Sociedade

Instituição social é a única a produzir seda em Portugal

Em Castelo Branco produz-se um dos mais valiosos tecidos do mundo: a seda. A tarefa fica a cargo de uma instituição de solidariedade social onde se encontra a única unidade de produção deste tipo de tecido em Portugal.
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Em Castelo Branco produz-se um dos mais valiosos tecidos do mundo: a seda. A tarefa fica a cargo de uma instituição de solidariedade social onde se encontra a única unidade de produção deste tipo de tecido em Portugal. O Boas Notícias acompanhou o processo  e ficou a saber mais sobre este segredo bem guardado no interior do país há já 25 anos.

por Margarida Cruz e Sara Cunha
 

É na Quinta da Carapalha, um dos centros de atividade da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Doente Mental de Castelo Branco, que tudo acontece, pelas mãos de um grupo de jovens deficientes. 
 
“É tudo feito aqui, com o auxílio dos nossos jovens”, garante Armando Fernandes, técnico responsável daquele espaço. “O ciclo começa precisamente nesta altura (Janeiro), com a poda das amoreiras e consequente recolha de lenhas, duas tarefas exclusivamente entregues aos seus cuidados. Mais tarde, ajudam na colheita das folhas, na alimentação dos bichos e por aí fora”, explica. 


O Inverno é a única estação do ano em que as instalações da quinta não estão preenchidas por  milhares de bichos da seda. Para além do frio e da humidade adversas, os meses mais gelados são a melhor altura para preparar dois hectares de amoreiras para a folhagem que, depois, irá alimentar as próximas criações.

Três criações de 60.000 bichos por ano
 

“Fazemos uma criação de Primavera, outra no Verão e outra no Outono”, explica o responsável. “Cada criação requer um trabalho bastante grande e nós só temos disponibilidade – quer em termos de instalações, quer em termos de mão de obra – para responder às necessidades de 60.000 bichos de cada vez”, sublinha


É por volta de Abril/Maio que chegam os primeiros ovos, divididos por três caixas de 20.000 exemplares cada, vindas diretamente de Itália. Os mesmos são encaminhados para a maternidade da quinta, especialmente climatizada para uma eclosão simultânea e saudável. 
 
Uma vez fora do ovo, os recém-nascidos passam para outra divisão própria, também ela com condições de humidade e temperatura muito específicos, por forma a conseguir o desenvolvimento mais saudável possível do bicho da seda.

Divisões especialmente climatizadas

“Eu costumo dizer que eles são ainda mais solidários que nós, porque quando adoece um ou dois, adoecem logo uns 80.000”, conta Armando Fernandes. “Por isso, nós temos de ter todas as condições de temperatura, humidade e ventilação adequadas a cada uma das fases. Com o sistema de climatização que aqui foi instalado, conseguimos controlar os parâmetros de cada um destes fatores, consoante a etapa de criação”. 


Dispostos sobre grandes tabuleiros de ferro, os milhares de bichos da seda que compõem cada criação chegam a consumir meia tonelada de folhas de amoreira nas semanas finais que antecedem a construção do casulo. Nessa altura, ao longo de toda a criação, são colocadas  pequenas estruturas chamadas 'encabanamentos', todas elas de forma estratégica. 

“Os encabanamentos são um ninho, afim ao cabo, para eles fazerem a sua própria casa, o casulo”, explica o técnico. “Nós proporcionamos esses encabanamentos para que eles possam fazê-lo bem feito, evitando que se construam casulos deficientes, uma vez que isso, depois, se reflete no desenrolamento do casulo. Se o casulo não for bem construído, há uma certa dificuldade no desenrolamento.”

1.000 metros de fio por casulo

O desenrolamento é, precisamente, parte da fase final do processo de produção de seda,  para a qual seguem viagem os casulos resultantes da criação dos bichos. É altura de os limpar e tratar, antes de introduzir na máquina de desenrolamento. A tarefa fica nas mãos capazes de jovens como Rita e Sandra, cuja deficiência a nível mental não as impediu de contribuir para esta produção exclusiva no país.


“Gosto muito de ajudar a limpar casulos. Demora um bocado de tempo, porque são muitos, mas é bom”, conta Rita ao Boas Notícias. “Também costumo apanhar folhas de amoreira e dá-las de comer aos bichos. São muitos”, diz, por sua vez, Sandra. 
 
Depois de limpos, os casulos são introduzidos numa máquina e submetidos a altas temperaturas, por forma a que adquiram uma textura gelatinosa, mais forte e fácil de desenrolar. Feitas as contas, cada casulo vai, em média, desenrolar entre 1.000 a 1.500 metros de fio contínuo de seda, sendo que esse moroso trabalho fica a cargo de uma tecnologia japonesa, especialmente adquirida para o feito. 

“São desenrolados, em simultâneo, entre 10 a 12 casulos, que nos dão um cabo com uma determinada espessura, que depois juntamos entre 5 a 8 vezes para conseguir a espessura final, que varia consoante a finalidade da seda”, elucida Armando Fernandes, que explica ainda o facto de haver dois tipos diferentes desta fibra animal: a que pode ser trabalhada no tear e aquela que é usada nos tradicionais bordados de Castelo Branco. 


Rentabilizar uma iniciativa social e inovadora

Por isso mesmo, daí para a ideia de comercialização, o processo foi natural. “Tem de se pensar: temos a seda, muito bem, mas não vamos ficar com a seda para nós. Vamos comercializá-la. Como? Como é sabido, a região de Castelo Branco tem muitas bordadeiras que bordam em casa, inclusive, a Escola de Bordados de Castelo Branco”, afirma Maria de Lurdes Pombo Costa, presidente da APPACDM. “Então decidimos, desde logo, avançar com a venda da nossa seda para o mercado”.
 

Para isso, foi assinado um protocolo com uma empresa em Vila Nova de Famalicão que se responsabiliza pelo tingimento dos 25 a 30kg de seda anualmente produzidos na quinta com as cores típicas do bordado albicastrense. Só então, é que a seda chega às montras e expositores da Quinta da Carapalha, disponível numa palete de 38 cores diferentes e a um preço de 250 euros o quilo (ou seja, 2,50 euros por cada meada de 10 gramas). 

“Temos uma marca registada e comercializamos os nossos produtos de uma forma autêntica”, garante Armando Fernandes, segundo o qual a produção de seda se estende para além da fibra em si, com criações únicas feitas no tear da quinta. 

“Por exemplo, umas peças que saem muito bem são os cachecóis para as senhoras, os paninhos de seda, toalhas de batismo, que normalmente é sempre uma peça bastante procurada pela genuinidade do produto”, acrescenta.

Portugal abre as portas do primeiro Museu da Seda

O esforço e dedicação que têm acompanhado esta atividade, no entanto, fazem com que o sucesso da produção de seda em Castelo Branco chegue ainda mais longe, com a autarquia a anunciar a construção do primeiro Museu da Seda a nível nacional. O projeto, inédito no país, está previsto abrir portas no final do próximo Verão. 
 

“Será um museu onde as pessoas vão tomar contacto com uma determinada realidade – neste caso, a seda – como acontece nos outros museus”, explica a presidente da APPACDM. “Neste caso, para além de ser um museu virado especificamente para a seda, será também um museu vivo”. 


Segundo a responsável, “na prática, as pessoas vão poder, não só imaginar as amoreiras e sim ver as amoreiras, não só imaginar como se fazia a extração antiga artesanal mas também ver como é que hoje se faz uma extração mais industrial”. 

 E é desta forma que, do Oriente para a Península Ibérica, a seda começa a conquistar toda uma nova rota, desta vez, em território nacional, e com um lado solidário a dar-lhe ainda  mais valor.

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