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João Vasconcelos – Secretário de Estado da Indústria

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Também ele, longe da formalidade que o fato, a gravata e o seu cargo – de Secretário de Estado da Indústria – impõe, assume uma grande simplicidade no trato e nas palavras.

Acredita que «a inovação é uma atitude, uma maneira de estar, de olhar para o que somos confrontados, e um empresário tem de inovar todos os dias».

A i9 magazine falou com o empresário que, como político, já se sente menos envergonhado com o aumento do salário mínimo, e que defende os jovens empreendedores como as “novas peixeiras” que todos querem cumprimentar e que são muito procurados pelas incubadoras.

Defende que 2016 vai ser o ano das grandes oportunidades para as empresas nacionais. É o seu trabalho que está por detrás desta convicção?

É o meu trabalho, mas também é a minha experiência de nos últimos anos ter acompanhado vários setores empresariais que têm apostado muito na inovação, que se estão a modernizar, a desenvolver os seus produtos e serviços e a preparar-se para mercados globais. Sinto que com a aposta deste governo na ciência, na tecnologia, na desburocratização do Estado, na modernização administrativa, na aceleração que estamos a dar ao Portugal 2020 e aos pagamentos do mesmo, as empresas poderão ter um ano muito positivo.

É mais apologista da criação de emprego, e consequentemente do crescimento, pela via das start-ups do que pela investigação, que tem uma rentabilidade mais lenta e demorada?

Uma das maneiras mais rápidas e mais eficazes de criar emprego com investigação é através de start-ups e não através das empresas já estabelecidas. As maiores inovações que vejo na sociedade e no mundo têm vindo de start-ups, de novas empresas, de novos players. Quem já tem uma posição dominante num setor, normalmente, é mais adverso à inovação e à mudança. Muita da investigação que está a ser feita em Portugal vai ter mais impacto na economia, na criação de emprego e no PIB através de novas empresas do que a partir de empresas já estabelecidas ou multinacionais.

No entanto, para isso é preciso haver a criação de vários instrumentos que permitam a transição e a transferência de conhecimentos, e é nisso que estamos muito focados.

O programa Semente pode responder a esse anseio de criar mais emprego?

O programa Semente terá um impacto muito grande na criação de emprego. É um programa de benefícios fiscais para quem investe em jovens empresas de determinados setores. Neste momento ainda estamos a definir os setores e quais os valores que terão um teto máximo. Mas irá permitir a quem tiver poupanças investir num negócio jovem e ter (por causa disso) benefícios fiscais. Vai permitir que milhares de portugueses se tornem em Business Angels – alguém que não deve trazer só financiamento mas também a sua experiência profissional. Os melhores Business Angels são, muitas vezes, altos quadros de empresas, quadros médios e antigos empreendedores que tiveram sucesso. Quando alguém com estas características investe numa empresa jovem passa a ser mentor, um coacher, e isso é fundamental.

Afirma que a Web Summit não é apenas mais um evento tecnológico, mas que será um marco para Portugal. De que forma os setores mais tradicionais da economia poderão beneficiar com a WebSummit?

Nas outras edições da Web Summit via pessoas dos têxteis e da moda a verem soluções de comércio eletrónico, pessoas das fábricas mais artesanais a perceberem os novos sistemas de produção, os softwares que se usam, o relacionamento com o cliente. Se hoje quiser fornecer a indústria automóvel tem de ter alguém na sua empresa só na parte digital, porque toda a logística é digital, praticamente sem a intervenção humana na distribuição.

A Web Summit é muito importante para perceber o que é que está acontecer no mundo nestes setores mais tradicionais, mas também é um compromisso meu garantir que mostramos ao mundo o que temos vindo a fazer. Não só nas start-ups, mas também nas empresas tecnológicas, nos setores de conhecimento, nas infraestruturas tecnológicas e nas várias características nacionais para acolhermos um investimento sofisticado, com foco na inovação e que use os nossos centros do saber.

Acha que Portugal, e neste caso Lisboa, estão preparados para acolher mais de 50 mil pessoas, a avaliar pelo já alargado número de inscritos?

Sim, os números são extraordinários. Há quem fale de 55 mil. É bom porque virá numa época boa para negócios e se há coisa que estamos muito habituados a fazer é receber bem!

Há pessoas que não perceberam que a Web Summit não é só para jovens engenheiros. Não é uma feira para passear e visitar, mas sim para fazer negócios. É um evento de trabalho que é preciso preparar com antecedência, saber que pessoas irão estar presentes, contactar previamente aqueles com quem se quer estar.

Esta é a beleza da Web Summit: um investidor que gere bilhões num fundo de Nova Iorque pode estar com um jornalista e com um jovem que esteve de manhã a fazer surf, todos sentados na mesa a tratar de assuntos com o mesmo interesse. E este evento é o único no mundo que faz isto e vai acontecer em Portugal durante três anos, podendo passar a cinco.

Vai haver um Portugal “antes e depois” da Web Summit. Teremos uma geração de empreendedores marcada pela Web Summit. Haverá uma geração Web Summit!

Tem dito que o poder do digital é inevitável. A internet das coisas, big data, estão a desencadear uma nova Revolução Industrial. Que avaliação faz desta nova Indústria denominada 4.0?

Estive em Davos, no World Economic Forum, onde o tema era a 4ª Revolução Industrial que está a acontecer em Portugal e em quase todos os sectores. Este cruzamento das indústrias tradicionais com o mundo digital está a permitir revoluções nas linhas de produção, no relacionamento com o cliente, na logística e nos modelos de negócio. Está a valorizar muito o consumidor, a transmissão de informação e a democratização no acesso às coisas, aos bens, ao know-how, permite ao cliente personalizar as suas soluções.

Sempre tivemos o problema de sermos periféricos a grandes mercados. Isso dificultou vários dos nossos setores empresariais e nesta revolução a localização geográfica não conta.

No Fórum Economico Mundial também se deu uma previsão um pouco assustadora de que em 5 anos vão-se perder 5 milhões de empregos nas principais economias mundiais, vão-se mudar modelos de negócio e mercados de trabalho. Que perspetiva é que tem em relação a esta avaliação?

Em todas as revoluções industriais destruiu-se, mas também se criou, muito emprego. Temos de saber quais os setores que vão ser mais afetados por esta revolução e prepará-los. Porque não a vamos poder parar. Tenho de garantir é que o país acompanha esta revolução.

Vai haver empregos destruídos? Vai, mas acho que numa economia como a portuguesa, com a infraestrutura tecnológica, com a geração mais qualificada que temos e por estarmos dentro da União Europeia, vamos ter mais criação de emprego do que destruição.

Concorda com o Mira Amaral quando este afirmou que devemos retomar uma indústria que, a par com as tecnologias de informação, comunicação e robótica, deve produzir artigos tailor made, ou seja personalizados, mas em pequenas quantidades, sendo que estamos numa fase em que há uma massificação da customização?

Tenho um enorme respeito pelo Mira Amaral, sempre lutou pela indústria portuguesa e sempre defendeu aquilo que acredita ser o melhor, apesar de discordar dele em várias coisas. Nisso não discordo, no entanto não diria dessa maneira. Essas tecnologias vão acontecer, quer se queira, quer não. A informatização e automatização não vão ter um impacto positivo só na produção de pequenas quantidades. O coCaptura de ecrã 2016-03-7, às 11.34.25mércio eletrónico está a revolucionar várias indústrias em Portugal. Pressupõe uma intervenção em toda a fábrica, na armazenagem, na logística, no departamento financeiro. E quem se preparou para isso está a ter crescimentos de negócio muito grandes.

É um momento único na economia mundial e pela primeira vez na história, podemos fazer parte do pelotão da frente. Se vai criar pequenas quantidades? Talvez, por exemplo, (…) na indústria vai ser possível estar no Fundão ou numa região fora dos grandes centros urbanos, fazer uma coisa manual e vender para o mundo todo e ser economicamente viável.

Afirma-se como uma pessoa que faz e que apresenta resultados. Que resultados podem esperar de si os industriais portugueses?

Sou muito executivo, isso tem vantagens e desvantagens, principalmente porque gosto de fazer coisas, mas também erro muito e é óbvio que só erra quem faz.

Uma coisa que os empresários podem esperar de mim é que estou aqui por eles, este é o ministério dos empresários e de quem quer vier a ser empresário.

Temos várias prioridades e todos os dias me pedem para agilizar e facilitar o Portugal 2020, os apoios a quem está a investir, a inovar. Mas também temos que garantir os recursos humanos e científicos, e os incentivos para que a indústria portuguesa, a que queira e a que ache necessário, acompanhe esta Revolução Industrial.

Sobre o empreendedorismo, ninguém consegue afastar de mim essa costela de apoiar quem queira montar uma empresa e negócios. Até porque é uma área essencial na criação de emprego – 50% dos novos empregos são criados em empresas com menos de 5 anos – isso é prioritário.

Outra área que vai ter várias medidas é o design. É um erro achar que não é um fator essencial de inovação nos setores mais tradicionais e tentarei emendar isso.

Esteve recentemente na Heimtextil, a maior feira internacional de têxteis para o lar, em Frankfurt, na Alemanha. Viu de perto o sucesso das empresas portuguesas que, de um setor tão tradicional tem apostado na inovação, na qualidade e na exportação, fugindo aos produtos mais baratos, considerados de menor qualidade. Acha que é esse o caminho que devem seguir outros setores e segmentos industriais nacionais?

Sim, e está a ser seguido. O que vi na Alemanha pode ser de um setor tradicional, mas são das coisas mais sofisticadas da indústria portuguesa em termos de design, tecnologia, linhas e sistemas de produção. A fábrica têxtil-lar já não tem que ver com a imagem que temos no nosso imaginário. O têxtil-lar é um setor que orgulha muito Portugal. Vai para as economias mais competitivas do mundo sem problema nenhum.

É um setor que percebeu que tinha de optar pela excelência, pela qualidade e pelo design há muitos anos. Tenho assistido à contínua liderança portuguesa e isso tem de ser reconhecido por todos como motivo de orgulho ou, também, como exemplo para outros setores.

O encontro que teve com cerca de
30 incubadoras de start-ups visou esse mesmo objetivo?

Foi a primeira vez que houve uma reunião com todas as incubadoras e aceleradoras do país, públicas e privadas. Para mim, é ali que estão a nascer as novas empresas e os novos industriais. São espaços que vamos valorizar e ter uma rede nacional de incubadoras.

Celso Carvalho, diretor da incubadora da Universidade de Aveiro, ficou encarregado de montar essa rede que também deverá definir o que é uma incubadora, porque isso também não é claro. Vamos tentar definir as várias tipologias e estratégias para cada uma, mas não quero que seja o governo a fazer isso, quero que sejam eles. Quero trabalhar com eles e vê-los envolvidos com os setores tradicionais. Custa-me ver incubadoras e centros de investigação totalmente desligados das empresas que estão à volta.

Da parte do Ministério da Economia, também é preciso olhar estes players como essenciais para renovar tecidos económicos e setores tradicionais.

A Startup Lisboa está a celebrar quatro anos, que contributo vê atribuído à Startup Lisboa, não só para a cidade, mas também para o país. E que balanço faz do trabalho que nela desenvolveu?

Provámos, em primeiro, que uma Câmara Municipal quando decide intervir no empreendedorismo e na criação de emprego é muito poderosa. Por exemplo, na atração de start-ups, de jovens empresas internacionais, a competição, neste momento, é entre cidades, e não entre países. As Câmaras têm de ser chamadas a isto, umas estão presentes, outras não, mas temos de as trazer todas.

Em segundo, provámos que era possível ter empresas sofisticadas, tecnológicas, ambiciosas em edifícios com 300 anos no meio do centro histórico de uma cidade. Não é incompatível a vida urbana nos centros históricos da cidade com os setores mais inovadores.

Provámos que Lisboa é uma cidade friendly. Os seus atributos que têm atraído tantos turistas, se forem orientados para a criação de negócio, também conseguem atrair muitos empreendedores.

Também ficou provado que é possível, no meio da maior crise de sempre, criar postos de trabalho. As empresas que passaram pela Startup Lisboa criaram muitas centenas de postos de trabalho, sofisticados, bem pagos. Ficou provado que um dos maiores combates à emigração de cérebro, o brain drain, pode ser o empreendedorismo tecnológico e incubadoras como a Startup Lisboa.

Por fim, também ficou provado que não é preciso o QREN ou o Portugal 2020 para poder fazer isto.

Acredita que tem mantido a ambição, a loucura saudável e irrequietude no desempenho das suas funçõe
s como Secretário de Estado da Indústria?

Se calhar não tanto como eu queria! Essa irreverência faz parte da minha pessoa, não dá para omiti-la, nem para a controlar e é uma grande vantagem que eu tenho. Admito que em alguns momentos também é um grande defeito, mas continuo a valorizar mais as vantagens dessa incapacidade de me conformar com uma situação que eu posso melhorar. De mim, vão sempre encontrar alguém atuante, executivo, habituado a cumprir as missões em que me envolvo.

Se há um ano atrás lhe dissessem que estaria com um cargo político, o que é que respondia?

Não sei… O cargo com maior responsabilidade que uma pessoa pode exercer na vida é na política. Portanto, se me dissessem que ia estar num cargo político, ficaria muito orgulhoso. E muito orgulhoso também porque este é um momento difícil na economia portuguesa, onde temos grandes restrições orçamentais e de contenção, mas onde também temos de privilegiar o crescimento económico das empresas. E é em momentos destes que apetece ser político, o que eu fizer aqui vai influenciar a comunidade em que vivo e as empresas, a indústria portuguesa.

Inovar é?

Criar um novo produto, um novo serviço ou um novo processo.

Virtudes de um empreendedor

Resiliência.

Lema de vida

É melhor feito do que perfeito.

App favorita

Para trabalho: Telegram; para diversão: Tumblr

Hobbies

Gosto muito de viver, de aproveitar e agarrar a vida. Gosto muito de estar com os amigos, de viajar. Gosto muito de carros antigos, de corridas de automóvel. Gosto muito de andar de bicicleta, de brincar com a minha filha. Gosto muito da arte. Tenho muitos hobbies, mas praticamente nenhum tempo para eles!

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