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José Caldeira: Presidente Agência Nacional de Inovação

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Considera que Portugal é um país inovador?

Portugal tem condições para ser um país inovador. Temos, por um lado, uma população que já demonstrou capacidade para aderir às novas tecnologias, às novas soluções. E temos um conjunto de entidades e setores que têm produtos, serviços e sistemas inovadores ao longo dos tempos que demostram que reunimos condições para sermos efetivamente um país inovador ou um país que tem potencial para desenvolver inovação.

Se calhar os casos mais conhecidos serão os cartões pré-pagos dos telemóveis, a Via Verde, ou até o sistema multibanco que ilustram bem esta capacidade de, por um lado, desenvolver soluções inovadoras, mas também do próprio país servir como laboratório, local de teste, validação e demostração dessas soluções que depois ajuda à sua projeção internacional.

No final do ano passado, por ocasião do 12º Encontro Nacional de Inovação – organizado em parceria com a COTEC – afirmou que neste ano Portugal ia assistir a um aprofundamento do investimento em i&d e da colaboração do Sistema Científico e Tecnológico (SCT) com as empresas. Até ao momento, consegue dar exemplos que corroborem a sua afirmação?

Não podemos ter melhor demonstrador e prova dessa evolução do que olhar para os resultados do último concurso dos projetos de i&d em copromoção que foram lançados pela Agência no âmbito do Portugal 2020. Já tínhamos registado no primeiro concurso do Portugal 2020, no ano passado, um aumento de cerca de três vezes e meia relativamente àquilo que tinha sido o concurso homólogo no âmbito do QREN.

O que se verificou foi que, depois desse aumento já muito significativo, registámos que no segundo concurso, que terminou recentemente em março, esses números duplicaram de um ano para o outro.

Estamos a falar de mais de 470 candidaturas, mais de 420 milhões de investimento indicado e proposto no âmbito desses programas e mais de 600 empresas envolvidas.

Importa referir que cerca de 50% dessas empresas, nos dois avisos, são empresas novas no sistema, ou seja, empresas que antes não vinham a estes instrumentos. Isto mostra que mais empresas estão a investir mais em i&d e estão a colaborar mais com mais entidades do SCT, porque também houve um aumento de cerca de 25% no número de entidades do SCT envolvidas nesses projetos.

Responsável pela implementação das metas de investigação, desenvolvimento tecnológico e inovação do Portugal 2020, a ANI gere vários sistemas de incentivos que permitem melhorar a relação entre empresas e o SCT. Quais destacaria?

Se calhar destacava quatro instrumentos. Dois que já vêm do QREN e dois que foram criados no âmbito do Portugal 2020.

Os dois que vêm do QREN são precisamente os Projetos de i&d em Copromoção e os Projetos Mobilizadores, que ainda não abriram. Prevê-se que abram dentro em breve: por um lado, são dois instrumentos que, já têm provas dadas; por outro, permitem precisamente fomentar estas parcerias e colaborações entre empresas e entre entidades SCT que são tão importantes nestes processos de inovação, mas sobretudo na vertente da circulação do conhecimento e de pessoas entre as várias entidades.

Os Projetos em Copromoção são projetos mais pequenos, os Projetos Mobilizadores são do mesmo tipo, mas para consórcios de maior dimensão e para lidar com problemas mais complexos que necessitam da integração e da colaboração de várias áreas de conhecimento e, muitas vezes, de vários setores, temos a constituição de cadeias de valor que obrigam a mobilizar um número mais alargado de empresas e entidades do SCT.

No âmbito do Portugal 2020 queria destacar os Projetos Demonstradores e as Linhas Piloto.

Os Projetos Demonstradores visam demonstrar em ambiente real de utilização resultados de projetos de i&d entretanto terminados. É um instrumento que permite pegar em resultados de projetos, em tecnologias, integrá-las, fazer um demonstrador num determinado setor e depois testar, validar, demonstrar essas tecnologias e soluções e publicitá-las para os stakeholders, permitindo que outras empresas, do mesmo setor ou de outros setores, possam conhecer estas tecnologias e utilizá-las nos seus negócios.

Este instrumento tem uma característica importante que é a capacidade de podermos pegar em tecnologias desenvolvidas em projetos europeus e fazer a sua valorização através de empresas nacionais, porque isso permite que a parte mais relevante de impacto económico e social fique no país, ou seja, que a valorização de tecnologia possa ser feita por entidades nacionais.

Há ainda uma outra característica importante que é a possibilidade de fazer fertilização cruzada entre setores. Há muitas tecnologias que são muito transversais, que podem ser aplicadas em vários setores diferentes. O que constitui um processo mais interessante de valorização do investimento em i&d feito anteriormente, porque ele assim serve mais setores, tendo um impacto maior do ponto de vista da economia, mas também porque faz chegar às empresas soluções com riscos, prazos e custos inferiores do que se tivessem que começar a fazer elas próprias a i&d.

O outro instrumento novo, que abriu recentemente, são os Núcleos em Copromoção. Visam sobretudo estabelecer parcerias de médio-prazo entre empresas e entre empresas e entidades do SCT. É para que estas entidades desenvolvam conjuntamente novas agendas de i&d de forma colaborativa no sentido de lançar novas tecnologias, novas linhas de produtos e que permitam depois, eventualmente, gerar novos projetos de i&d.

De 1993 a 2014, a ANI apoiCaptura de ecrã 2016-05-31, às 10.40.34ou, através dos diversos programas existentes, sobretudo muitas empresas. Mas já em 2014 e 2015, a participação de Portugal ao Horizonte 2020 resultou, em grande parte, da ação das universidades e dos centros de investigação. Admite que nos últimos tempos houve um aumento da capacidade de produção científica em Portugal?

A participação nacional nos programas europeus tem vindo a aumentar de forma significativa. E esse crescimento deve-se sobretudo ao aumento da participação das entidades do SCT.

Na minha opinião, esse crescimento ficou a dever-se a dois, três fatores: o primeiro ao facto de ter havido uma diminuição do financiamento a nível nacional. Porque atravessámos um período de transição de quadros comunitários. Portanto houve uma redução efetiva dos fundos disponíveis a nível nacional para as atividades de i&d e, naturalmente, as entidades viraram-se mais para as oportunidades existentes no âmbito dos projetos europeus.

Há outro fator a contribuir para esse aumento e tem que ver com uma maior perceção e compreensão das empresas e das entidades do SCT da importância dessa participação nos programas europeus. Não é apenas uma questão de financiamento, mas é também uma oportunidade para participarem em redes mundiais de conhecimento. De estar em contacto com aquilo que é o estado da arte nas várias áreas científicas e tecnológicas de uma maneira mais interessante do que fazer isso por iniciativa própria. Mas também como uma forma de encontrar parcerias, não só para os projetos de i&d, mas também para montar negócios.

Há um terceiro contributo que é um papel muito proactivo do Gabinete de Promoção do Programa Quadro – o GPPQ. Um conjunto de pessoas que estão a promover a participação nacional no Programa Quadro, em particular no H2020, e que tem tido uma intervenção crescente, quer na divulgação das oportunidades de financiamento, dos programas europeus, mas também um apoio efetivo na própria preparação das candidaturas. E isso tem tido também um impacto positivo no aumento da participação nacional.

A valorização do conhecimento é fulcral para si, mas constata que a incorporação desse conhecimento na produção de produtos e serviços inovadores ainda tem um caminho a percorrer. Que caminho é esse e de que forma a ANI intenta ajudar nesse percurso?

É sobretudo um problema de interface porque temos entidades do SCT capazes de produzir conhecimento científico e tecnológico relevante e de qualidade internacional, e por outro lado temos uma indústria e empresas capazes de fazer engenharia, de produzir e levar ao mercado produtos de baixa, média e alta tecnologia. O que temos é uma dificuldade na passagem e transferência do conhecimento de um sistema para o outro.

Uma PME pode ser muito inovadora e não ter nenhuma atividade de i&d dentro de portas. Toda a atividade de i&d pode ser externalizada, mas ela tem de ter a capacidade de dialogar com as entidades externas, de definir problemas e oportunidades, e depois pegar nos resultados dessa i&d e ser capaz de os incorporar em novos produtos, serviços, processos, novos modelos de negócio, seja o que for nas várias vertentes da inovação tecnológica.

Do lado das entidades do SCT ainda temos a dificuldade de disponibilização para o exterior do conhecimento gerado num formato adequado à transferência de tecnologia e a respetiva publicitação.

Na minha opinião, isto resulta muito de um sistema que temos há muitos anos em Portugal e que é um sistema muito dual no mau sentido da palavra. Tradicionalmente as pessoas ficam no SCT, sobretudo nas universidades, centros de investigação e têm uma relação muito reduzida ou nenhuma com as empresas, ou, pelo contrário, vão para uma carreira empresarial e têm poucas relações com o sistema científico. Ao contrário de outros países onde esta interpenetração – estar alguns anos numa carreira científica ou académica, depois passar alguns anos ao meio empresarial, e depois regressar ao meio científico – é normal, incentivada e nalguns casos até é obrigatória, aqui temos esta dificuldade. Temos que fazer uma aposta forte nesta capacidade de trabalhar, de colaborar de forma conjunta entre empresas e entre empresas e entidades do SCT. E é nessa vertente que a Agência está a centrar uma parte importante da sua atividade.

Os projetos em copromoção e de inovação aberta – juntando universidades, centros tecnológicos e empresas – serão a solução para aumentar a translação de conhecimento?

É uma componente importante. Há uma outra vertente, que está muito ligada à primeira, que é formação das pessoas. Em média, temos um défice nos níveis de formação nas nossas empresas e temos de aumentar esse nível de qualificação porque quando estamos a desenvolver uma nova tecnologia temos que garantir que temos os recursos humanos formados naquela nova tecnologia para que depois os vários atores, nomeadamente as empresas, possam usar essas pessoas nos seus projetos e atividades.

Se usarmos os projetos de i&d para, de forma alinhada, fazer ao mesmo tempo a formação avançada de recursos humanos e se no final desses projetos, quando a tecnologia passar para as empresas, esses recursos humanos passarem também com a tecnologia, essa é a melhor forma de assegurarmos a passagem de tecnologia. A melhor forma de fazer transferência de tecnologia é transferir pessoas, não é transferir patentes, relatórios.

Não dá uma importância muito significativa ao indicador “número de patentes” como forma de medir o grau de inovação de um país. Que indicadores devemos então considerar para avaliar se o nosso país está na vanguarda da inovação e se as nossas empresas são competitivas?

Não atribuo exatamente a mesma importância que outras entidades atribuem a esse indicador porque há setores onde o número de patentes é muito relevante, há outros em que não é assim.

O indicador que prefiro utilizar é o VAB [Valor Acrescentado Bruto] por trabalhador porque mede a capacidade de gerar riqueza por cada hora trabalhada. Se os nossos trabalhadores puderem produzir mais riqueza por cada hora que trabalhem, isso sim significa uma evolução em termos de desempenho do sistema. E hoje em dia esses processos estão praticamente sempre ligados a apostas em inovação, em i&d e conhecimento, por isso mesmo esse é o indicador que prefiro utilizar para medir se aquilo que estamos a fazer está a ter um impacto efetivo no desempenho global económico e social do país.

Estando em contacto com vários projetos inovadores e estudos com elevado potencial de aplicação no mercado, há algum que recentemente lhe tenha despertado interesse?

Destacava o sucesso atual de uma empresa como a Farfetch. Os mais distraídos olham para aquilo como uma empresa que vende moda, mas aquele modelo de negócio é possível porque há uma plataforma tecnológica por trás muito importante, forte e que foi desenvolvida pela empresa. É um exemplo de como, casando tecnologias com setores mais tradicionais e maduros, se pode transformar um negócio.

O outro caso destacaria a Veniam que é uma empresa que trabalha naquilo que eles designam a internet das coisas móveis. Que é o resultado de uma investigação universitária, da mobilidade de investigadores entre Portugal e outros países e que depois regressam ao país e montam uma empresa com uma fortíssima componente tecnológica e que usaram também o país como laboratório e local de teste e validação das suas primeiras soluções e que estão a projetar neste momento as suas soluções globalmente.

São dois casos interessantes porque ilustram aquilo que se pode fazer em setores mais tradicionais e aquilo que é o lançamento de novas empresas de base tecnológica resultantes da i&d científico.

Inovar é…
Competir com criatividade porque a competição é fundamental para a inovação, mas tem de ser competição com criatividade.

Virtudes de um empreendedor
Conhecimento, muita persistência e fé no sentido lato da palavra.

Lema de vida
É uma frase muito antiga que uma vez vi em cima de uma secretária, há muitos anos, e que me tem ajudado ao longo da minha vida “Muitas vezes o que parece impossível é apenas difícil”.

App favorita
Diria que são as apps dos vários meios de comunicação social – RTP, SIC, TSF, Público, dos vários porque viajo bastante e vou procurando manter-me atualizado através desses novos meios fantásticos que permitem que a gente tenha acesso à informação e que nos notifiquem e avisem das notícias conforme vão acontecendo.

Hobbies
No meio das viagens e também fora delas o meu principal hobbie é o jazz. Procuro seguir e encontrar clubes de jazz quando estou a viajar. E depois tenho um enorme hobbie que é a família – tenho quatro filhos e é um hobbie considerável que, nalguns momentos e fases, se assemelha muito a uma jam session.

 

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