Literatura

O Tempo dos Milagres: A parábola das duas águias

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Por Manuela Gonzaga  
  
Image and video hosting by TinyPicEu não a via há dois meses, mas a diferença era abissal. Os seus belíssimos olhos, da última vez tão tristes, agora brilhavam de alegria. Não havia sinais de luto, marcas de desânimo, sombras no rosto claro da minha amiga tão querida que enfrentara o fim de uma história de amor para sempre, que durava há vários anos. Decisão muito pensada e tomada a dois: os sonhos de cada um deles divergiam num pormenor tido por fulcral na relação.

Com o maior desgosto, disseram adeus. Por fim, ela embrenhara-se por campos e aldeias até chegar ao lugar quase sem nome onde aquela mulher sábia a recebeu sem perguntas, destinando-lhe, junto da floresta e ainda mais longe das pessoas, uma tenda com um conforto espartano.

Ela chorou durante três dias. Chorou a regar as plantas da horta, as árvores, as flores, a relva. Abraçava-se às árvores e regava-lhes o tronco com o seu desgosto. Chorou tanto que tinha a sensação de empapar a terra com o seu pranto inextinguível. A mulher sábia passava por ela, tocava-lhe no ombro e dizia apenas: «muito bem, muito bem.»

Ao terceiro dia, a mulher sábia parou junto dela, e disse:
– Vou contar-te uma história.
Sentaram-se as duas no chão, estava um dia delicioso, e ela falou-lhe nos enamorados que pediram a Deus que os mantivessem juntos para sempre. Deus disse: «não é fácil, mas pode fazer-se.» E mandou-os subir à montanha muito escarpada que estava em frente, e apanhar duas águias que lhe deviam trazer.
– Imaginas o difícil que foi? – perguntou a mulher sábia à minha amiga em prantos. E continuou. Obtidas as águias com risco de vida e muito sofrimento, os enamorados apresentaram-se perante Deus e entregaram-lhas.
– Agora preciso de uma corda bem forte para as amarrar uma à outra – disse Deus.
E assim se fez.
Foi uma tragédia. As águias viraram-se imediatamente uma contra a outra atacando-se furiosamente. Em breve, escorria sangue entre as penas das magníficas aves e Deus disse aos enamorados:
– Temos aqui um grande problema. Se não se fizer nada, estas águias matam-se – disse Deus.
Eles concordaram. E as cordas que prendiam as duas águias foram cortadas.
– Queres saber o que aconteceu a seguir? – perguntou a mulher sábia à minha amiga, que, entretanto, se tinha esquecido de chorar.
– O quê?
– Num ápice, as águias levantaram voo. Livres e juntas. E desapareceram a voar. Sempre juntas. Sempre livres.

De súbito ela percebeu tudo e começou a rir. Agarrou no telefone, e ligou ao seu amor e disse-lhe que estava tudo bem, porque a certeza de que o amava e a certeza de ser amada por ele, eram tão consoladoras que nada podia correr mal. Iam amar-se para sempre, mesmo que os seus caminhos nunca mais se encontrassem. E isso bastava-lhe na claridade de um entendimento que ia muito para lá do que as palavras podem definir. Do outro lado, ele estremeceu. Tinham passado muitos dias, e ele começava a sentir o peso intolerável da ausência dela. Quando ela voltou, ele estava à sua espera. Incondicionalmente. O projecto que tanto defendera, e que ela não subscrevia, perdera todo o sentido face à dor de a perder.

– E agora? – perguntei.
– Não sei. Ainda estamos em casas separadas, para eu me enraizar e consolidar o meu centro. Mas venha o que vier, será bom. Não me preocupa nada saber o que será ou como será.

[Manuela Gonzaga é escritora. Mestre em História pela Universidade Nova de Lisboa, publicou, entre outros, a biografia de António Variações, a de Maria Adelaide Coelho da Cunha, e uma coleção juvenil, “O Mundo de André”, com a chancela do Plano Nacional de Leitura que já vai no 3º titulo. Visite o blog de Manuela Gonzaga em http://www.gonzagamanuela.blogspot.com/]
 
Nota: Manuela Gonzaga escreve de acordo com a antiga grafia.

 

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