Literatura

Livro: Nos bastidores da violência doméstica

Em Abril de 2014, num pequeno lugar do Douro Vinhateiro, um homem, conhecido como 'Palito', matou a tiro a mãe e a tia da ex-mulher. O crime alimentou machetes dias a fio, os bastidores deste policial só agora são revelados, num novo livro do jornali
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Em Abril do ano passado, num pequeno lugar do Douro Vinhateiro, um homem, conhecido como ‘Palito’, matou a tiro a mãe e a tia da ex-mulher. O crime alimentou as machetes dos jornais dias a fio mas os bastidores deste violento policial só agora são revelados, num novo livro do jornalista João Bonifácio.

por Patrícia Maia

 
Nesse dia, Manuel Baltazar, 61 anos, residente em Trevões, viajou pelas estradas estreitas da serra até chegar a Valongo dos Azeites onde matou duas mulheres – Elisa Barros (a tia da ex-mulher) e Maria Lina (mãe) – a tiro, ferindo ainda a ex-mulher Maria Angelina e a filha de ambos.
 
Pouca gente saberá o nome destas mulheres assassinadas à queima-roupa ou de Maria Angelina que, devido aos ferimentos, nunca mais poderá trabalhar. Mas Palito alcançou fama nacional. Aliás, à chegada ao tribunal, o assassino foi mesmo aplaudido por uma multidão.
 
Na apresentação do seu novo livro, “Daqui não sais viva”, quinta-feira passada, em Lisboa, o autor admitiu que este tipo de homicídio não é “um caso excecional”: esta violência ‘doméstica’ mata 50 mulheres por ano, mortes que perpassam todas as classes sociais, tanto no campo como na cidade.
 
Mas em Trevões e Valongo dos Azeites os contornos tornam-se mais sórdidos já que este homicida passou 34 dias a monte, protegido por gente da terra. “Nos jornais surgia uma sucessão de notícias rocambolescas, sobre Palito e as suas motivações mas ninguém falava da Maria Angelina”, lembra o jornalista.

“Uma parede de silêncio”
 
“A minha premissa era descobrir de onde veio este homicídio porque suspeitava que o Palito já sujeitava a mulher e a família a esta violência há muito tempo e as notícias não falavam daquilo que a ex-mulher Maria Angelina teria passado”.
 
Apesar da violência doméstica ser um crime público. Apesar de Maria Angelina ter denunciado o caso e de o tribunal ter proibido Palito de se aproximar da ex-mulher, em Trevões, a violência doméstica era um assunto tabu.

O jornalista (na foto) encontrou “uma parede de silêncio que esclarece a forma como estas mulheres estão isoladas”. A trama silenciosa e cúmplice que levou a estes homicídios, está agora exposta nas página do livro “Daqui não sais viva”. 

 
25 anos de violência doméstica 
 
“Oiço muitas vezes pessoas inteligentes dizerem: ‘mas se ela estava a levar porrada porque é que não saía de casa?’ Dizem isto como se a culpa fosse das mulheres, como quem diz ‘pôs-se a jeito’”, criticou João Bonifácio.  
 
“Temos de acabar com este discurso. Isto não acontece do dia para a noite. É um processo lento em que o abusador começa por humilhar verbalmente a mulher, a fazê-la sentir-se inútil, a fazê-la sentir-se culpabilizada. Quando a violência começa já este processo está encaminhado e a autoestima está destruída”, acrescentou o autor.  
 
Mas neste caso, a situação ainda vai mais longe porque a Maria Angelina teve coragem de sair de casa, divorciou-se, com o apoio da mãe e da tia, e mesmo assim o ex-marido continuou a persegui-la. Até mesmo nos esconderijos da APAV. Era uma situação de obsessão”, denuncia João Bonifácio.  
 
Nessa pequena terra com 200 habitantes, João Bonifácio desenterrou 25 anos de violência doméstica que sufocaram a família de Maria Angelina.

“Quando alguém cresce a ser violentado neste código silencioso, o divórcio é uma opção difícil”, garante. Foi contra esta culpa injusta, esta vergonha que embota estas mulheres “ao ponto de sentirem que não tem escapatória” que João Bonifácio escreveu este livro com selo do Clube do Livro SIC.  

Violência de Trevões “está em todo o lado”
 

Fernanda Câncio foi uma das convidadas na apresentação. A jornalista lembrou que João Bonifácio fez esta investigação, de forma independente, porque “percebeu que havia muito mais por detrás dos 'fait divers' que as manchetes imediatistas publicavam. Mesmo sem ter um jornal por detrás decidiu avançar, suportando todas as despesas sozinho”.
 
“Ali João Bonifácio procura (e encontra) um crime maior: o da violência persistente, calada, habitual. Esta violência não é de Trevões é a violência de todo o lado, é a violência que faz com que, perante este crime, ninguém quisesse saber o nome destas mulheres: Maria Angelina, Maria Lina e Elisa Barros”.
 
A jornalista lembrou que “esta vitimização é global” recordando um encontro recente que teve com adolescentes lisboetas no Liceu Camões, a propósito do Dia Internacional da Mulher. “Uma das alunas disse que desenvolveu uma maneira defensiva de andar metro porque se sente mal, fraca e com medo quando anda nos transportes públicos”, contou.
 
“Uma obra visceral” 
 

Pedro Marques Lopes, do Diário de Notícias, foi outro dos convidados. O cronista, que acompanhou de perto a redação do livro, afirma que esta é uma obra “visceral, que mistura o género literário e a reportagem pura e dura como acontece com obra de Tom Wolfe ou Truman Capote”.  
 
“É um magnífico livro de um grande escritor de quem ainda vamos ouvir falar muito”, garantiu, acrescentando que este é um “livro e sobre o caso Palito mas no fundo é uma estória sobre a comunidade, sobre os portugueses, sobre uma mentalidade que continua a aceitar estes crimes de uma forma quase banal”.
 

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