i9magazine

Amor digital: Porque conhecemos pessoas online?

Versão para impressão

Milhões de pessoas passaram a usar as novas ferramentas digitais para superar constrangimentos sociais e, em alguns casos, a sua própria timidez. Efetivamente, os utilizadores do Tinder parecem ter baixa autoestima e uma perceção mais negativa do seu rosto e corpo que aqueles que não usam a app. As conclusões foram apresentadas no ano passado, por Jessica Strübel, da Universidade do Texas do Norte (Estados Unidos), cujo estudo, em coautoria com Trent Petrie, foi apresentado na convenção anual da Associação Americana de Psicologia.

Para alguns, as aplicações são a grande promessa de conhecer um parceiro para a vida, para outros servem apenas como meio para satisfazer necessidades físicas.

Tendo em consideração os dados fornecidos exclusivamente à BBC pela consultora analítica App Annie, o media inglês revelou no artigo “The dating game – Which dating apps are winning the hearts of the world?” (“O jogo dos encontros – Que aplicações estão a conquistar o mundo?”) quais as apps de encontros mais descarregadas em 50 países (em 2015).

Uma década após o seu lançamento, o Badoo era a app mais descarregada em 21 países, sendo muito usado sobretudo na região da América Latina, Portugal, Espanha e Itália e países da Europa de Leste. Já o Tinder é mais utilizado em nações anglo-saxónicas (América do Norte, Norte da Europa e Austrália).

De assinalar que a BBC encarou as aplicações de encontros como aquelas definidas e que se anunciavam para tal ou que eram usadas principalmente para esse fim. Plataformas como o Facebook ou o Whatsapp não foram tidas em análise, embora muitas pessoas também as usem para conhecer novas pessoas.

Segundo o Statista, portal online de estatísticas, pesquisas de mercado e business intelligence, consoante o tipo de relação que a pessoa procura (mais séria ou apenas casual), o perfil de aplicações usadas altera-se, assim como de região para região.

A análise, que incidiu sobre os serviços de encontros, avaliou os segmentos de matchmaking, encontros online e encontros casuais. Consideraram o matchmaking como um serviço online que pesquisa o parceiro ideal segundo algoritmos e cuja característica principal reside no facto de os membros registados procurarem parceiros que estejam dispostos a entrarem num compromisso de longo prazo. Os encontros online foram percecionados como serviços online que disponibilizam uma plataforma através da qual os utilizadores podem flertar, conversar ou apaixonarem-se. Estão mais focados no contacto casual e a pesquisa é realizada pelo próprio membro usando filtros pré-definidos, como idade, sexo, localização e outros atributos. Por sua vez, os encontros casuais compreendem os serviços online para o estabelecimento de contatos sexualmente orientados fora dos relacionamentos românticos. Estes não são exclusivamente dirigidos a solteiros, mas também a pessoas comprometidas. Fora do estudo ficaram os eventos de speed dating, agências matrimoniais físicas e aplicações de nicho.

A Statista constatou que o impacto económico dos serviços de encontros é muito significativo nos Estados Unidos e que o mesmo deverá crescer até 2021 em todos os segmentos. O mesmo acontece na Europa e na China (esta a registar a maior previsão de crescimento em 2021, face ao presente ano). Estas duas regiões, apesar de terem menos receitas provenientes deste tipo de serviços, seguem a tendência norte-americana cujo retorno económico advém em especial do matchmaking.

Para o nosso país, o portal de estatísticas aponta que a receita proveniente de encontros online deverá registar um aumento anual de 3,5%, atingindo um volume de mercado de quatro milhões de dólares em quatro anos. A taxa de penetração também irá crescer de 8,3% para os 8,9%. Globalmente, o impacto económico dos serviços de encontros vai atingir os 14 milhões de dólares em 2021, com um crescimento de 4% ao ano.

Os números divulgados não deixam margem para dúvidas – o valor económico por detrás de um “match” (correspondência) é muito expressivo. À semelhança das grandes regiões estudadas, o setor do matchmaking também é aquele que, em Portugal, tem o maior volume (seis milhões de dólares em 2017).

Lançado em 2012, sabemos que o Tinder é o aplicativo social líder do mundo para conhecer novas pessoas. Mas quem são essas pessoas e o que procuram nas aplicações de encontros online?

Após consultar mais de nove mil millennials norte-americanos (homens e mulheres), o Tinder apresentou o “Modern Dating Myths” (Mitos Modernos sobre Encontros”). E, por incrível que possa parecer a alguns de nós, descobriu-se que as pessoas que fazem encontros online são mais propensas a ter um compromisso sério do que aquelas que não fazem encontros online.

Esta é uma geração baseada em tecnologia, por isso, de acordo com o inquérito, 63% dos que usam o Tinder têm mais encontros do que aqueles que apenas contactam pessoal e fisicamente com as pessoas. Jess Carnino, socióloga do Tinder, frisa que “ao longo dos últimos cinco anos, aplicações como o Tinder têm desempenhado um papel significativo na conexão de pessoas para relações a longo prazo. Enquanto a hesitação para usar o Tinder pode derivar de noções negativas preconcebidas, provámos que os solteiros vão ter tanto, se não mais, sucesso ao usar aplicações de encontros online que os que namoram apenas offline”.

Em 2015, o Pew Research Center, um think tank localizado em Washington que fornece informações sobre questões, atitudes e tendências que estão a moldar os Estados Unidos e o mundo, pesquisou sobre a atividade de encontros online e verificou que, entre 2005 e 2015, houve um aumento de 15% dos adultos americanos que passaram a usar sites de namoro online ou apps mobile de encontros online. Da mesma forma que, enquanto em 2005 as pessoas que recorriam a estes sites estavam mais desesperadas para encontrar alguém para terem um relacionamento rondavam os 29%, esse número diminuiu para os 23%.

Efetivamente, o namoro online perdeu o estigma que tinha associado e a maioria dos americanos defende que esta é uma boa maneira para conhecer novas pessoas.Os encontros online subiram entre os adultos com menos de 25 anos, bem como entre a faixa etária dos 55 – 64 anos. A pesquisa apontou ainda que um em cada cinco dos utilizadores de sites de encontros online pediu a alguém para ajudá-los com a completar o seu perfil e 5% dos americanos que estão em um casamento ou relacionamento sério afirmam terem conhecido o seu parceiro online.

Sobre os utilizadores do Tinder, no mesmo ano (2015), a Global Web Index, empresa tecnológica que fornece dados de perfil de público sobre os consumidores digitais para editores, agências de media e profissionais de marketing, indicou que grande parte dos inscritos visitou um site de encontros online a partir do seu PC, computador portátil ou via mobile. Em termos de perfil, eram sobretudo homens (62%), solteiros (54%) e com idade compreendida entre os 25 e 34 anos (45%). A maioria dos utilizadores pertencia ao meio urbano (76%).

Porém, a LendEDU, um marketplace online para refinanciamento de empréstimos estudantis, questionou mais de 13 mil estudantes universitários nos Estados Unidos sobre o quão sucedido pode ser o Tinder.

3.852 estudantes universitários atuais foram consultados de 2 de setembro de 2015 a 21 de março de 2017 para a primeira pergunta. Para a segunda pergunta, 9.761 estudantes universitários atuais foram consultados de 10 de novembro de 2015 a 21 de março de 2017. Apenas 29,2% dos utilizados disseram ter-se encontrado com alguém através da aplicação, contra 70,8% daqueles que responderam que não. 22,22% dos que usam o Tinder não estão à procura de uma nova conexão. Só 4, 16% assumiram estar à procura de um relacionamento. A maioria, 44,44%, referiu que utiliza a app para procrastinar e aumentar a confiança.

Qualquer que seja o motivo pelo qual se poderá interessar por aplicações e sites de encontros online, há alguns cuidados a ter em consideração. Já há pessoas contratadas para aperfeiçoar o seu perfil de utilizador online e que respondem pelo homem ou mulher aos “matches” recebidos. Além disso, o poder da Inteligência Artificial (IA), da Realidade Aumentada (RA) e da Realidade Aumentada (RA) também já atingiu este poderoso setor tecnológico.

A IA é um recurso que está “sempre ligado” e possibilita uma maior conveniência e economia de tempo. Os algoritmos de sites de namoro têm acesso a grandes quantidades de dados e por tal podem estabelecer combinações mais fortes, se bem que a dependência destes algoritmos pode levar a ignorar algumas correspondências favoráveis e as recomendações podem passar a basear-se em dados potencialmente irrelevantes.

Já a RV e a RA têm um potencial de parecerem mais reais e fáceis que poderão já não serem vistas e percecionadas como tecnologias de namoro online porque a experiência pode acontecer numa sala, em tempo real e o impacto ser maior e mais profundo porque os dispositivos que facilitarem esse contacto vão aproximar os sentidos, as emoções e o envolvimento entre as pessoas. Há várias possibilidades a explorar neste segmento, mas é preciso manter o utilizador informado e esclarecido para não voltarem a acontecer casos como o da aplicação OkCupid. Em abril deste ano a empresa foi processada por um dos seus utilizadores que pagou o acesso a um pacote de perfis especiais e logo percebeu que todos os gostos que recebia eram de perfis inativos. Ao contactar a OkCupid apenas recebeu um pedido de desculpas devido a um “erro de programação de software ou bug”. Imediatamente entrou com um processo em tribunal para receber o seu dinheiro de volta e por “outros danos”.

No Reino Unido, cerca de 7,8 milhões de adultos usaram sites de namoro online em 2016, acima de apenas 100 mil em 2000. E, assim como este número aumentou, também o número de vítimas de fraudes tem aumentado. Um novo relatório da Agência Nacional de Inteligência de Fraude do país descobriu que no ano passado, os solteiros foram enganados em 39 milhões de libras. O modo de atuação mais comum é criar um perfil falso online, começar a estabelecer uma relação de confiança com a pessoa, podendo obter emails e vídeos comprometedores e, rapidamente, os utilizadores são confrontados com a possibilidade de divulgação dessas informações em troca de grandes quantias de dinheiro.

Não podemos negar que a tecnologia digital no geral, e os smartphones em particular, transformaram muitos aspetos da sociedade, incluindo, como constatámos, como as pessoas procuram e estabelecem relações românticas. E, apesar de aspetos menos positivos e preocupações que o uso dos meios digitais para travar conhecimento entre pessoas possam suscitar, poderemos pensar e assumir a previsão de que “nos próximos 30 anos, o mundo vai ver muito mais dor que felicidade”? Esperemos que esta máxima, profetizada por Jack Ma, CEO do site chinês Alibaba, em abril deste ano numa palestra perante empreendedores, não se demonstre tão aterradora quanto o anunciado e que, mais uma vez, a humanidade, o amor e as relações humanas saiam vitoriosas!

O conteúdo Amor digital: Porque conhecemos pessoas online? aparece primeiro em i9 magazine.

Comentários

comentários

Pub

Live Facebook

Correio do Leitor

Subscreva a nossa Newsletter!

Receba notícias atualizadas no seu email!
* obrigatório

Pub