Cultura

“Estômago”: a gula é o melhor tempero

Raimundo é apenas dono de duas coisas: a mala de viagem que quase nada carrega e a vontade de construir uma vida melhor na grande cidade. Acreditamos na sua inocência e na sua ingenuidade, típicas de muitos brasileiros que procuram uma nova vida fora
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Raimundo é apenas dono de duas coisas: a mala de viagem que quase nada carrega e a vontade de construir uma vida melhor na grande cidade. Acreditamos na sua inocência e na sua ingenuidade, típicas de muitos brasileiros que procuram uma nova vida fora do interior do país. Mas a história que nos conta “Estômago”, do realizador Marcos Jorge, é outra. Uma “fábula nada infantil sobre poder, sexo e gastronomia” estreia em Portugal a 13 de maio.

Já na grande cidade, Raimundo (interpretado pelo ator João Miguel) entra na mal frequentada tasca de Zulmiro (Zeca Cenovicz), que lhe oferece emprego na cozinha e um pequeno recanto onde pernoitar. O dom natural de Raimundo para a gastronomia transforma rapidamente o local num sucesso, chamando à atenção de Giovanni (Carlo Briani), dono de um distinto restaurante italiano.

Ascenção e queda, é este o fio condutor do filme. Por um lado, o sucesso de Raimundo na cozinha, a relação com a prostituta e sempre faminta Íria (a estreante Fabíula Nascimento), a proteção de Giovanni. Por outro, a vida na prisão. O que levou Nonato à prisão e quando? É essa a intriga que nos abre o apetite.

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“A sociedade brasileira pode muito bem ser descrita como um moedor de gente, especialmente da gente simples, da gente pobre”, explica o realizador brasileiro Marcos Jorge. “Estômago” é assim a história de Raimundo Nonato, o típico “zé ninguém” por quem nada daríamos, mas que acaba por encontrar o seu lugar. Num mundo onde uns devoram e outros são devorados, Raimundo Nonato cozinha.

“Estômago”, uma co-produção brasileiro-italiana, retrata a comida como elemento de poder nas relações interpessoais e é também um filme de expiação de pecados: não só a gula, mas também a avareza, a inveja e a ira.

37 prémios nacionais e internacionais

A estreia de Marcos Jorge na realização de uma longa-metragem não podia ter sido melhor: depois de dirigir filmes publicitários e das instalações-vídeo que montou, o brasileiro traz-nos um retrato cru e surpreendente de uma história que podia ser verídica, já premiado com 37 distinções nacionais e internacionais. “Estômago” fez também parte da seleção oficial do Festival de Berlim.

Uma nota de destaque à banda sonora, composta pelo italiano Giovanni Venosta, já premiado por outros trabalhos em vários filmes italianos: “Pão e Tulipas” (2000), “Queimando ao vento” (2002) e “Ágata e a tempestade” (2004).

A única crítica negativa que há a fazer: “Estômago” tardou em chegar às salas de cinema nacionais. Três anos depois da sua estreia no Brasil, é pela mão da distribuidora independente Alambique que o público português toma contacto com o filme. Felizmente. Como diz o ditado, “mais vale tarde do que nunca”.

Débora Cambé

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