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Nuno, de miúdo problemático do Cerco do Porto, a professor dedicado

O projeto dos "superpoderes" do MT assenta num princípio básico de valorizar o que cada um faz de melhor, tornando-o uma melhor pessoa a fim de que, mais tarde, possa retribuir o que ganhou e aprendeu à comunidade onde está inserido.
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Nuno Oliveira tinha 16 anos quando conheceu o Movimento Transformers (MT), projeto que diz lhe salvou a vida no bairro do Cerco do Porto, onde mora e onde hoje ensina outras crianças problemáticas a ter um futuro.

Há sete anos, contou Nuno à Lusa, “era um miúdo problemático” que “não respeitava ninguém” e que “fazia muitas asneiras”, devido a “certas companhias que tinha”.

Decidiu entrar no projeto quando estava na Escola do Cerco do Porto, com os mentores Alice Silva e Daniel Ramos a trabalharem as suas mais-valias, esforço que hoje Nuno reconhece o fizeram “crescer” e a sentir-se “mais seguro nas ruas, a respeitar os outros, os mais novos e os mais velhos”.

“Sem dúvida que o MT salvou-me a vida. Tenho hoje a autoconfiança que antes não existia. Se não tivesse tomado aquela decisão, hoje estaria no chão a consumir droga”, admitiu o jovem que hoje procura trabalho, depois de já ter tido um primeiro emprego como segurança.

A retribuição, ou o “payback” como designa oficialmente o MT a missão de devolver o que se aprendeu, Nuno presta-a no bairro duas vezes por semana, nas aulas de kickboxing que partilha com a mentora Alice e que envolve três turmas e cerca de 30 alunos do bairro.

Com o 12.º ano concluído e um curso na área da hotelaria, de empregado de mesa, aos 23 anos Nuno quer “manter-se no voluntariado e tirar mais cursos para alargar os horizontes profissionais”.

Responsável, no terreno, pela transformação do Nuno Oliveira, a mentora Alice Silva foi também ela escolhida pelo seu “superpoder” iniciando em 2013 o projeto no bairro onde começou a trabalhar com jovens com idades entre os 13 e 16 anos.

“O Nuno revelou-se muito dedicado, interiorizando muito bem a filosofia dos Transformers, do voluntariado, de ser sempre proativo e de que apesar de todas as dificuldades que tem, desde logo a sua situação socioeconómica, e de ser um miúdo do bairro, sempre teve um grande carisma e estava sempre pronto para ajudar no projeto”, contou à Lusa a mentora.

E acrescentou: “isto permitiu-lhe também crescer como pessoa, tirou o curso que queria tirar, está no mercado de trabalho e revela muito caráter, sendo hoje um homem de família”, congratulou-se Alice Silva.

A vice-presidente do MT Inês Alexandre explicou que aquele movimento nacional de voluntariado “trabalha aquilo que as pessoas mais gostam de fazer”, estando em “22 cidades e mobilizando mais de 300 jovens por ano”.

O MT tem atualmente uma parceria com a Área Metropolitana do Porto (AMP) “num programa de inovação para a educação que se chama ‘Programa Trilhos’ para combater o abandono e insucesso escolar”, disse a responsável.

“Temos uma atividade por escola em cada município da AMP, desde o surf ao remo, do kickboxing ao hóquei em patins, patinagem, empreendedorismo, escrita criativa, robótica, trabalhando com estas atividades a motivação dos miúdos para o processo de ensino”.

E num bairro em que o MT deposita muita confiança, num momento em que se prepara para crescer para sul, relatou Inês Alexandre ser na dificuldade em “desmistificar” junto das famílias “como é que retirando os miúdos da sala de aula se consegue combater o insucesso escolar” que reside o “maior obstáculo” do projeto.

“As famílias não entendem que ao retirar as crianças do ensino normal, estamos a motivá-las para um ensino paralelo e a dar-lhes outras competências e recursos”, lamentou.

 

Lusa

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