Sociedade

Pais do Século XXI

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Mudar fraldas, esterilizar biberons, preparar refeições já não são tarefas exclusivamente femininas. No século XXI, há cada vez mais homens a assumir o papel de pai a tempo inteiro. Os dados do Instituto Nacional de Estatística apontam que em Portugal, em 2010, cerca de 43 mil homens cuidavam dos filhos sozinhos. O Boas Notícias foi conhecer alguns casos e descobrir quem são estes “novos pais”.

por Ana Silva

São vários os casos de homens que cuidam dos filhos. Alguns assumem a tarefa sozinhos, devido a processos de divórcio, viuvez ou ainda, em menor percentagem, na sequência de processos de adoção de crianças. Outros, apesar de viverem com a sua companheira, assumem voluntariamente as principais tarefas na educação dos filhos.

Image and video hosting by TinyPic João Tavares, jornalista, pai de três filhos e autor do livro “Os homens precisam de mimo”, explica ao Boas Notícias que o homem do século XXI, que exerce o papel de pai, está “preocupado com outras atividades para além de estender os pés no sofá, ligar a televisão e pedir uma cerveja à mulher quando chega a casa”.

“É um pai que conhece o lugar dos tupperwares, que sabe quantas gavetas tem o congelador, onde se mete o amaciador na máquina de lavar, que se levanta à noite para dar o leite ao filho e que também tem de tirar cocó das unhas quando uma mudança de fralda não corre tão bem quanto gostaria”.

Este “pai moderno” acentua ainda que, nos dias de hoje, o progenitor faz cerca de 40 a 50 por cento das tarefas que as “mulheres faziam a 100% na década de 60”. Catarina Mexia, psicóloga e terapeuta familiar, confirma que “para além de manter o papel de provedor, o homem de hoje acrescentou o papel de cuidador e companheiro”.

A terapeuta considera que papel do pai tem vindo a alterar-se de forma apreciável nos últimos 20/25 anos. Com os tempos foi quase uma consequência, ou seja, a "moda" de participar na mudança das fraldas, ou dar banho aos filhos tornou-se em símbolo de uma participação ativa e empenhada na educação das crianças.

E, aparentemente, os homens assumiram esta tarefa com a competência necessária: “O homem que assume a parentalidade a tempo inteiro ou sozinho é tão competente quanto uma mãe e a motivação para o fazer tanto existe no homem como na mulher”. Catarina Mexia explica ainda que "ambos precisam de aprender competências básicas de parentalidade e na prática o que distingue um bom pai é a sua capacidade de estabelecer uma relação segura e emocionalmente gratificante com o seu filho".
 
Por outro lado, é fundamental que o adulto responsável pelas crianças tenha "capacidade de estabelecer regras e limites no que concerne à disciplina, tudo o resto pode ser aprendido, junto dos familiares próximos, dos amigos".
 
O pai adoptivo        
 

António Neves, 55 anos, bancário foi um dos primeiros homens a realizar a adoção singular há 13 anos. Este pai adoptou dois rapazes, um com 6 anos e mais tarde o segundo filho, com 4 anos. A ideia de ser pai para António tinha-se tornado difícil já que estava solteiro e vivia sozinho. Sempre gostou muito de crianças mas o convívio era com os sobrinhos ou os filhos dos amigos.

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A decisão de adoptar uma criança foi ponderada, embora tenha surgido de um acaso. António conta que "um dia estava a jantar em casa e teve conhecimento que a lei de adoção tinha sido alterada e abria a possibilidade à adoção singular de crianças". Até essa altura só era possível a adoção por casais.

Após ter tido acesso à informação, pensou que seria algo a considerar mais tarde, mas “a ideia não lhe saía da cabeça”. Tentou visualizar como seria o seu “dia-a-dia com um filho” e foi “imediatamente absorvido” pela ideia. Depois surgiram as dúvidas: se seria ou não capaz, as birras, as doenças… Mas acreditou que “tudo valia a pena”.

Em Junho de 1998 iImage and video hosting by TinyPicnscreveu-se na Segurança Social e um ano depois adoptou o seu primeiro filho: um menino com seis anos de idade. Percebeu de imediato que “tinha sido a mais radical, mas a melhor alteração” da sua vida.

Logo no primeiro dia, após a primeira refeição em conjunto, António viveu um dos momentos mais comoventes por que passou, quando o filho lhe disse que o aceitava como pai. “É muito importante que as crianças também nos adotem e eu tive a felicidade de ter sido adotado por ele quase de imediato. Mais tarde, depois de o deitar, sentei-me no sofá, respirei fundo e pensei – ‘o primeiro dia já está, agora falta o resto’… Já lá vão 13 anos”, recorda António.

Seis anos depois desta primeira adoção, António pensou que “ser filho único não seria o melhor ambiente de desenvolvimento”. Por isso candidatou-se novamente para a adopção. Uns meses depois recebeu em casa o seu segundo filho, na altura com 4 anos de idade. Concretizou também, assim, o sonho do seu primeiro filho de ter um irmão.

António diz que a relação com os seus dois filhos é igual à de tantos pais e defende que "mesmo com filhos biológicos, hoje em dia existe um maior envolvimento dos pais (homens) com os filhos, e uma partilha maior das tarefas parentais, do que há uns anos atrás".

Dentro da sua família confessa que há “uns dias muito bons, outros mais problemáticos mas faz parte da relação, do crescimento, do respeito mútuo. O mais velho já passou a adolescência, foi desafiante como é com quase todos os adolescentes. Uns dias zangamo-nos. Outros dias brincamos como crianças crescidas.”
 
Pai doméstico por opção

Para Carlos Rodrigues, 37 anos, pai de Beatriz, com quatro anos de idade, assumir a paternidade a tempo inteiro foi algo natural. Este pai, que se assume como doméstico e cuidador da filha, explica que quando ele e a mulher, Luísa, “planearam ter um filho, foi tudo pensado e ponderado”.

Luísa, também com 37 anos, é empresária e quando engravidou já tinha uma carreira profissional em progresso, ao contrário do marido. Este pai licenciou-se em Filosofia mas foi discojokey durante 10 anos e não estava nos seus planos dar aulas. Com a chegada da Beatriz, o casal estabeleceu que faria sentido a mãe dar continuidade à sua vida profissional e ser o pai a assumir as principais tarefas familiares. 

A Beatriz esteve com o pai até aos 3 anos de idade. Carlos não concebe a ideia de “os pais depositarem os filhos no colégio e não conviverem com eles, nem sequer ter a percepção qual a comida favorita ou qual a roupa que preferem”. “A criança nasce e cresce com os educadores do colégio”, sublinha.

O dia-a-dia de Carlos começa logo às 7h30 da manhã. Prepara a filha para ir para a escola e providencia as tarefas domésticas, e conta já com a ajuda da filha: “A Bia é muito independente, com 4 anos já escolhe a sua roupa e já se veste sozinha”.

Este pai considera-se um “doméstico”, apesar de trabalhar em part-time entre as 17h00 e as 22h00, na área dos estudos de mercado. Nessas horas, a Beatriz passa o tempo com a mãe ou com os avós maternos. Durante o fim de semana o casal pertence “inteiramente à Beatriz”.

Carlos e Luísa estão ambos presentes na educação da filha e encaixam perfeitamente naquilo em João Tavares defende. “Pais e mães desempenham muitas vezes aquilo que nos filmes de Hollywood dá pelo nome da dinâmica ‘god cop/bad cop’. Às vezes um distribui tabefes e o outro dá beijinhos, e depois invertem os papéis, e é deste cozinhado de exigência e ternura que saem filhos decentes (acredito – e espero – eu)”.

Pai solteiro “à força”

O caso de Alfredo Abrantes foi bem diferente dos perfis que o Boas Notícias apresentou até agora. Este pai, com 40 anos, especulador no mercado cambial e atualmente divorciado, decidiu casar, aos 23 anos, com Catarina, a sua namorada da adolescência. Três anos depois nasceu o Eduardo [estes três nomes são fictícios].

Após o nascimento do filho a vida familiar complicou-se. Catarina perdeu o pai que sofria de doença prolongada e ficou mais vulnerável e Alfredo tinha na altura três empregos. Em 2001, Alfredo chegou a casa e Catarina não estava, nem apareceu durante cinco meses. “Foi um papel que tive de assumir de imediato, passámos a ser nós a família: eu (o adulto) e o Eduardo (a criança)”.
 
Eduardo passou a primeira fase da sua vida, até à adolescência, com o pai. Este pai confessa que os primeiros momentos foram difíceis, mas depois pai e filho estabeleceram uma relação muito equilibrada entre ambos. A sua prioridade era estar presente como pai e providenciar tudo o que o filho necessitasse.

Vantagens e desafios

Em todos estes casos, as mudanças nas vidas destes homens foram significativas. Todos falam dos horários, da necessidade de preparar refeições mais equilibradas, arranjar a roupa e do fim das saídas à noite. No entanto, as recompensas são também muitas.

AntóniImage and video hosting by TinyPico Neves resume muito bem as vantagens de ser pai a tempo inteiro. “A melhor resposta não é da minha autoria, é de um outro pai, mas acho delirante – é que podemos os dois brincar à vontade, sujar à vontade e voltar a que horas nos apetecer que não há ninguém lá em casa para nos recriminar. Recebemos tudo a dobrar (o que pode parecer um pouco egoísta), mas é muito bom.”

António confessa que acima de tudo é necessário ter muito autocontrolo, porque existe um pequeno ser que depende apenas do adulto responsável, mas no fundo “é o que acontece com todos aqueles(as) que por divórcio ficam com os filhos a seu cargo”.

Este pai adotivo refere que “a vinda do filho foi como um bálsamo para o vazio que estava a viver”, ao mesmo tempo que se tornou num “desafio aliciante, quaisquer que fossem as circunstâncias, tinha que dar certo”. Toda a atenção e energia de António foram depositados na situação familiar e “apesar de todos os altos e baixos, valeu a pena”.

Para João Tavares, os desafios que o pai doméstico enfrenta são “sobretudo questões básicas de evolução e seleção natural, as mulheres estão muito mais à-vontade no habitat caseiro” do que o homem. “A minha excelentíssima esposa é infinitamente mais competente do que eu a desempenhar as tarefas domésticas, o resultado é eu andar o tempo todo a receber ordens e a tentar acompanhar o seu ritmo avassalador”.

Uma visão enriquecedora

Catarina Mexia deixa alguns conselhos para o pai solteiro/pai a tempo inteiro: “Ser pai é uma realidade que precisa de ser construída por si mesma, e não por oposição/parecença do papel da mãe”. Os estereótipos devem ser vencidos e, quando estes pais precisam de ajuda, devem pedi-la. “Da mesma forma que não se nasce ‘mãe’ também se aprende a ser ‘pai’”, salienta.
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Na perspectiva da psicóloga existem consequências enriquecedoras para as gerações futuras em termos da visão da paternidade. “A realidade em que os miúdos se habituaram a crescer é a efetiva igualdade de sexos, no que concerne à oportunidade de acesso aos filhos, à influência no seu crescimento emocional. A diversidade sempre foi valorizada pela natureza, quem somos nós para achar o contrário”.
 
Esta visão parece começar a ser partilhada por toda a sociedade. O velho preconceito de que “mudar as fraldas não é coisa de homem” já não encontra grande eco no mundo moderno. “Preconceitos desses já ninguém tem. Hoje em dia fica extremamente bem a um homem assumir essas coisas. É fofinho. E as mulheres adoram um bom pai de família”, garante João Tavares.

Também António Neves é da mesma opinião. Se inicialmente houve algum preconceito foi mais “da minha parte (…) achava que me pusesse a falar do assunto me começavam a olhar de lado. As coisas mudaram aos poucos e de repente houve uma grande evolução. Hoje, a maior parte dos meus amigos mais novos ajudam em casa  e falam das tarefas domésticas com toda a naturalidade”.

Hoje em dia, a noção de paternidade vai muito para além, por exemplo, da atribuição de uma semanada ou da verificação das notas escolares. A verdade é que o tempo passa rápido, os filhos crescem depressa, e os homens querem cada vez mais fazer parte desse processo único que é ajudar uma criança a tornar-se num adulto independente. ANA SILVA

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