos avançados de transportes, saúde pública, serviços financeiros, etc.

No entanto, a maioria da oferta formativa disponibilizada funciona em regime de blended-learning e não confere grau académico. Porquê esta lacuna?

Isto não é verdade no que diz respeito aos MOOC, que permitem a acumulação de ECTS conducentes, por acumulação, à outorga de grau académico, opção que normalmente exige avaliação contínua e exame final mediante pagamento, ao contrário da mera frequência dos MOOC que é , normalmente autorizada em regime  livre e isenta de encargos para o aluno. Em Portugal, escasseiam, de facto, as ofertas de b-Learning conducentes a grau académico, desde logo pelo relativo imobilismo das instituições a quem compete certificar os graus (politécnicos e universidades), e ainda pela desconfiança persistente na sociedade portuguesa quanto à efetiva qualificação conferida pelas formas mistas de ensino presencial e EaD. Cito, a talhe de foice, a dificuldade que temos em encontrar junto do Conselho Científico Pedagógico da Formação Contínua de Professores o acolhimento à acreditação de ações de formação a distância dos professores dos ensinos básico e secundário que temos correntemente em oferta desde há mais de 15 anos.

Em março decorreu o II Seminário Internacional A Educação do Futuro Está Aqui!, promovido pela Fundação Manuel Leão. O projeto Sala do Futuro foi uma das iniciativas apresentadas, inserida na estratégia Ambientes Educativos Inovadores da Direção Geral de Educação. Acredita ser uma boa aposta?

Sim, tenho pessoalmente apostado em várias iniciativas semelhantes de escolas exemplificativas do ensino com um desenho mais próximo das potencialidades enormes oferecidas pelas novas tecnologias. Foi assim com as Escolas Navegadores em 1998, um vasto programa emblematicamente associado aos Oceanos e à Expo realizada em Lisboa nessa mesma data. Do mesmo passo, na década de 2010 e no âmbito do PT Escolas, lançámos um concurso anual das escolas do futuro, premiando anualmente a escola que melhor antecipasse um modelo futurista de escola, onde a tecnologia se torna invisível e a Paideia é a tónica dominante. Referirei também um programa que completou já 5 anos de sucesso, através do qual temos vindo a coordenar uma intensa ação de formação de lideranças inovadoras em estabelecimentos de ensino, numa parceria alargada Ministério da Educação, Microsoft e cerca de uma centena de empresas que aceitaram colaborar nesse processo, aproveitando, a um tempo, a aquisição de melhor conhecimento numa realidade social que lhes passava anteriormente despercebida e o acesso da gestão escolar a métodos e a processos que lhes são completamente alheios por relevarem até agora, exclusivamente, do setor privado. Por último, reporto a experiência de promoção de novos ecossistemas escolares (Edulabs), promovida pela e-XAMPLE, consórcio nacional, que reúne várias dezenas de empresas tecnológicas líderes no mercado  bem como de outras entidades empresariais colocadas na vanguarda da apropriação atempada dessas mesmas tecnologias.

Significa isto que acredito piamente nas virtudes da liderança e da aprendizagem organizacional com as boas práticas, algo que se vem chamando de benchlearning ou seja com a observação da excelência que outros, em idênticas condições de trabalho relativamente àquelas de que disponho, conseguem atingir.

O que mais pode ser feito em Portugal para a promoção de um sistema educativo mais aberto e assente nas potencialidades do e-learning? Será suficiente criar novas ferramentas para mudar as escolas, ou também será necessário incentivar os professores a mudar?

Os professores são e serão sempre a tecnologia educativa central. Por isso, nada de sustentável se poderá atingir sem a sua mobilização e motivação (recomendo, para a plena compreensão do peso deste fator, o acompanhamento do estudo estatístico que vem sendo feito há anos entre nós por um conjunto qualificado de investigadores nacionais, sob o impulso financeiro da Edulog). Os docentes são o gatekeeper ou o gateopener fundamental de todo e qualquer processo de inovação sustentável e duradoura. Daí resulta que eu continue a defender como prioritária a reformulação completa dos esquemas em vigor de formação inicial, e em serviço do corpo docente nacional, e a necessidade imperiosa de serem criados incentivos de apoio aos professores mais inovadores e abertos a uma evolução de processos pedagógicos generativos e criativos.

Olaf Zawacki-Richter e Som Naidu, no artigo Mapping research trends from 35 years of publications in Distance Education, publicado online a 14 junho 2016 pela European Association of Distance Teaching Universities (EADTU), assinalaram que, “com o novo milénio, a emergência da internet, da web e da computação móvel veio alterar dinâmicas que passaram a focar-se nas tecnologias de informação e comunicação, na colaboração e interação entre alunos e entre os alunos e os professores. Tecnologias que também trouxeram novas iniciativas – como os OERs (Open Education Resources) e os MOOC – capazes de revolucionar a oferta educativa e promover a EaD. E enquanto estas ferramentas evoluem, é evidente que as tecnologias educacionais online vão desempenhar um papel crítico na educação em geral e, especialmente, em relação a uma agenda de educação para todos. Isso significa que o futuro da EaD parece brilhante e promissor. Na verdade, nunca houve um momento melhor para estar no campo da educação aberta, flexível, a distância e online do que agora!” Concorda com esta visão otimista?

Acho correta a identificação descritiva da tendência, muito embora pense tratar-se de um cenário tendencial que não se encontra destituído de riscos. Veja-se, por exemplo, como os Recursos Educativos Abertos (OER) e os MOOC se vêm espalhando com enorme impacto em sociedades abertas à inovação e à experimentação de novos modelos de EAD. Mas atente-se igualmente na relativa inaptidão da maioria das nossas instituições de ensino superior – nacionais e europeias – a sequer equacionar as consequências que a expansão rápida desses poderosos instrumentos trarão ao seu modelo tradicional de negócios. O mundo da educação não poderá subsistir na base de uns poucos leaders rodeados de uma multidão de laggards. O serviço púbico da Educação é coisa demasiado séria e não se compadece com um sistema dual e fraturado que beneficia uns poucos, em detrimento de uma maioria alargada de instituições, e das correspondentes populações, que se encontram dominadas pelo síndroma do “stuckness” ou seja pela resistência, inata e atávica, à inovação. Impõe-se, em ordem a permitir um mais harmonioso desenvolvimento destas vertentes, que as instâncias públicas e comunitárias conjuguem esforços que permitam o surgimento de uma regulação mais efetiva e justa desses desenvolvimentos.

Está ligado ao programa europeu Iguana, ao Innovative Leaders Programme e ao 7 Mares & Pangea (estes últimos de âmbito nacional). Qual a importância de cada um deles para um ensino mais inovador e modernizado?

Faz-me o favor de citar alguns dos programas nacionais e internacionais a que me encontro ligado. O Iguana (http://www.iguana-project.eu) centra-se na aquisição de um novo leque de competências habitualmente negligenciadas, de natureza emocional e organizacional, por parte das lideranças escolares. O Programa Líderes Inovadores (https://sway.com/TP5yPWc0o3UFCcyL), a que já aludi brevemente, tem em vista o casamento entre tecnologias e métodos de gestão privada para revolucionar a mudança necessária nas escolas portuguesas. O portal 7 Mares & Pangea (http://www.academiapangea.com/) visa proporcionar à comunidade científica lusófona um espaço e um tempo de colaboração na realização de três objetivos fundamentais: (i) o desenvolvimento colaborativo de ações de empreendedorismo social, visando a convergência de um melhor conhecimento luso em favor das comunidades de língua portuguesa da CPLP mais carenciadas do quantum de saberes indispensáveis ao seu pleno desenvolvimento; (ii) o apoio a jovens estudantes que comunicam habitualmente em português e que revelam um grande potencial científico precoce, colocando-os em rede e em comunidade, sob o coaching ou mentoring de um académico de língua portuguesa, personalidade consagrada e internacionalmente referendada no mundo da ciência; (iii) o apoio às PME, habitualmente distanciadas dos benefícios da investigação, para inovarem com o acesso, anteriormente vedado por razões de carência manifesta de uma massa crítica liminar, a novo conhecimento gerado por investigadores que partilham a língua de Camões, um idioma que além do mais partilha um afeto comum.

Neste sentido, cada qual na sua esfera, estes três programas, de âmbito e alcance muito diversos, oscilando entre o europeu no caso do Iguana, ao nacional no caso dos Líderes Inovadores, e estendendo-se ao universal no caso do portal 7 Mares & Pangea, fornecerão uma contribuição muito importante para uma melhor consciencialização da língua portuguesa como fator de humanidade e de esperança num futuro de internet, inequivocamente marcado pela presença ativa e determinante da língua portuguesa (que atinge já os 132 milhões de internautas falantes de português, ou seja mais de 50% da população recenseada como lusa, http://www.internetworldstats.com/stats20.htm).  

Inovar é…

Romper com rotinas e com preconceitos que nos limitam na capacidade de sonhar futuros diferentes.

Virtudes de um professor

Ouvir, ouvir, ouvir, e … descobrir, descobrir, descobrir, …. no outro –  aluno, filho(a), pai ou mãe, colega – a razão última da sua missão.

Lema de vida

Fazer de cada momento uma oferenda ao sentido último que anima a essência, e a existência, de cada humano.

App favorita

Skype, WhatsApp, Facetime, Viber, Messenger, Twitter, ResearchGate, Academia.edu, e todas as demais apps e widgets que me permitem comunicar facilmente, sem custo, com filhos, netos, familiares, colegas e amigos espalhados pelos quatro cantos do mundo.

Hobbies

Ler, praticar desporto e buscar, com a ajuda dos meios ilimitados que hoje a internet nos faculta, o entendimento sábio de um mundo em constante e palpitante transformação.

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