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Economia azul portuguesa

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Há mar e mar, há ir e voltar – já o dizia o célebre poeta e publicitário, Alexandre O’Neill. E hoje, para onde nos leva e o que nos traz o mar português? Temos vários exemplos de excelência…

Comecemos pelos bons números que têm sido registados a Norte, no Porto de Leixões.

No final de junho deste ano, o Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões anunciava o acolhimento de um número recorde de passageiros e navios. Verificou-se um aumento de 60% nos primeiros cinco meses do ano relativamente ao período homólogo de 2016.

À data já fora ultrapassada a fasquia dos 29 mil passageiros com 31 escalas de navios entre janeiro e maio deste ano, tendo sido este último mês o melhor de sempre em Leixões com 22 escalas de cruzeiros e 19481 passageiros. Fazendo um balanço do primeiro semestre, os valores apresentados foram igualmente positivos.

A atividade de cruzeiros no Porto de Leixões registou, no primeiro semestre de 2017, um crescimento de 29% em escalas de navios de cruzeiro e um crescimento de 64% no número de passageiros, comparativamente ao mesmo período de 2016.

Nos primeiros seis meses do ano, os Terminais de Cruzeiros do Porto de Leixões receberam 45 navios e 40 917 passageiros, na sua maioria britânicos, alemães, americanos e japoneses.

Segundo o Porto de Leixões, estes números traduzem ainda um crescimento de 15% no número de escalas e de 24% no número de passageiros em comparação com o mesmo período de 2015 – considerado o melhor ano para a atividade de cruzeiros a Norte.

Durante este primeiro semestre de 2017, registou-se também a escala inaugural de mais de seis navios, num total de 11 escalas inaugurais agendadas até final do ano.

Na expetativa de que as previsões se venham a confirmar, 2017 poderá ser o melhor ano de sempre para a atividade de cruzeiros em Leixões, esperando um total de 105 escalas e cerca de 104 000 passageiros.

Refletindo que muitos destes passageiros são turistas, o possível retorno económico para a cidade de Matosinhos, Porto e região envolvente é enorme.

Mas, além da vertente turística, o Porto de Leixões também se pode orgulhar de, entre janeiro e junho deste ano, ter registado um crescimento de 9% no número de toneladas movimentadas. No período foram movimentadas 9,7 milhões de toneladas de mercadorias, com as cargas ro-ro (roll onroll off, ou seja, navios nos quais a carga entra e sai pelos seus próprios meios, através de rodas – automóveis, autocarros, caminhões, trailers, etc…) a aumentarem 12% e a reforçarem a liderança deste porto neste segmento.

Embora se tenha verificado uma ligeira quebra nos contentores e na carga geral fracionada, os resultados são expressivos no que diz respeito aos granéis líquidos, que registaram um aumento de mais de um milhão de toneladas (+34%), em comparação com 2016, chegando a totalizar 4,3 milhões de toneladas no semestre.

As exportações de mercadorias estiveram em destaque, tendo alancado os 2,6 milhões de toneladas, mais 3,4% do que os valores obtidos nos mesmos meses de 2016.

E sendo o nosso país tão largamente banhado por um oceano que nos traz turistas e mercadorias essenciais à nossa economia, rumamos mais para Sul e chegamos ao Porto de Sines.

Considerado líder nacional na quantidade de mercadorias movimentadas, este porto apresenta condições naturais ímpares na costa portuguesa para acolher todos os tipos de navios. Localizado na fachada atlântica da Península Ibérica, no cruzamento das principais rotas marítimas internacionais Norte-Sul e Este-Oeste, o Porto de Sines assume-se como a “Porta Atlântica da Europa”.

José Luís Cacho, Presidente da Administração do Porto de Sines (APS), esclarece-nos que, em termos operacionais, este porto de águas profundas superou em 2016 os 51 milhões de toneladas. Terminou o “primeiro semestre de 2017 com uma movimentação total de 25,8 milhões de toneladas, correspondendo a uma variação homóloga de 7%. No segmento da carga contentorizada, o Terminal de Contentores de Sines – Terminal XXI registou um crescimento de 34% face ao ano transato, com uma movimentação de 926.212 TEU (Twenty-foot Equivalent Unit – unidade equivalente a 20 pés – um TEU representa a capacidade de carga de um contentor marítimo normal: 20 pés de comprimento, por oito de largura e oito de altura).

Com excelentes acessibilidades marítimas, o Porto de Sines pode movimentar diferentes tipos de mercadorias nos seus variados e modernos terminais especializados. Entre eles, falamos do Terminal de Granéis Líquidos: o maior terminal de granéis líquidos do país, concebido numa arquitetura de multicliente e multiproduto. Dispõe de seis postos de acostagem com capacidade para receber navios de porte até 350.000 toneladas Dwt, e permite a movimentação simultânea de diferentes produtos (crude, refinados, gases liquefeitos e outros granéis líquidos). Já o Terminal Petroquímico oferece dois postos de acostagem que permitem a receção de navios até 20.000 m3 de capacidade de carga que pode ser Propileno, Etileno, Butadieno, ETBE, Etanol, MTBE, Mescla Aromática e/ou Metanol. O Terminal Multipurpose, tal como o nome indica, está vocacionado para a movimentação de granéis sólidos, carga geral e ro-ro. O carvão é o principal produto aqui movimentado, além de outros granéis sólidos (estilha, ureia, enxofre, etc…), e a carga geral recebida pode ser desde maquinaria até gado vivo. Possui quatro cais de acostagem que permitem a receção de navios até 190.000 toneladas Dwt. O Terminal de Contentores, denominado Terminal XXI, tem atualmente um cais com um comprimento de 946 + 200 metros com nove gruas pórticos post-panamax e super post-panamax e duas gruas móveis. Os 39,1 hectares de área de armazenagem têm uma capacidade total de 2 100 000 TEU por ano.

Porém, o terminal mais relevante do Porto de Sines é o Terminal de Gás Natural. “Tem uma enorme importância estratégica nacional uma vez que se constitui como alternativa ao gasoduto terrestre”. Está equipado com um posto de acostagem que permite a receção de navios metaneiros (navio-tanque que realiza o transporte de gás natural) até 225.000 m3, dispondo de três tanques de armazenagem com capacidade para 390.000 m3 de gás natural liquefeito.

Ao contrário do que ocorre com outros portos europeus, José Cacho garante que “o Porto de Sines tem capacidade de expansão em todos os terminais portuários, que permitem um desenvolvimento sustentado em perfeita articulação com o crescimento da cidade e da zona industrial”. Paralelamente, o facto de trabalhar 24h em contínuo e de ter terminais tão especializados, coloca este porto nacional no 15º lugar no ranking Europeu de carga contentorizada e no Top 100 dos portos mundiais de contentores, desde 2014.

Além da excelência que o país confirma no âmbito da atividade portuária, a aquicultura deve e tem sido a aposta de empresas como a Oceano Fresco.

Depois de vários anos a trabalhar em I&D numa multinacional de melhoramento (breeding) de plantas, em 2015 Bernardo Ferreira de Carvalho aplica a mesma abordagem para a aquicultura de bivalves.

Instalada no MiraCenter, esta é uma empresa que alia a biotecnologia com a aquicultura para a “produção de variedades de bivalves com desempenho superior para os aquicultores, a um custo competitivo, respeitando a sustentabilidade e a segurança para o consumidor final”.

Atualmente, Bernardo Carvalho, CEO da empresa, admite que “o principal objetivo é revitalizar o cultivo da amêijoa boa (também denominada em Portugal por amêijoa rainha)”.

Apesar de ainda não estar a comercializar o seu produto, a Oceano Fresco tem sido procurada por “por produtores nacionais e internacionais (Espanha e Itália), que pretendem comprar semente para colocar nas suas zonas de produção”.

Bernardo Carvalho reconhece que “Portugal e o governo português têm olhado de forma mais cuidada, preocupada, e interessada para o mar e para o seu potencial, o que se tem refletido em algumas medidas que poderão, com certeza, impulsionar a economia azul e potenciar bons e sustentáveis negócios”. Um exemplo é o Simplex 2016 “Aquicultura mais simples”, promovido pelo Governo Português e que visa a potenciação dos recursos da Economia Azul, um licenciamento simplificado para esta atividade e que a Oceano Fresco ainda vai solicitar neste ano para a construção de uma unidade produtiva.

“Esta nossa maternidade será importante para desenvolver o setor aquícola de bivalves porque: (i) os aquicultores de bivalves têm grande falta de semente, tanto na Europa em geral como em Portugal em particular; (ii) neste momento não há praticamente nenhuma maternidade de bivalves a operar em Portugal, por isso os aquicultores têm que importar a semente; (iii) caso houvesse semente em maior quantidade e qualidade, a produção aquícola portuguesa de bivalves poderia aumentar bastante (em volume e valor)”, explica o CEO.

O cenário mundial em que vivemos – população a aumentar – exige produção de alimentos em maior quantidade e qualidade. Bernardo Carvalho assinala que “é neste contexto que se explica a crescente importância dos recursos marinhos como alternativa à sobre-exploração do meio terrestre. Estima-se que nos próximos 20 anos mais de 40 milhões de toneladas de alimento de origem aquática sejam necessárias de forma a dar resposta ao atual consumo per capita (19,2 kg/ano). Perspetiva-se, pois, que o consumo destes alimentos aumente, estimando-se em 2022, um consumo médio mundial per capita de 20,7 kg/ano”. Uma situação que motivou a criação da Oceano Fresco e que antevê a viabilidade e o sucesso do seu produto.

Com igual enquadramento, a ALGAplus comercializa, para a indústria alimentar, cosmética e restauração algas autóctones de sete espécies – frescas, conservadas em sal, desidratadas inteiras, em flocos ou farinha.

A componente diferenciadora deste produto reside no cultivo integrado em terra de algas da Costa Atlântica, de forma sustentável e com certificação biológica, garantindo “maior controlo sobre a produção, possibilidade de adaptar a necessidades específicas em composição da biomassa e no cultivo de novas espécies, qualidade constante da matéria-prima e provimento durante todo ano”, afirma Ana Ribeiro, do Departamento de Marketing da empresa.

Deste modo, a ALGAplus contorna a sazonalidade e a escassez natural de algumas algas, evitando quebras e produto e mantendo a preservação da biodiversidade da zona costeira Atlântica.

Sendo a única empresa a cultivar macroalgas em Portugal, numa escala comercial e, para algumas espécies, a única produtora europeia, esta empresa que faz a sua exploração na ria de Aveiro, detém três marcas para cada um dos diferentes tipos de público: ALGA+® para a venda das algas a granel em diferentes formatos e serviços a empresas; Tok de Mar® para o retalho de produtos alimentares à base de algas e para restauração e Sea Originals para produtos de bem-estar disponíveis no retalho, SPAs e unidades hoteleiras.

Paralelamente, a ALGAplus tem participado em vários projetos de co-inovação (com outras empresas e universidades) com o objetivo de criar novos produtos que promovam uma alimentação e um estilo de vida saudáveis, promovendo o cultivo de algas, até então praticamente inexistente, e a inclusão de algas na alimentação, outrora comum em algumas regiões e nas quais havia desaparecido. Pão d’Algas, mel salgado, conserva de sardinha ou gin, ambos com algas, são alguns desses exemplos.

Mais recentemente, também estão envolvidos no “projeto SHARP (Seaweed for Healthier Traditional Food Products), cofinanciado pelo COMPETE 2020 e em co-promoção com as empresas Irmãos Monteiro S.A., CentralRest Lda e a Universidade de Aveiro. Esta equipa multidisciplinar está a desenvolver novos produtos alimentares à base de algas marinhas, com benefícios funcionais e nutricionais validados, para prevenção de doenças cardiovasculares e promoção de envelhecimento saudável”, adianta Ana Ribeiro.

França, Reino Unidos, Polónia, Suíça, Grécia, Holanda, Dinamarca, Austrália, Alemanha, Espanha e Itália são os países que mais procuram as macroalgas ALGAplus e que terão contribuído para, no ano de 2016, a empresa ter atingido um volume de faturação perto dos 200 mil euros.

A responsável de Marketing revela que “para 2017/2018 a estratégia passa pela adaptação dos esteiros onde estamos instalados por forma a chegar rapidamente às 100 toneladas de algas”, até porque “são fundamentais à biodiversidade, mas também à beleza nas nossas zonas costeiras” e têm um elevado valor nutricional (ricas em fibra, minerais, vitaminas essenciais, elevado teor de ómega 3 e poucas calorias) e funcional (proteção gástrica, redução do risco de doenças cardiovasculares, diabetes e obesidade, até à redução da ocorrência de alguns tipos de cancro ou doenças neuro-degenerativas).

Do Atlântico, mais propriamente da cidade da Horta, na ilha do Faial, Açores, encontramos uma das quatro empresas do género no mundo e única na Europa. A Flying Sharks é especialista na captura e transporte de peixes e de animais marinhos invertebrados vivos para aquários públicos em vários países.

Embora esteja sediada nos Açores, a Flying Sharks desenvolve a sua atividade noutros pontos, como Olhão, Funchal e Peniche, locais onde tem mergulhadores, biólogos e outros fornecedores que capturam os animais, individualmente, “usando técnicas não destrutivas e que permitem obter exatamente o que se quer e do tamanho exato pretendido, não havendo lugar a rejeições. É por isso, uma atividade altamente específica e sustentável até porque as espécies-alvo caracterizam-se, habitualmente, por não terem qualquer valor significativo em termos de pesca comercial”, clarifica o membro da empresa.

Com licença de “Transportador de Longo Curso” atribuída pela Direção Geral de Veterinária (DGV), o serviço de transporte assegurado pela Flying Sharks é realizado desde as suas bases de operação até aos clientes, quer seja em tanques, quer seja em sacos de plástico com oxigénio e água, em caixas de esferovite seladas e dentro de caixas de cartão. As deslocações podem ser feitas por ar, terra ou mar, uma vez que a empresa tem clientes em vários países, desde os Estados Unidos da América, Alemanha, Emirados Árabes Unidos, Japão, França, Áustria, China, Rússia, Israel, entre outros.

João Correia destaca uma das encomendas mais recentes e que foi uma das maiores até ao momento – o transporte de 3100 animais para o recém-inaugurado Aquário de Istambul, na Turquia. Em Portugal, Oceanário de Lisboa, Fluviário de Mora, Sealife do Porto, Zoomarine e a Estação Litoral da Aguda são alguns dos habituais clientes nacionais da empresa.

Apesar de encontrarem várias barreiras administrativas na concretização do seu trabalho, têm conseguido ultrapassá-las devido à sua “abordagem profissional e elevado sentido ético”. Além de contribuírem para a educação ambiental, aumentando “a consciência pública sobre o estado dos oceanos, mostrando as belezas que ele esconde. A empresa pretende ainda mostrar que existem formas alternativas de explorar os oceanos, ao mesmo tempo contribuir para a criação emprego e de oportunidades de investigação”. Razão pela qual, desde 2009, a Flying Sharks “adiciona 10% ao total da fatura dos seus serviços, seguindo esses fundos diretamente para variados projetos de investigação relacionados com o meio marinho”. Com este fundo já apoiaram vários estudantes e investigadores em estudos realizados Portugal, Costa Rica, Estados Unidos, Turquia, Índia, entre muitos outros locais.

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