Sociedade

Elo Social: Para além da deficiência

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Fazer desporto, trabalhar, aprender música. Há um espaço em Lisboa onde a deficiência não é pretexto para ficar escondido. Apostando na autonomia dos utentes e na sua integração, a Elo Social funciona como uma segunda família onde os sonhos existem para serem realizados.

“Eu já estou na música há muitos anos, mas não quero sair da música porque é muito importante para mim. Eu toco bateria e gosto de tocar bateria. Sinto-me bem a tocar bateria. É um instrumento muito útil hoje em dia”.

Image and video hosting by TinyPic Com os olhos castanhos, o cabelo grisalho e óculos de massa grossa, Jorge começa por falar com timidez, mas rapidamente se revela um excelente comunicador e nos fala abertamente e com um sorriso humilde nos lábios, principalmente quando o tema é a música. Com 39 anos, é um dos utentes do Elo Social – Associação para a Integração e Apoio ao Deficiente Jovem e Adulto.

Principais características

Esta é uma Instituição Particular de Solidariedade Social que apoia pessoas portadoras de deficiência mental, nos vetores de formação, emprego, apoio ocupacional e apoio residencial, tendo como grande objetivo promover a sua integração social e profissional.

Fundada a 24 de Outubro de 1983, a Associação conseguiu edificar um conjunto de estruturas onde, atualmente, são apoiadas 105 pessoas, com deficiência de nível ligeiro, moderado, severo e profundo, nas respostas sociais de Centro de Atividades Ocupacionais (CAO), Centro de Emprego Protegido (CEP) e Lar Residencial (SAR).

Jorge é baterista. A sua banda chama-se Panteras Negras, foi criada pelo Elo Social e conta já com inúmeras atuações em Portugal e algumas em Espanha.

Este grupo musical é constituído por cinco elementos: o baterista (Jorge), o percussionista (Francisco), e a segunda voz (Bruno) são utentes do Elo Social. A banda tem ainda dois animadores socioculturais que desempenham as funções de baixista e vocalista (João Alves, que é também guitarrista da banda Pesticida).

Numa entrevista ao Boas Notícias, Jorge explicou que, nas festas da instituição, os Panteras Negras são “o grupo mais aplaudido”. Os Panteras Negras até já lançaram um CD de temas de música Portuguesa.

Aposta na autonomia – O Centro de Emprego Protegido

Através do Centro de Emprego Protegido (CEP) e do Lar Residencial (SAR), o Elo Social promove a integração dos seus utentes na sociedade. O objetivo é que se tornem mais autónomos, numa residência, por exemplo, e consigam ter o seu próprio emprego.

Image and video hosting by TinyPic Lavandaria, estofamento, carpintaria e jardinagem são alguns dos trabalhos desenvolvidos pelos utentes do Elo Social, dentro da própria instituição. Qualquer pessoa pode solicitar estes serviços, contribuindo para o ordenado dos utentes e para a sua própria autonomia.

No Centro de Emprego Protegido, também se embalam talheres para os aviões e fazem Serviços de Apoio aos Transportes da Ação Social da Câmara Municipal de Lisboa: é aqui que trabalha Luís, durante a manhã. “As crianças têm de estar entregues até o máximo às 10h. São ordens que a gente tem. Ao meio dia e meia vou para a lavandaria e os outros para o estofamento, etc.”, explicou ao Boas Notícias.

Luís está sempre muito ocupado, mas é isso que o faz feliz: “Gosto muito de estar aqui. É uma família que eu tenho. A minha segunda família. Ninguém me tira mais nada. Isto tem uma história bonita.”

O Centro de Emprego Protegido (CEP), no Elo Social, tem por objetivo assegurar às pessoas com deficiência, que não têm oportunidade de integração no mercado de trabalho, o desempenho de uma atividade produtiva e, sempre que possível, a transição para o mercado de emprego normal.

Neste Centro, estão integrados profissionalmente 29 pessoas com deficiência e os serviços são coordenados por profissionais competentes em cada uma das áreas. 

Aposta na autonomia – Os Serviços de Apoio Residencial

Para além do CEP, também os Serviços de Apoio Residencial promovem a autonomia afetiva, pessoal e social dos utentes da instituição. Existe apoio residencial de natureza mais assistencial para os indivíduos com maior nível de dependência, mas também residências de transição e, para os mais independentes, as residências supervisionadas e autónomas, no exterior da instituição.

Image and video hosting by TinyPic Paula, utente do Elo Social, está numa dessas residências. “É como se já estivéssemos na nossa própria casa. Fazemos o pequeno-almoço de manhã, porque não temos lá ninguém de manhã, só de tarde é que temos lá uma senhora, a partir das 4, a orientar-nos o comer, mas de manhã estamos completamente sozinhos e à noite, a partir da meia noite” explicou, entre risos, ao Boas Notícias.

“Cada um faz a sua tarefa. Tentamos ser os mais autónomos possíveis. Pelo menos eu vejo, se é preciso mudar o pó, descascar alguma coisa, arranjar uma salada, por exemplo”, contou. Para Paula, esta é como se fosse a sua casa. “Sou feliz aqui, as pessoas são boas”.

Mais recentemente, a instituição estendeu a possibilidade de vir a apoiar os pais dos utentes da associação, quando, por motivo de idade ou de saúde, venham a necessitar de apoio dos serviços de Centro de Dia, Apoio Domiciliário e Lazer.

Financiamento e papel da família
 

Relativamente ao financiamento do Elo Social, Ricardo Rodrigues, psicólogo e responsável pelo voluntariado da instituição, explicou que “o peso maior é da Segurança Social, mas há uma comparticipação por parte das famílias. Para além disso, a instituição recebe donativos de quem queira contribuir para o seu funcionamento.
 
No entanto, apesar da importância do Elo Social para os seus utentes, esta associação não descura a presença e colaboração das famílias. “A família é a pedra basilar desta instituição. Procuramos sempre manter os laços familiares, desde que eles existam. O papel desta organização é complementar o papel da família, e não substituí-lo”, explicou António Martins, diretor técnico da instituição.

Fonte de esperança

Image and video hosting by TinyPicContribuindo como um verdadeiro “Elo” de ligação e integração Social, esta associação contribui de forma significativa para a qualidade de vida dos portadores de deficiência mental, bem como das suas famílias.

Este é também um Elo de esperança e convicção numa vida que ainda lhes há de trazer muitos frutos. O Jorge, o Luís, a Paula e tantos outros como eles estão no Elo Social por uma razão: ter um futuro melhor.

“Não nos podemos exaltar, não nos podemos aborrecer, não podemos ficar magoados, chateados. Os nossos monitores gostam também de nós e nós também gostamos. Limpamos as casas de banho, o chão para depois termos um futuro melhor”, disse Jorge, o baterista, com 39 anos.

Mas a música continua a ser um seu sonho: “Sempre gostei de música e vou continuar a tocar para continuar um futuro melhor. Não vou deixar aquilo! Não vou deixar a minha bateria! Não vou não! Não quero deixar”, disse.

 Um sonho de que não vai desistir, mesmo a caminho dos 40 anos e mesmo sendo portador de deficiência mental, até porque é a música que, segundo ele, “dá cor à vida e dá alegria à vida”.

Marta Correia

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