Literatura

O tempo dos milagres: Amor e fantasmas “virtuais”

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Por Manuela Gonzaga

Image and video hosting by TinyPic No Natal de 2007, Luciana de olhos inchados de tanto chorar, decidiu não dar nem receber presentes de ninguém, e foi muito difícil conseguir convencê-la até a sair da cama e sentar-se à mesa da consoada, em casa dos pais com quem vivia ainda. O seu, dela, amor, estava a morrer. Algures, num hospital. Que lhe interessava tudo o mais? Ainda por cima, não podia estar junto dele, a segurar-lhe na mão e a partilhar esses últimos momentos. Tão pouco podia fechar os olhos e imaginá-lo. Luciana não conhecia pessoalmente o homem da sua vida.

 Ainda não havia Facebook mas já havia redes virtuais. Os dois tinham-se encontrado e enredado nas malhas do Hi5, seis meses antes e Luciana nunca amara assim. Lentamente, mentalmente, expondo sentimentos, confiando-lhe medos, desejos, obsessões, alegrias, triunfos, memórias da infância que recordava só para ele. Ele era mais lacónico, mas tinha uma qualidade que ela ainda não encontrara em homem nenhum. Ouvia-a, ou melhor, lia-a com uma atenção total. 

Escreviam-se o dia todo. Funcionária superior de um organismo do Estado, deixou muitos pareceres pendurados para se dedicar de corpo e alma àquela correspondência. A certa altura, só queria conhecê-lo. Tocar-lhe. Entregar-se-lhe de corpo, já que o resto – coração, alma, vísceras – lhe pertenciam por inteiro. Os namorados que tivera até então, e com quem ia para a cama ao segundo encontro, quando não antes, nunca lhe tinham despertado tamanho afecto. 

Ele adiava. E adiava. E adiava. 

Largou a primeira bomba em meados de Setembro. Estava muito doente. Queria curar-se primeiro. Não suportava a ideia de que ela o visse naquele estado. Ela queria lá saber!, mas aceitou, que remédio.

Em Outubro, o estado de saúde dele tinha-se agravado. Em Novembro, perdera a esperança. E nas vésperas de Natal, pediu-lhe para o esquecer, seguir a sua vida e ser feliz porque ele tinha Sida. 

Luciana nunca desistiu. O seu desespero era tão grande, que o homem da sua vida, felizmente um pouco melhor, concordou num encontro que veio a concretizar-se numa sexta-feira à tarde, em meados Fevereiro de 2008, no Portinho da Arrábida. 

 Quando Luciana chegou, ele já lá estava. Irradiava saúde, o que era natural, porque nunca estivera doente. Aliás, o homem da vida de Luciana, era uma mulher. 

Ela quase que lhe bateu de tanta raiva e frustração. Mas não conseguiu arrancar o sentimento do peito. «Eu amo aquele gajo que é gaja» – confessou à sua maior amiga. Assim, o namoro prosseguiu pelo mundo virtual. Com altos e baixos e muitas recriminações. No Verão decidiram finalmente dar uma oportunidade aos sentimentos e foram para Ibiza, ver como corria. 

Correu tão bem que ainda estão juntas. A família de Luciana está radiante e adora-a. Afinal, foi aquela amiga maravilhosa que tirou a filha da depressão em que estivera por causa de um homem horrível! Aceitaram-na de braços abertos. 

Como é óbvio, ainda não perceberam nada. 

[Manuela Gonzaga é escritora. Licenciada e mestre em História pela Universidade Nova de Lisboa, membro do Centro de História de Além-Mar (CHAM) da UNL, publicou, entre outros, a biografia de António Variações e a de Maria Adelaide Coelho da Cunha, e uma coleção juvenil, “O Mundo de André” com a chancela do Plano Nacional de Leitura que já vai no 3º titulo. Visite o blog de Manuela Gonzaga em http://www.gonzagamanuela.blogspot.com/]

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