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Dos resíduos aos têxteis

Nova roupagem para os desperdícios alimentares
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Roupas de chá, folhas de ananás ou desperdícios de leite. Parece estranho mas, um pouco por todo o mundo, os resíduos alimentares posicionam-se como alternativa viável às matérias-primas convencionais. O objetivo? Dar um novo caminho de sustentabilidade a uma indústria conhecida pelo seu pesado impacto ambiental.

“Na moda, um dia estás in e no outro estás out”. As palavras são da modelo alemã Heidi Klum, transformadas em mote de um reality show sobre estilistas. A frase sobre esta indústria multimilionária pode ser aplicada aos designers, a modelos ou aos estilos de roupa, padrões e cortes. Contudo, face a uma tendência global de encontrar alternativas sustentáveis para a produção têxtil, a máxima de Heidi Klum parece incidir também sobre o lado escondido da indústria. Será que produção intensiva e insustentável de matérias-primas têxteis está a caminhar para um out? O ambiente iria, certamente, agradecer.

Os têxteis são, atualmente, o quarto produto com maior impacto ambiental negativo na Europa, a seguir à alimentação/bebidas, transporte e habitação, segundo dados da Comissão Europeia. Além da produção intensiva de matérias-primas, os métodos de fabrico convencionais implicam cargas elevadas para o ambiente, através dos diversos processos de transformação de combustíveis fósseis em fibras sintéticas, lavagem e tingimento de tecidos.

Perante a pegada ambiental da indústria têxtil, surgem cada vez mais projetos alternativos que querem transformar a forma como o planeta se veste. Em comum, têm a ambição de pegar em produtos naturais – sobretudo resíduos ou desperdícios orgânicos – e criar métodos de produção alternativos de roupa, sapatos e até acessórios.

Do chá aos coletes e sapatos

O programa de Vestuário, Merchandising e Design da Universidade Estadual do Iowa, Estados Unidos, é um exemplo da inovação que tem sido feita nesta indústria. Aqui, sob coordenação da professora universitária Young-A Lee, uma equipa investiga, há quatro anos, uma alternativa vegan e sustentável ao couro, com uma matéria-prima inesperada: o chá.

A equipa recorre a um subproduto – fibras de celulose – do Kombucha, uma bebida chinesa criada a partir da fermentação do chá. Na produção da bebida, a fermentação com uma colónia de bactérias e levedura resulta numa espécie de película de fibras de celulose. Assim que a fermentação chega ao fim – e o Kombucha está pronto – as fibras de celulose são normalmente descartadas como resíduos.

É nesta fase que os investigadores da Universidade Estadual do Iowa intervêm. Ao estudar as propriedades da película de fibras de celulose, a equipa de Young-A Lee encontrou um material interessante para a indústria têxtil, com textura e maleabilidade semelhantes ao couro.

A descoberta é sinónimo de uma tripla vantagem ambiental: em primeiro lugar, Young-A Lee otimiza o ciclo do produto do Kombucha, numa lógica circular, aproveitando um material até então desperdiçado; em segundo lugar, esta alternativa ao couro oferece também uma solução mais sustentável de matéria-prima à indústria têxtil; e, por fim, o material é completamente biodegradável.

Ainda em fase de investigação e protótipos, esta película de fibras de celulose já foi usada no fabrico de coletes, sapatos e malas. Apesar do potencial, existem ainda vários aspectos a melhorar, antes que o material possa ser uma alternativa viável à confecção de vestuário. Em contacto com a humidade, por exemplo, as roupas feitas com este falso couro degradam-se mais rapidamente. Um dilema que a equipa de Young-A Lee está, atualmente, a tentar contornar.

Piñatex: Parece couro, mas vem do ananás

“Tem coroa, mas não é rei”. Assim começa uma adivinha tradicional portuguesa sobre o ananás. A “coroa” refere-se, claro está, ao tufo de folhas características que o fruto tropical ostenta. No entanto, a maioria desta folhagem não chega sequer à vista do consumidor final: as grandes folhas da planta são, por norma, cortadas e rejeitadas como resíduos.

No entanto, o lixo de uns pode bem tornar-se num tesouro para outros, nomeadamente para o ambiente e para a indústria têxtil. Que o diga Carmen Hijosa, designer espanhola que tem dedicado os últimos anos a analisar, pormenorizadamente, as folhas não aproveitadas do ananás. Ao longo da sua investigação, a designer conseguiu desenvolver um têxtil não-tecido que tem como matéria-prima as fibras extraídas destas folhas.

Registado com o nome de Piñatex, o material é semelhante ao couro convencional e tem sido usado por marcas e designers na produção, com êxito, de roupa, sapatos, malas e até mobiliário.

Com possibilidade de diferentes espessuras e texturas (semelhantes às do couro), padrões e de inserção de costuras, o Piñatex ganha adeptos pela sua versatilidade – essencial para que possa ser adotado na moda como alternativa de matéria-prima. Atualmente, o material é vendido pela Ananas Anam, a empresa londrina criada, em 2013, por Carmen Hijosa. Já o processo de extração das fibras das folhas de ananás é da responsabilidade de comunidades agrícolas nas Filipinas. No país é também feita a transformação das fibras num substrato não-tecido. O material é então remetido para uma fábrica em Espanha, onde são feitos os acabamentos. A Ananas Anam vende o têxtil a outras empresas, designers e artistas – ou seja, não é responsável pela criação dos produtos finais.

O preço é competitivo, mas a grande mais-valia do Piñatex é sobretudo ambiental. Ao usar um subproduto da produção agrícola de ananás (até então visto como resíduo), o material é gerado sem custos adicionais ambientais e não carece de mais solo, água ou fertilizantes. Além disso, as comunidades agrícolas das Filipinas ganham novos proveitos económicos com a comercialização destas fibras. Os agricultores filipinos beneficiam ainda da venda de biomassa (subproduto da extração das fibras) para fins energéticos.

Para fechar o ciclo sustentável do produto, a Ananas Anam está agora a tentar desenvolver um Piñatex 100% biodegradável. Mas mesmo sem esta característica, o material já tem conquistado diversos prémios, em reconhecimento do seu contributo sustentável para o mundo da moda.

QMILK: O leite azedo que se veste como seda

Longe do chá fermentado ou dos ananases, a start-up alemã QMILK também quer dar cartas na oferta de alternativas sustentáveis à produção de roupa. Tal como o nome da empresa indica, aqui o leite é a matéria-prima. Mas não o leite comum, vendido para fins alimentares. A empresa da empreendedora Anke Domaske aproveita o leite azedo, que nem sequer chega às prateleiras do supermercado, para produzir fibras naturais. O material pode depois ser aplicado nos mais variados usos, desde roupa até papel higiénico.

A aventura empresarial pelo mundo dos laticínios começou quando Anke Domaske procurava roupa antialérgica para o seu padrasto, diagnosticado com cancro. Com o sistema imunitário enfraquecido, ele precisava de têxteis sem químicos potencialmente tóxicos – algo difícil de encontrar na maioria do vestuário produzido em larga escala. Depois de descobrir o potencial das fibras de leite, a empresária investigou um processo caseiro e natural para a extração das fibras.

Hoje em dia, com a QMILK criada, o processo de extração sustentável já está patenteado. A suavidade e leveza do material torna-o especialmente adequado à produção do vestuário. As peças feitas com estas fibras de leite assemelham-se à seda e, em termos técnicos, têm um bom desempenho no que diz respeito à absorção de humidade e controlo de temperatura. Além disso, são indicadas para peles sensíveis, dada a ausência de tratamentos químicos e propriedades antibacterianas.

O objetivo de Anke Domaske é que as fibras QMILK se tornem uma alternativa viável à presença de plásticos nos têxteis convencionais. Esta solução sustentável tem um impacto ambiental reduzido, aproveitando o leite azedo que iria ser rejeitado pelos produtores, e é inteiramente biodegradável. Um estudo da Universidade de Berlim concluiu, a propósito, que o desperdício de leite na Alemanha chega aos dois milhões de toneladas, por ano.

 

A QMILK sublinha que as fibras podem ser usadas na produção de fios, feltros, têxteis não-tecidos e até papel. Tal como a Ananas Anam, também a start-up alemã vende as fibras orgânicas a outras empresas, responsáveis pelo fabrico das peças finais.

Um destes exemplos foi a chegada, em fevereiro deste ano, de um novo papel higiénico ao mercado italiano, fruto de uma parceria entre a QMILK e a Lucart, especialista em produção de papel. O novo produto, que aposta num segmento premium, tira partido da suavidade das fibras de leite. A matéria-prima sustentável é, aliás, o trunfo principal da estratégia de marketing deste papel higiénico, que começa no próprio nome: Carezza di Latte (“carícia de leite”, em português). Uma prova de que os produtos inovadores e ambientalmente responsáveis nesta indústria têm espaço para brilhar, junto das marcas e dos consumidores.

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