Literatura

Lídia Jorge: Negar a literatura é “um erro absoluto”

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Trinta anos depois do lançamento do seu primeiro livro, “O Dia dos Prodígios”, Lídia Jorge continua a encarar o processo da escrita uma “alquimia” inexplicável. Com 23 títulos publicados, a obra de Lídia Jorge já inspirou adaptações ao teatro e cinema e mereceu-lhe reconhecimento nacional e internacional. O mais recente prémio foi-lhe atribuído este mês pela União Latina. No entanto, em entrevista ao Boas Notícias, a autora considera que o “sucesso interior” é o mais importante e esse é “pessoal, individual e intransmissível”.

Cresceu no Algarve, no seio de uma família de camponeses com grande gosto pela leitura. Quando é que percebeu que queria ser escritora?

Foi em pequena, embora eu ainda não percebesse o que era ser escritora. […] A princípio, comecei por imaginar histórias mais curtas mas, por volta dos 9 anos, senti que queria escrever um livro longo, porque era o que eu via em casa as pessoas lerem. Portanto foi uma coisa muito recuada na minha vida, muito primitiva, só que eu não fazia a mínima ideia do envolvimento que isso implicava, nem do que era necessário. Esse impulso para a escrita é quase tão antigo como eu ter aprendido a ler e a escrever.

A história da sua família é um bocadinho invulgar, não lhe dá vontade de escrever sobre ela?

Eu agradeço à minha família, no meio de uma situação de escassez cultural, ter-me proporcionado o que era possível na altura e tê-lo feito de uma forma tão persistente. Mas o que me move são temas posteriores, temas que têm a ver com o mundo contemporâneo, a sua mudança, mais do que propriamente com a minha família. Ainda que em todos os livros, de uma maneira ou de outra, a tensão familiar que existe em todas as famílias numa espécie de ensaio para o mundo, esteja sempre lá. Transfigurada, de certa forma, mas sempre presente.

Qual é o livro da sua vida?

Talvez o que me tenha tocado, como adulta, tenha sido o “Orlando” da Virginia Woolf. Mas quando eu tinha 17 ou 18 anos acho que foi o “Nada” da Carmen Laforet. Esse livro foi muito importante na minha vida […] marcou-me profundamente e ainda hoje me ensina coisas. Outro livro muito importante foi “O Rio Velho” do Faulkner. Na Faculdade de Letras estudávamos sobretudo livros franceses escritos no Noveau Roman, com histórias que eu considerava muito anémicas. Quando encontrei o “O rio velho” fiquei comovida com aquela história, que se parecia com histórias que conhecia da minha vida. Fiquei a pensar que eu própria tinha matéria para escrever, que eu tinha um universo. Havia uma história tradicional e raízes históricas e culturais que eu tinha vivido, e vivia, que podiam ser matéria para literatura. Foi também quando descobri os sul americanos, o Gabriel Garcia Marquez, o Júlio Cortázar… Foram autores que me disseram que eu podia ir às raízes culturais. Senti que podia escrever o “Dia dos Prodígios” com essa proteção.

Há quem considere que “O dia dos Prodígios” foi um marco na literatura portuguesa. Concorda com esta leitura?

De facto há pessoas que o dizem, mas eu não sei. Sei que na minha vida foi um grande marco. Agora fez 30 anos desse livro e percebo que há leituras muito comovidas em torno dele. Quando se faz o balanço dos livros do séc. XX muitas vezes integra-se “O dia dos Prodígios” entre os livros marcantes mas não sei o que ele virá a ser no futuro. Sei que me honro de tê-lo escrito, foi uma espécie de prenda que a vida me deu. Acreditei plenamente no impulso literário […]. Era um livro com uma história que a princípio estava fora de moda, porque era sobre o povo. Além disso utilizava uma linguagem que literariamente estava ultrapassada, mas eu escrevi para que esse um universo não fosse esquecido. Acabou por ser um livro que tem uma unidade que toca os leitores e eu estou contente que isso tenha acontecido.

Pode pedir-se a um escritor que “escolha” uma das suas obras?

Poder pode-se, mas é difícil. Às vezes a certa altura um livro é o nosso preferido, depois passa a ser outro. Acabei de publicar “A Noite das Mulheres Cantoras” e estou de tal forma dentro dele que acho que pus nele tudo aquilo que sabia em termos de narrativa. […] Consegui escrever um livro que parece que tem duas peles e eu gosto de livros assim, que têm uma pele quase fútil mas depois têm uma segunda pele que é exatamente o contrário. Mas, tirando esse impulso, penso que o livro mais denso, aquele em que eu criei uma personagem que me persegue e acho que persegue muitos leitores, foi “O Vento Assobiando nas Gruas”. É talvez o livro mais denso, mais firme, que abarca vários anos da vida do país e que, ao mesmo tempo, tem figuras marcantes que correspondem àquilo que os leitores pedem a um escritor: que não os deixe indiferentes, indiferentes à vida. E eu acho – possivelmente é uma presunção minha – que isso está dentro desse livro.

É um livro “difícil”?

É um livro em que eu sinto que ofereci matéria de luta, mas não o fiz de propósito, fi-lo por coerência. No caso da (personagem) Milene eu não podia fazer isso, tive que dar ao leitor uma espécie de viagem de mão dada em que a pessoa percebesse que estava junto de alguém que não era como os outros. Os leitores que aguentam isso aguentam o resto do livro e, no final, percebem o que eu quis fazer. A Milene é uma metáfora daquilo que eu sou enquanto escritora. Jamais encontrarei as palavras todas, os silogismos todos… Não encontrarei. E ela também não encontra, mas a um outro nível, mais primário. Quando a gente sabe que não consegue expressar tudo, essa consciência coloca-nos vencidos perante os outros, mas por isso mesmo grandes perante os outros.
 
Há pouco falava de Gabriel Garcia Marquez e dos autores sul-americanos. Há algum “best-seller” de que tenha gostado realmente?

Sim. Por exemplo um “best seller” de que as pessoas por vezes falam com um certo desprezo, mas de que eu gostei imenso, foi o livro da indiana Arundhati Royque “O Deus das Pequenas Coisas”. A autora diz que não vai querer escrever outro, tem medo de não conseguir se calhar… É muito difícil e eu compreendo. Acho que é um belíssimo livro e que talvez com o tempo se torne um clássico. Foi um “best seller” pelas boas razões e não pelas más.
 
Qual deve ser, para si, o papel da literatura na sociedade atual?

É indispensável e quem pensa que se pode dispensar comete um erro absoluto. O papel mais importante da literatura é ela permitir que nós –  com a matéria prima do pensamento, a gramática das palavras – alimentemos o nosso cérebro lento.  A capacidade de reflexão, de invenção, de sonho, de evasão, que faz do ser humano um ser feito para a irrealidade e portanto o torna humano. Por outro lado, dá-nos a capacidade de treinar a alteridade, isto é, de imaginarmos que podemos viajar dentro de uma pessoa diferente de nós. Isso é a base da criação dos valores. Aprendermos a subverter o nosso papel, aprendermos a não nos colocarmos só como o centro do mundo mas vermos que o mundo tem vários centros – relativizarmos a nossa própria posição. Não digo isto de uma perspetiva moral mas de uma perspetiva antropológica que faz com que sejamos seres mais para o desejo do conhecimento, da partilha e da fraternidade do que para a violência. […]

Como é que um escritor mede o sucesso que tem a sua obra?

De vez em quando é bom ter alguém que diga “tu tens um reconhecimento, achamos que o que tu fazes vale a pena”. São sinais que nos ajudam a perceber que nós temos utilidade. São formas de medir o reconhecimento, o que nós chamamos sucesso. Agora, há um outro sucesso, do nosso percurso interior, que é quando chegamos ao fim e achamos que um livro ficou bem. Essa é uma experiência pessoal, individual e intransmissível.

Já escreveu contos, romances, teatro…Tem preferência por algum destes géneros literários?

Romance, sem dúvida. O meu género de construção exige que o fim esteja longe do princípio. Preciso dessa espécie de demonstração, uma espécie de silogismo alargado, preciso que seja longo. E eu só o encontro quando o princípio está longe do fim, portanto o género é o romance.

Como é o processo da escrita, escreve quando lhe surge uma história, de forma espontânea e “irrefletida”, ou encara o ato da escrita como uma “profissão” e senta-se a pensar e a procurar uma história?

As histórias vêm enquanto lavo a loiça, apanho o autocarro, o metro, o avião, no meio da multidão, quando me sento no café na esplanada… As ideias vêm pela nossa evasão. São feitas com matéria que a gente vive, que a gente transfigura, por aquilo que a gente lê, pelas propostas que ouvimos. Há toda uma série de elementos que depois se juntam numa alquimia que ninguém consegue explicar.

Está a trabalhar nalgum projeto, neste momento?

Sim estou. É um projeto até que vem de trás. De certa forma fui desenvolvendo ao mesmo tempo em que ia escrevendo este livro. Geralmente tenho dois projetos em simultâneo e depois escolho o que se aproxima mais do fim, portanto regressei a esse outro projeto.               

Tem alguma personagem na sua cabeça, a pedir-lhe que escreva sobre ela?

Sim. Em geral nunca é só uma. Aparece uma, mas acompanhada de várias. A princípio tudo começa com uma personagem que fala. Existe uma paisagem e uma personagem que fala. É como num ovo, está lá tudo em embrião. A paisagem começa por dar o espaço, começa por dar o tempo começa por dar a sociedade mas o coração da personagem é sempre o mais forte, o mais importante, é o que acaba por conduzir a linguagem do livro, que é sempre o mais importante.

A Lídia foi uma das pessoas que defendeu publicamente a despenalização do aborto, que outras causas a movem?

A nível social e político movem-me várias, ainda que nem sempre me envolva de forma pública. Já me envolvi claramente por esse que acho que é um combate muito forte, que não tem a ver só com as mulheres, tem a ver com o respeito pela figura humana, ao contrário do que outros pensam. Respeito pela mulher, pelo homem e por quem nasce e portanto empenhei-me. Sei que isto não vai sempre em linha reta, muitas vezes volta para trás, a nossa população é capaz de voltar para trás. Muitas vezes penso nisso, é preciso estar alerta para se dizer que se se voltar para trás é um retrocesso. Outra causa que me move é a cultura, que é a minha área e é aquela que tenho de defender.

O que é que a faz soltar uma boa gargalhada?

(Risos) Perguntas como esta… Estou a brincar. Uma boa gargalhada…? Uma piada. O sentido de humor advém, para mim, daquilo que vem em sentido contrário ao que é esperado. Por exemplo, o facto de eu estar ontem numa pastelaria e estar uma pessoa na minha frente que eu estava a detestar tudo o que ela estava a dizer. Era uma pessoa que falava muito alto, que estava a troçar de aspetos de que eu não troço, com um comportamento rude para com os empregados… e de repente, eu reparo que ela estava a comer e a beber exatamente do mesmo sumo de laranja, da mesma meia torrada e tinha até pedido uma palhinha (que a princípio não trazem e trouxeram para mim…e para ela). Eu estava sozinha e comecei a rir, porque eu estava a distanciar-me na parte da conduta e depois ali estávamos unidas. Esse tipo de coincidências faz-me rir, sobretudo porque é irónico. Nós sentimos que queremos diferenciar-nos do que é humano e depois acabamos por ser terra a terra como os outros todos. Esse é um dos aspetos que me faz rir.

Onde é que nunca a vamos encontrar?

Eu não sei. Não posso dizer. Não faço ideia. Nenhum caminho me é vedado. Por exemplo, neste momento eu acho que nós estamos todos a viver um drama shakespeariano pós moderno, que é esta história do Dominique Strauss e acordo de noite tal e qual com o sentimento que eu tive quando aconteceu uma história semelhante ao Clinton: com a ideia de que eu sou ele. Que eu sou aquele homem. É mais forte a ideia de que eu podia ser ele do que dizer “eu nunca seria ele”. Recusar não ser outro, não estar lá… é muito difícil.  

Se pudesse escrever uma boa notícia que ocupasse amanhã a capa de todos os jornais qual seria o título?

Amanhã? Em Portugal? Que o FMI tinha repensado e tinha emprestado juros a 0%. (Risos)

Mafalda Almeida

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