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O sonho americano de uma chef portuguesa

Aos 49 anos Luísa Fernandes tinha um sonho por conquistar. Com uma paixão e um talento autêntico pela gastronomia, comprovados pelos restaurantes que abriu e onde trabalhou em Lisboa, lançou-se em 2003 à aventura com uma só certeza: era em Nova Iorqu
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Aos 49 anos Luísa Fernandes tinha um sonho por conquistar. Com uma paixão e um talento autêntico pela gastronomia, comprovados pelos restaurantes que abriu e onde trabalhou em Lisboa, lançou-se em 2003 à aventura com uma só certeza: era em Nova Iorque, EUA, que o futuro lhe ia voltar a sorrir.

Depois de 30 anos como enfermeira e paraquedista em cenários complicados como o Sudão ou Ruanda, e já com os dois filhos criados era altura de ganhar coragem e alento para uma nova vida. Foi assim que decidiu partir em busca do “american dream”, que desde há muito tempo palpitava na sua mente.

A consagração do êxito da chef Maria Luísa, agora com 55 anos, natural de Leiria, que se orgulha em dar a conhecer as iguarias lusas além-mar, acontece quando é seleccionada entre mais de 2 mil candidatas para o programa da televisão norte-americano “Chopped”, semelhante ao “Top Chef” que passa na televisão em Portugal.

A receita de Mariscada foi uma das receitas chave para entrar no programa da Food Network. Em cada episódio de “Chopped” eram lançados desafios para a confecção de três refeições a partir de ingredientes surpresa. Luísa Fernandes aguentou a pressão na disputa entre os quatro chefs que entravam nesse episódio. Cativou o júri, suplantou os outros concorrentes e ganhou o título de Chopped Chef, o reconhecimento e um prémio em dinheiro. “Hoje fiquei com uma certeza, a idade é só um número”, confessou emocionada quando ouviu o seu nome como vencedora.

Das memórias de infância na aldeia da avó materna Maria Gil, que lhe formaram o prazer e a arte pela cozinha tradicional, ao pico da consagração junto do público norte-americano, Maria Luísa Fernandes fala ao Boa Noticias sobre como conquistou os EUA à sua maneira e sobre os planos para o futuro.

Aproveitamos também para anunciar que a partir do dia 18 de junho, o Boas Notícias vai contar, mensalmente, com uma receita exclusiva da Chef Luísa.





Ir para Nova Iorque perseguir o seu sonho e iniciar uma nova carreira profissional como Chef de cozinha aos 49 anos foi preciso coragem?

É sempre preciso ter coragem para dizer “Eu vou!” E Nova Iorque era um sonho que a minha mente perseguia desde há muito e decidi vir sozinha a falar um inglês que quase não era. Vim para casa de um casal conhecidos de uma minha amiga e que hoje são os meus melhores amigos aqui. Pensei: “se arranjar trabalho para me manter aqui fico, se não são umas férias!”. Ao fim de 6 dias estava a trabalhar como ´pastry chef` (chef de pastelaria) num restaurante português que hoje já não existe, “o Alfama”! Mas, confesso que foi preciso coragem. Quando aqui cheguei assustei me um pouco com a imensidão da cidade mas sempre pensei “Eu sou capaz!”.

Vencer o Chopped impulsionou a sua carreira aí em Nova Iorque?

Sim, vencer o ´Chopped Chef´ na cadeia de televisão ´Food Network´ é sempre um reconhecimento. No circuito profissional serei sempre, e no meu currículo estará sempre: ´Chopped Champion Chef´! Não é fácil uma chef europeia e não jovem caminhar junto dos grandes chefs americanos! E hoje o meu nome é reconhecido no circuito dos grandes chefs em Nova Iorque.

E como foi lidar com o reconhecimento do público?

O reconhecimento público foi muito engraçado. Muitas vezes no metro pediam me autógrafos. No restaurante as pessoas passavam só para me ver. Cheguei a entrar numa loja para comprar um presente para a minha neta Matilde e não me deixaram pagar! Como o meu programa repete muitas vezes, depois no dia seguinte à repetição repete-se a mesma história, é muito engraçado.

Como é que surgiu a oportunidade de participar no ´Chopped`?

Fui convidada para ir a um casting por um cliente que adorava o meu menu de ´brunch´. Um dia pediu para falar com a Chef e deu me um formulário para eu preencher e ir aos castings do “Chopped”! Disse que gostaria de me ver lá, mas que eu teria que fazer os castings e esperar para ser escolhida ou não! E assim lá foi a “portuguesa velhinha” que ficou nas 16 escolhidas entre 2006 Chefs mulheres!

Além da cozinha portuguesa que outras influências e em que é que se inspira para cozinhar e inventar novos pratos?

A nossa cozinha é a minha principal fonte de inspiração! Depois o que faço é adaptar ao gosto americano. Na “tradução” ganha logo outra roupagem! Nas sobremesas também adapto as apresentações com um design diferente! Depois a influência vem também com os produtos sazonais, as compras de vegetais frutos e legumes nos ´farmers markets´ que há pela cidade geralmente às quartas-feiras.
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Qual é a perceção que os norte-americanos têm da cozinha portuguesa? Com a participação no Chopped pôde dar uma visibilidade extraordinária à gastronomia portuguesa, acha que chamou mais a atenção dos norte-americanos e que os surpreendeu?

Acho que sim, que surpreendeu os telespetadores do programa! Fiz um prato muito inspirado na nossa cozinha e isso chamou a atenção! Sozinha tenho também feito muito trabalho para divulgar a nossa cozinha! Cozinho pratos verdadeiramente portugueses e vou oferecê-los aos grandes Chefes de cozinha da cidade para lhes mostrar a nossa comida! Na minha última ação do género assei um leitão, fiz dobrada e pudim de claras com doce de ovos e fui oferecer ao restaurante da chef Alex Guarmacheli! Ela adorou e ficou muito emocionada.

Qual é a memória culinária mais antiga, da sua infância? Algum momento especial que nutra com carinho até hoje e a tenha influenciado no gosto pela cozinha?

As memórias mais antigas vêm da minha avó Maria Gil, da aldeia. Lembro-me de nas matanças do porco ver toda a gente a cozinhar a fazer os enchidos e pensar que eu também queria fazer. Foi com ela, com a minha avó materna que aprendi a fazer os enchidos que ainda hoje e mesmo aqui em Nova Iorque faço! Fiz os últimos há um mês para o senhor Embaixador português em Washington e mandei-os por correio, por Fedex! Sabe que aqui há de tudo, desde a tripa ao sangue para fazer os enchidos. Há tudo!

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Tem família em Portugal? Como é que acolheram esta mudança de vida da Luísa?

Sim, tenho a minha família em Portugal! Os meus pais, os meus irmãos, sobrinhos, a minha filha Maria Júlia e o marido, a minha neta Matilde. Também a minha neta Sara que às vezes me vem visitar porque é a mais velha! Tenho ainda o meu filho António mas está a viver na Austrália! Tenho saudades mas esta cidade é a minha paixão também!

Qual é a sua melhor qualidade enquanto Chef? O que é que acha que a distinguiu dos outros concorrentes no Chopped, por exemplo?

Acho que a minha melhor qualidade como Chef é a minha paixão pela cozinha e a minha paixão pelo trabalho! A criatividade e o meu senso de humor também ajudam.

Tem saudades de Portugal? Pensa voltar?

Tenho saudades, claro! Penso voltar daqui a uns anos e abrir um restaurante portugueses com traços do sonho americano.

Que projetos tem para agora para o futuro a nível profissional?

Já comecei a estruturar o meu livro de receitas tipicamente portuguesas e convidei seis grandes Chefs de Nova Iorque para fazerem a interpretação dessas mesmas receitas! Agora só falta arranjar uma editora aí em Portugal! Mas sei que vou conseguir. “I hope!”

[A entrevista foi concedida via email]

Ana Margarida Pereira

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