Ciência

O Silêncio Prodigioso da Gestação [Crónica]

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[Imagem © Miguel Castro]

[António Piedade é Comunicador de Ciência e Investigador do Centro de Física Computacional da Universidade de Coimbra e publica quinzenalmente uma crónica no Boas Noticias]

Leonor contempla curiosa a superfície do lago. Com a atmosfera tranquila, nenhuma brisa perturba a lisura aquática. Mas, aqui e acolá, pequenos círculos de ondas pequeninas surgem de um centro de vida. São peixinhos que vêm à superfície comer algum inseto, mudar de ares.

Atraída por um cardume do que pareciam ser peixinhos muito pequeninos, aproxima-se da margem e debruça-se para ver para além da sua imagem reflectida na interface da água com o ar. Afinal, são girinos em metamorfose com desejos de serem rãs adultas.

Leonor foca a sua concentração visual e conseguiu descortinar umas larvas ainda mais pequeninas, promessas de girinos ainda em desenvolvimento embrionário. Mal se vêm de tão pequenos que são. Mas em alguns dias, ficarão tão grandes como os girinos que viu primeiro e estes, por sua vez, já serão então quase rãs bebés.

Em sintonia com as diferentes fases do desenvolvimento, Leonor pensa que poderia ver embriões ainda mais pequeninos se tivesse uma lupa ou até um microscópio vulgar.

Talvez então conseguisse visualizar as primeiras fases do desenvolvimento embrionário, quando o ovo fecundado se começa a dividir, primeiro em duas células iguais, que por sua vez se dividem cada uma em outras duas também iguais, e assim sucessivamente até ao estado de desenvolvimento designado por mórula, palavra latina para amora, por o aglomerado de células ter de facto o aspecto desse fruto silvestre.

Olha a superfície do lago e pensa nele como se fosse um grande espaço amniótico no qual todos aqueles seres se desenvolvem desde uma única célula até a complexidade do organismo multicelular, diferenciado e adulto. Ouve-se algures um coaxar. Seria esse o primeiro som de uma rã bebé? E os embriões e os girinos? Comunicariam eles de alguma forma uns com os outros?

Um aroma materno desperta-lhe a atenção para a chegada de sua mãe Isabel. “Minha mãe”, diz Leonor, “Qual foi a primeira palavra que eu te disse?” “Creio que foi mamã”, responde sua mãe afagando os longos cabelos de Leonor. “Mas antes desse “mamã”, eu comunicava contigo?”, perguntou de novo Leonor. “Sim, por sons e choros diferentes consoante as tuas necessidades”, explica a mãe.

“Quer dizer que esses sons foram as minhas primeiras mensagens para ti, os meus primeiros pedidos, os recados das minhas necessidades?”, insiste Leonor. “Bem vistas as coisas,” começa Isabel, introspectiva e com o olhar ternamente deitado sobre o lago, “tu, ou melhor, as primeiras células que te deram origem.sim, foram delas as tuas primeiras mensagens para mim!” “Como assim?”, questiona Leonor intrigada.

“Cerca de três a quatro dias depois de um óvulo meu ter sido fecundado por um espermatozóide do teu pai, numa das minhas trompas de Falópio, tu eras então uma pequena amora de células rodeada por uma camada de glicoproteínas (zona pelúcida) e por uma última camada de células foliculares. Na alvorada do quarto dia, chegaste ao interior do meu útero e na partitura do teu desenvolvimento já estavas no estado de blástula, com mais de 64 células.

“Algumas destas células”, continua a mãe, “formam uma camada externa, o trofoblasto, que delimita uma cavidade central, o blastocélio, um lago interior onde se encontra, num pólo, um conjunto de células designadas por botão embrionário ou embrioblasto. Este deu origem ao teu embrião propriamente dito. A camada externa foi a tua contribuição para a placenta. É nesta etapa, quatro a cinco dias depois da ovulação que contribuiu para a tua concepção, que tu, então pequeno blastocisto, com cerca de 0,15 mm, comunicaste comigo pela primeira vez.”

“Mas como, se ainda não tinha boca, nem braços?!”, exclama Leonor. “Através de uma mensagem inclusa numa molécula,” sussurra-lhe Isabel, “uma hormona conhecida por gonadotrofina coriônica humana, ou simplesmente hCG. Esta hormona, uma glicoproteína próxima das da zona pelúcida, é produzida e secretada para os meus líquidos maternais, pelas células do teu trofoblasto, que deram origem às células trofoblásticas sinciciais da tua placenta.”

“Assim, quando eras não mais do que um blastocisto com duas décimas de milímetro de comprimento, irradiaste uma mensagem, transportada pela hCG, para que o corpo lúteo, nos meus ovários, continuasse a produzir e segregar outra hormona, a progesterona, esta muito importante para o desenvolvimento uterino.”

“E essa mensagem estava cheia de uma boa nova maravilhosa: a de que tu tinhas sido concebida e que por isso era importante que o meu útero, mais precisamente o meu revestimento uterino, ou endométrio, se continuasse a espessar e a irrigar de vasos sanguíneos para estar preparado para te receber e aninhar.”

“Cerca de nove dias após a tua fertilização, já estavas implantada e rodeada na parede do meu útero, pronta para continuares o complexo processo de desenvolvimento embrionário que te deu estas formas tão suaves e harmoniosas. “

“Estou fascinada!”, suspira a filha Leonor, “Tão pequenina e já comunicava contigo para que soubesses das minhas necessidades”. “É verdade”, diz a mãe com o olhar profundo.

“E, sabes, foi também pelo do aumento dos níveis de hCG, o teu apelo incessante, no meu sangue e logo na minha urina, que tive a certeza que estava grávida de ti. É que o teste de gravidez que então fiz para confirmar a suspeita intuitiva, eco de que algo de maravilhoso estava a acontecer dentro do meu corpo, esse teste, que comprei numa farmácia, não fez mais do que detectar a presença da tua mensagem, na forma de hCG na minha urina.”

“Vi então a cor do teu silêncio, que afinal ressoava no meu ventre, pronto para muitas e novas mensagens futuras.”

De mãos dadas sentadas na margem do lago, Leonor e sua mãe Isabel estão contemplativas, num silêncio prodigioso.

António Piedade

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