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É preciso ter lata!

A indústria conserveira a favor da maré
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por Marisa Vitorino Figueiredo

Foi necessária muita lata e muita inovação. Tudo para que uma indústria de 150 anos desse a volta, se reinventasse e regressasse ao ringue. Que é como quem diz, ao prato de portugueses e estrangeiros. Falamos das conservas portuguesas que, ao longo da história, se mantiveram à tona, enfrentaram crises e são hoje um produto na moda, em qualquer casa ou restaurante gourmet.

Outrora considerada comida para pobres, a conserva de peixe alcançou um novo status nos últimos anos. Para reinventar a imagem histórica deste produto tradicional, as empresas mantiveram a qualidade associada à indústria conserveira portuguesa, apostaram no marketing e alargaram as opções da ementa: mais variedade de peixes, que partilham a lata com novos molhos.

O mercado conserveiro junta, atualmente, negócios de diferentes longevidades. Há empresas de família, que se mantêm em funcionamento há quase 100 anos, e lojas recentes que tentam capitalizar o sucesso das conservas. Como ponto em comum, uma tradição nacional que se enleia em inovação, tal como as malhas de uma rede de pesca.

Conserveira de Lisboa: a história das conservas nacionais passa por aqui

“Pode-se considerar que somos, um pouco, um museu vivo do que era o comércio em 1930”, ilustra Tiago Cabral Ferreira, um dos sócios da Conserveira de Lisboa. A história sente-se e respira-se a cada canto desta loja à antiga, com os longos balcões e estantes de madeira.

A funcionar desde 1930 – na altura sob o nome de Mercearia do Minho, que viria a ser mudado para Conserveira de Lisboa 12 anos depois – este espaço comercial ocupa um lugar nobre na cidade de Lisboa. Perante a concorrência, a Conserveira de Lisboa apresenta o trunfo da longevidade. “A nossa loja principal é uma loja que se mantêm praticamente inalterada desde o seu início. Torna-se diferenciador porque se sente o peso da história ao entrar no nosso espaço”, explica o sócio da empresa.

A opção de manter os traços antigos da loja granjeou à Conserveira de Lisboa o prémio Mercúrio, na categoria Lojas com História, atribuído pela Confederação do Comércio e Serviços de Portugal e pela Escola de Comércio de Lisboa. Além disso, o estabelecimento faz parte das 63 primeiras lojas do programa Lojas com História da Câmara Municipal de Lisboa.

Mas o que se pode encontrar, afinal, nas coloridas embalagens arrumadas ao longo das prateleiras da Conserveira de Lisboa? A maioria dos produtos comercializados são conservas de peixe, arrumados em três marcas próprias – Tricana, Prata do Mar e Minor, registadas formalmente nos anos 40. O design das embalagens é vintage, a combinar com a própria loja. Dentro das latas estão os mais variados peixes, conservados em diversos molhos. Da sardinha ao polvo, passando pela cavala, atum ou lulas, tudo depende da vontade do freguês.

Recentemente, e em parceria com a marca Saboreal, foram também lançadas as petiscadas de espadarte com grão e a de dourado com tomilho. Uma aposta na diversificação que a Conserveira de Lisboa pretende continuar, prometendo novidades nas receitas para 2018.

Tiago Cabral Ferreira mantém a postura que sempre persistiu aos balcões desta loja familiar: mais do que um produto gourmet, as conservas devem servir para todas as bocas. “Talvez um pouco em contra corrente, achamos que as conservas de peixe devem continuar a ser um produto de consumo de dia a dia, mesmo quando falamos de conservas de qualidade superior”, afirma. Por isso, acrescenta, tem sido feito “um esforço muito grande de suster, de certa forma, a escalada de preços que se tem verificado nos produtos” deste setor.

Briosa: da Figueira da Foz para o mundo

Nascida em 1991, a fábrica conserveira Briosa foi criada com os olhos postos além-fronteiras. A partir do porto da Figueira da Foz, a empresa aproveitou o fornecimento abundante de peixe para criar conservas que chegam aos quatro cantos do mundo. Hoje, os principais mercados são o Reino Unido, África do Sul, Canadá e Israel.

“A inovação num produto português tão tradicional nem sempre é fácil”, admite Ana Sousa, do Departamento de Marketing da Briosa. Mesmo assim, explica, a empresa “tem conseguido inovar quer através dos molhos, dos peixes e receitas utilizadas, quer através mesmo das formas de embalar, passando também pela forma de apresentação dos produtos”.

As latas da Briosa, que também apostam em embalagens nostálgicas de inspiração à antiga, podem ser encontradas em grandes multinacionais, pequenas lojas gourmet, restaurantes ou wines houses, por exemplo. Isto porque a fábrica vende exclusivamente a empresas e não ao cliente final, com a possibilidade até de desenvolver Private Labels para marcas específicas.

Quanto às especialidades da casa, o menu é variado. Desde as opções mais tradicionais, como a sardinha, o atum e a cavala, até sabores como os carapauzinhos, o peixe-agulha e o bacalhau em conserva. Para complementar o cardápio, a fábrica produz também uma seleção de patés. O investimento mais recente, destaca Ana Sousa, “é a marca Briosa Gourmet, lançada em 2014 e que tem sido um sucesso, tanto a nível nacional, como internacional”. Ao abrigo dessa chancela, a Briosa encontra-se a preparar novos produtos, já em fase final de produção.

Na perspetiva da empresa, “a conserva de pescado pode ser e é um produto premium/gourmet, quer em termos nutritivos – e de comida saudável, quer em termos desta nova onda de comida de chef”, vinca o responsável.

Apesar do foco na exportação, a empresa está também atenta ao mercado nacional, onde a alteração de hábitos de consumo se faz sentir: “é com agrado que verificamos que a forma de olhar para as conservas de pescado se alterou, não sendo mais um produto confinado apenas ao atum e sardinhas em óleo ou em tomate, principalmente em Portugal, que sempre foi um produtor de excelência e nem tanto um consumidor fidelizado”. Para 2017, a Briosa espera faturar, pelo menos, seis milhões de euros.

Loja das Conservas: com mais de 600 petiscos, o difícil é escolher

“A Loja das Conservas afirmou-se, desde o início, como a montra privilegiada da indústria conserveira portuguesa”, lembra Sara Costa, gestora do espaço comercial. Por “início”, a responsável refere-se a 2013, ano em que a loja abriu portas na Baixa lisboeta, através de uma iniciativa da ANICP – Associação Nacional dos Industriais de Conservas de Peixe.

O objetivo é claro: promover as marcas das fábricas de conserva portuguesas. “Comercializamos todas as conservas das fábricas conserveiras portuguesas e alguns produtos que as podem complementar, como é o caso do azeite ou dos vinhos e cervejas harmonizadas”, adianta Sara Costa. Ao todo, tal aposta traduz-se em mais de 600 referências de conservas, a partir dos portfólios de 19 fábricas nacionais.

Para guiar os clientes nacionais e internacionais neste corrupio de sabores, a Loja das Conservas tem o maior cuidado no atendimento. “O nosso atendimento pretende ser um fator diferenciador, uma vez que aconselhamos os nossos clientes numa venda assistida”, explica a gestora.

Com um volume de vendas esperado para este ano na ordem de um milhão de euros, a Loja tem conquistado atenções tanto de portugueses, como de estrangeiros que passeiam por Lisboa. Em dezembro, as visitas são sobretudo nacionais, com Sara Costa a frisar que “as conservas portuguesas se tornaram mais visíveis para os portugueses nos últimos anos”.

No resto do ano, assomam à porta da Loja das Conservas muitos franceses, mas também italianos, espanhóis e turistas de países nórdicos. Aqui procuram bem mais do que “a refeição de recurso da lata de atum perdida na despensa”, como lembra a responsável.

Diretamente para o prato ou como toque especial das mais distintas receitas, as conservas estão na crista da onda, confirmando uma indústria que soube fazer-se ao mar e fintar as partidas do tempo. Já escolheu a sua lata de hoje?

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